Questões de Concurso
Sobre morfologia em português
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No trecho – E o que ele dizia sobre a risada ajuda a entender a acomodação de muitos humoristas contemporâneos. Porque, quando eles humilham aqueles julgados inferiores, que parece fácil espezinhar, não funcionam bem como humoristas. – as expressões em destaque, estão correta e respectivamente substituídas, por
Para responder às questões de 1 a 4, leia a crônica abaixo.
Somos todos vítimas
Ivan Angelo
Num domingo frio de início do inverno, a população de São Paulo ficou chocada com uma cena jamais vista na cidade. A capa do jornal Estadinho trazia uma fotografia que ocupava toda a largura da página e mostrava uma família de seis pessoas, homem, mulher e quatro crianças, louros, de olhos azuis, morando sob o Viaduto do Chá, sem ter o que comer, com apenas a roupa do corpo e uma cuia de chimarrão que o homem tomava. O assunto dominou as conversas naquele 2 de junho de 1918 e invadiu a semana. Como era possível tal cena na metrópole que mais crescia no país? Que gente era aquela? O homem, argentino, trabalhara na grande fazenda de café do milionário Martinho Prado, havia contraído maleita, fora despedido e depositado com a família na capital, entregue à própria má sorte.
Noventa e cinco anos depois, as cenas mais vistas na cidade são de famílias dormindo na rua, sem ter o que comer, sem roupas e sem chimarrão, e de bandos de miseráveis drogados. No passado, vimos chocados um caso inédito; hoje, olhamos com anestesia da indiferença para a malta de zumbis e grupos de desvalidos, quando não os vemos com silenciosa revolta ou cauteloso receio. Como deixaram nossa cidade chegar a esse ponto? Como não fomos capazes de impedir esse horror quando era possível?
Foram vindo. Das injustiças sociais vieram, dos fracassos pessoais, das famílias desestruturadas, das fugas, das frustrações, das secas nordestinas e amorosas vieram, do abandono, das fragilidades e inseguranças, das revoltas sem rumo vieram, do alcoolismo, dos pais ausentes, da escola ausente, das bravatas imaturas, dos reformatórios vieram, dos abusos, dos maus-tratos, dos baratos, das baladas, da má educação, das carências, da falta de lugar, da doença mental vieram, da baixa estima, das prisões, do risco mal calculado, dos refúgios da alma vieram... — e formaram essas multidões que nos assustam.
Há alguns anos (dez?) dizia-se: é a Cracolândia, estão restritos à Cracolândia. Aquela água envenenada começou a vazar: Luz, Sé, brás, bom Retiro, Centro, Parque Dom Pedro, Cambuci, Mooca, Tatuapé, Campos Elíseos, Santa Cecília, Higienópolis, Avenida Paulista, baixos dos viadutos Rebouças e Doutor Arnaldo. Os moradores de Perdizes veem, consternados, que os caídos já amanhecem dormindo na porta dos seus prédios e casas. As ações espasmódicas das autoridades o que fizeram foi espalhá-los pela cidade.
Que fazer?
Pobres de nós, perplexos. brotam sentimentos xenófobos até nos melhores. São um risco para a saúde pública, dizem, disseminam doenças, aids, hepatites, tuberculose, sarna, micoses. Perguntam o que é pior para o conceito de cidade limpa: uma placa irregular, que vai gerar propina, ou um maltrapilho defecando e urinando na rua? Se alguém bem vestido fizer isso,será levado para a delegacia, enquadrado em algum ato de atentado ao pudor. Esses bandos de crianças e adolescentes que perambulam pelas ruas praticando furtos e fumando crack são as peças de reposição da malta de zumbis, advertem. Perguntam, punitivos: são infratores, malfeitores, criminosos ou o quê? Em que lei se enquadram? É enquadrá-los e agir. Afirmam: estão sendo exportados para São Paulo, as autoridades devem mandá-los de volta, cuidar dos nossos e mandar o resto de volta.
Estamos precisados de tanta coisa para nos tornar melhores e vem essa coisa a nos empurrar para o lado mais escuro de nós. Precisamos nos lembrar de que há uma mãe procurando seu menino desaparecido no meio daqueles bandos, para oferecerlhe um banho quente entre uma queda e outra; há uma irmã que guardou a boneca da caçula para quando a encontrar; há uma filha tentando salvar o pai já idoso e perdido; há uma esposa com filho à procura do marido, ainda com esperança... Há histórias... Há lágrimas... Há vítimas dos dois lados
Leia o fragmento a seguir e responda às questões 02 e 03.
“No início do mês, um assaltante matou um jovem em São Paulo com um tiro na cabeça, mesmo depois de a vítima ter lhe passado o celular. Identificado por câmeras do sistema de segurança do prédio do rapaz, o criminoso foi localizado pela polícia, mas – apesar de todos os registros que não deixam dúvidas sobre a autoria do assassinato – não ficará um dia preso”.
Considerando-se a norma culta, assinale a afirmativa incorreta.
As questões de 01 a 10 referem-se ao texto a seguir.
Vergonha à brasileira
Matheus Pichonelli
Veio de um usuário do Twitter um dos “melhores” comentários feitos até agora sobre a gritaria
em torno da vinda dos médicos estrangeiros (leia-se cubanos) ao Brasil. “Médico estrangeiro é
3 populismo. Tem que voltar a política de deixar morrer”.
Populismo, oportunismo, escravidão (?). Enquanto médicos, fariseus e doutores da lei tentam
filtrar os mosquitos, uma fila de camelos é engolida nos rincões fora da rota turística do País.
6 Em outras palavras, as pessoas seguem morrendo, sem que mereçam um franzir de testa de
quem parece disposto a armar uma Intifada1 contra o programa Mais Médicos.
Segundo mapeamento do governo, existem hoje 701 cidades no País sem um único médico a
9 postos. Sabe quantos brasileiros demonstraram, em chamada recente, interesse em trabalhar
nesses municípios? Zero. Nesses lugares, falta o básico do básico, conforme mostrou o
repórter Gabriel Bonis em sua visita a Sítio do Quinto, município do interior baiano onde a
12 população não tem para onde correr em caso de emergência (o caso mais simbólico foi a
morte, testemunhada por uma técnica em enfermagem e um vigia, de um homem que levou
uma facada e não pôde ser atendido porque não havia médico de plantão). Não estamos
15 falando de cirurgia de alta complexidade, mas de carência humana, cuja atuação garantiria o
tratamento mínimo para problemas mínimos como diarreia, gripe ou ferimentos leves, que
neste diapasão de interesses e serviços se transformam em tragédias diárias e
18 desproporcionais.
Tragédias que parecem não comover quem, de antemão, diz se sentir envergonhado pela leva
de navios negreiros a aportar por aqui atolados de médicos dispostos a nivelar por baixo a
21 medicina brasileira. Pois Jean Marie Le-Pen, o líder ultradireitista francês, de xenofobia
desavergonhada, seria capaz de corar ao ver a reação dos médicos brasileiros, de maioria
branca, que hostilizaram, vaiaram e chamaram de “escravos” os colegas cubanos, de maioria
24 negra, durante um curso de preparação em Fortaleza. O protesto, organizado pelo Sindicato
dos Médicos do Ceará, foi talvez o estágio mais alto de uma ofensiva que já teve até
presidente de conselho regional de medicina pregando, como num culto, o boicote aos
27 camaradas estrangeiros. Os manifestantes, que provavelmente se divertem ainda hoje com a
herança colonial supostamente encerrada por uma lei - não coincidentemente - denominada
Áurea, talvez inovassem a rebelião contra o estado das coisas no período anterior a 1888. O
30 método consiste em cuspir no escravo para manifestar uma repulsa fajuta à escravatura.
Parece um método pouco inteligente para quem levou seis anos para retirar o diploma. Não
cola.
33 O episódio mostra que, até mesmo quando se trata de salvar a vida humana, a vida humana é
contagiada pela mais devastadora das doenças: a ignorância d e quem enxerga o mundo entre
o certo e o errado e nada mais entre uma ponta e outra. A ignorância, neste caso, parece
36 desnudar um resquício de desumanidade presente em um dos últimos bolsões de um elitismo
pré-colonial. Um elitismo que tolera o esquecimento e a omissão, mas esperneia ao menor
sinal de desprestígio, este galgado longe, bem longe, dos salões onde mais se precisa de
39 médicos. Onde o jaleco se suja de terra ao fim do expediente.
A opção de ficar nos grandes centros é, de certo modo, compreensível. Não se discute as
fragilidades de um programa de emergência. Seria pouco razoável, por exemplo, negar a
42 ausência de uma estrutura adequada para a atuação de quaisquer médicos pelo interior do
País. Seria pouco razoável também negar a dificuldade para amarrar juridicamente um
contrato de trabalho que prevê a triangulação entre países (um deles, bem pouco afeito à
45 transparência) para remunerar o trabalhador. Não se nega ainda a necessidade de se regular
a atuação desse médico conforme o tamanho de sua responsabilidade. Não se discute a
necessidade de se validar diplomas com base em um critério honesto que não tenha como
48 finalidade a reserva de mercado. Da mesma forma, seria razoável (ou deveria ser) supor que a
urgência para a garantia de atendimento básico preceda os ajustes de rota – estes facilmente
remediados com boa vontade, o que não é o caso de uma vida por um fio.
51 Mas, para boa parte dos ativistas de ocasião, cruzar os braços diante da suposta politicagem,
do suposto populismo, do suposto oportunismo e do suposto navio negreiro é mais nobre do
que atacar o problema real. Parecem a versão remodelada da conferência das aranhas do
54 conto A Sereníssima República, de Machado de Assis. É a mais perfeita alegoria de nossa
incompetência histórica: “Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios retos, é o
partido retilíneo; outros pensam, ao contrário, que as teias devem ser trabalhadas com fios
57 curvos, - é o partido curvilíneo. Há ainda um terceiro partido, misto e central, com este
postulado: as teias devem ser urdidas de fios retos e fios curvos; é o partido reto-curvilíneo; e
finalmente, uma quarta divisão política, o partido anti-reto-curvilíneo, que fez tábua rasa de
60 todos os princípios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar, obra transparente e
leve, em que não há linhas de espécie alguma”.
Nessa conferência, a discussão gira em torno dos símbolos atribuídos a uma mesma teia. O
63 imobilismo é o único resultado da gritaria.
Como as aranhas de Machado de Assis, preferimos discutir o sexo dos anjos em vez de atingir
o cerne de uma questão urgente: o abandono de uma parte considerável da população. Seria
66 razoável que elas estivessem no centro do debate. Mas a razoabilidade é um objeto raro
quando a ala (sempre em tese) mais esclarecida do País tem como um cartão de visita a vaia,
a arrogância e a agressão.
http://www.cartacapital.com.br/saude/vergonha-a-brasileira-8881.html. [adaptado]
1. Rebelião popular palestina contra as forças de ocupação de Israel na faixa de Gaza e na Cisjordânia.
O sétimo parágrafo é introduzido por uma conjunção que liga
As questões de 01 a 10 referem-se ao texto a seguir.
Vergonha à brasileira
Matheus Pichonelli
Veio de um usuário do Twitter um dos “melhores” comentários feitos até agora sobre a gritaria
em torno da vinda dos médicos estrangeiros (leia-se cubanos) ao Brasil. “Médico estrangeiro é
3 populismo. Tem que voltar a política de deixar morrer”.
Populismo, oportunismo, escravidão (?). Enquanto médicos, fariseus e doutores da lei tentam
filtrar os mosquitos, uma fila de camelos é engolida nos rincões fora da rota turística do País.
6 Em outras palavras, as pessoas seguem morrendo, sem que mereçam um franzir de testa de
quem parece disposto a armar uma Intifada1 contra o programa Mais Médicos.
Segundo mapeamento do governo, existem hoje 701 cidades no País sem um único médico a
9 postos. Sabe quantos brasileiros demonstraram, em chamada recente, interesse em trabalhar
nesses municípios? Zero. Nesses lugares, falta o básico do básico, conforme mostrou o
repórter Gabriel Bonis em sua visita a Sítio do Quinto, município do interior baiano onde a
12 população não tem para onde correr em caso de emergência (o caso mais simbólico foi a
morte, testemunhada por uma técnica em enfermagem e um vigia, de um homem que levou
uma facada e não pôde ser atendido porque não havia médico de plantão). Não estamos
15 falando de cirurgia de alta complexidade, mas de carência humana, cuja atuação garantiria o
tratamento mínimo para problemas mínimos como diarreia, gripe ou ferimentos leves, que
neste diapasão de interesses e serviços se transformam em tragédias diárias e
18 desproporcionais.
Tragédias que parecem não comover quem, de antemão, diz se sentir envergonhado pela leva
de navios negreiros a aportar por aqui atolados de médicos dispostos a nivelar por baixo a
21 medicina brasileira. Pois Jean Marie Le-Pen, o líder ultradireitista francês, de xenofobia
desavergonhada, seria capaz de corar ao ver a reação dos médicos brasileiros, de maioria
branca, que hostilizaram, vaiaram e chamaram de “escravos” os colegas cubanos, de maioria
24 negra, durante um curso de preparação em Fortaleza. O protesto, organizado pelo Sindicato
dos Médicos do Ceará, foi talvez o estágio mais alto de uma ofensiva que já teve até
presidente de conselho regional de medicina pregando, como num culto, o boicote aos
27 camaradas estrangeiros. Os manifestantes, que provavelmente se divertem ainda hoje com a
herança colonial supostamente encerrada por uma lei - não coincidentemente - denominada
Áurea, talvez inovassem a rebelião contra o estado das coisas no período anterior a 1888. O
30 método consiste em cuspir no escravo para manifestar uma repulsa fajuta à escravatura.
Parece um método pouco inteligente para quem levou seis anos para retirar o diploma. Não
cola.
33 O episódio mostra que, até mesmo quando se trata de salvar a vida humana, a vida humana é
contagiada pela mais devastadora das doenças: a ignorância d e quem enxerga o mundo entre
o certo e o errado e nada mais entre uma ponta e outra. A ignorância, neste caso, parece
36 desnudar um resquício de desumanidade presente em um dos últimos bolsões de um elitismo
pré-colonial. Um elitismo que tolera o esquecimento e a omissão, mas esperneia ao menor
sinal de desprestígio, este galgado longe, bem longe, dos salões onde mais se precisa de
39 médicos. Onde o jaleco se suja de terra ao fim do expediente.
A opção de ficar nos grandes centros é, de certo modo, compreensível. Não se discute as
fragilidades de um programa de emergência. Seria pouco razoável, por exemplo, negar a
42 ausência de uma estrutura adequada para a atuação de quaisquer médicos pelo interior do
País. Seria pouco razoável também negar a dificuldade para amarrar juridicamente um
contrato de trabalho que prevê a triangulação entre países (um deles, bem pouco afeito à
45 transparência) para remunerar o trabalhador. Não se nega ainda a necessidade de se regular
a atuação desse médico conforme o tamanho de sua responsabilidade. Não se discute a
necessidade de se validar diplomas com base em um critério honesto que não tenha como
48 finalidade a reserva de mercado. Da mesma forma, seria razoável (ou deveria ser) supor que a
urgência para a garantia de atendimento básico preceda os ajustes de rota – estes facilmente
remediados com boa vontade, o que não é o caso de uma vida por um fio.
51 Mas, para boa parte dos ativistas de ocasião, cruzar os braços diante da suposta politicagem,
do suposto populismo, do suposto oportunismo e do suposto navio negreiro é mais nobre do
que atacar o problema real. Parecem a versão remodelada da conferência das aranhas do
54 conto A Sereníssima República, de Machado de Assis. É a mais perfeita alegoria de nossa
incompetência histórica: “Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios retos, é o
partido retilíneo; outros pensam, ao contrário, que as teias devem ser trabalhadas com fios
57 curvos, - é o partido curvilíneo. Há ainda um terceiro partido, misto e central, com este
postulado: as teias devem ser urdidas de fios retos e fios curvos; é o partido reto-curvilíneo; e
finalmente, uma quarta divisão política, o partido anti-reto-curvilíneo, que fez tábua rasa de
60 todos os princípios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar, obra transparente e
leve, em que não há linhas de espécie alguma”.
Nessa conferência, a discussão gira em torno dos símbolos atribuídos a uma mesma teia. O
63 imobilismo é o único resultado da gritaria.
Como as aranhas de Machado de Assis, preferimos discutir o sexo dos anjos em vez de atingir
o cerne de uma questão urgente: o abandono de uma parte considerável da população. Seria
66 razoável que elas estivessem no centro do debate. Mas a razoabilidade é um objeto raro
quando a ala (sempre em tese) mais esclarecida do País tem como um cartão de visita a vaia,
a arrogância e a agressão.
http://www.cartacapital.com.br/saude/vergonha-a-brasileira-8881.html. [adaptado]
1. Rebelião popular palestina contra as forças de ocupação de Israel na faixa de Gaza e na Cisjordânia.
No quarto parágrafo, o uso de alguns advérbios revela que a atitude do autor é de
Relacione as palavras aos respectivos processos de formação.
1. Desonesta.
2. Enlouquecer.
3. Planura.
4. Pouso.
5. Embora.
( ) Derivação sufixal.
( ) Derivação regressiva.
( ) Composição por aglutinação.
( ) Derivação prefixal.
( ) Derivação parassintética.
A sequência está correta em
“Amar-te infinitamente, não posso prometer!” De acordo com o Processo de Formação de Palavras, o termo em destaque é formado por:
O Lixo
(Luís Fernando Veríssimo)
Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui. - No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel. - É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte. - Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos? - É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?
“... Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado...”
A conjunção sublinhada apresentada valor semântico de:
O Homem Nu
(Fernando Sabino)
Ao acordar, disse para a mulher:
— Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
— Explique isso ao homem — ponderou a mulher.
— Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:
— Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!
Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
— Maria, por favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.
Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
— Ah, isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
— Isso é que não — repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
— Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.
Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
— Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu...
A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
— Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:
— Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
— É um tarado!
— Olha, que horror!
— Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
— Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão.
”... dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho...”
A preposição é uma classe gramatical que, dentro de uma estrutura frasal, pode apresentar valor semântico.
A preposição sublinhada apresenta, neste contexto, valor semântico de:
Para responder às questões de 6 a 10, leia a tirinha abaixo. Nela, interagem Cebolinha e seu amigo Cascão.
Em ''temos que tomar uma providência'', temos:
Para responder às questões de 1 a 5, leia o texto abaixo.
Em "Tenho muito orgulho da profissão que escolhi.", a palavra em destaque é, morfologicamente:
Na passagem “... A Região Sudeste concentra o maior número de vagas e os melhores salários...”, os adjetivos “maior” e “melhores” estão empregados no grau:
Levando em conta o processo de formação, a palavra “musculoesquelética” constitui exemplo de:
Considere o seguinte trecho:
“...mudanças no ambiente doméstico e/ou de trabalho...”
O uso da construção “e/ou” impede que o leitor construa a seguinte ideia em relação aos elementos sublinhados:
Observe os elementos que formaram as palavras, em cada alternativa a seguir. Uma das alternativas não está de acordo com o Processo de Formação de Palavras, indique-a
Quanto ao Processo de Formação das Palavras, indique a alternativa em que o exemplo não corresponde à afirmação apresentada