Questões de Concurso
Comentadas sobre teoria literária em literatura
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( ) Entre Sofia e Rubião, há uma curiosa concepção do adultério no romance, porque nunca se concretiza o adultério no plano físico. Mas pode-se dizer que ele se concretiza no plano moral.
( ) A única companhia de Rubião na loucura e no fim foi o Cão Quincas Borba. Poderia estabelecer aqui um relacionamento com o início da obra, ela termina como começou. Isto pode ser explicado pela retomada que o narrador faz da mesma situação: a loucura de Rubião é também uma herança que Quincas Borba lhe legou. O cão é o elemento que substitui Quincas Borba, tem até o seu nome. Assim, a obra termina como começou, isto é, a morte como elemento de harmonia para a vida-morte de alguns para a sobrevivência de outros.
( ) Terminada a leitura da obra, poder-se-ia dizer que Humanitas é o princípio do equilíbrio, mesmo que para isso alguns paguem preços altos. A presença do cão tão humanamente encarnada é um sinal de alerta para Rubião. Porém, este não chega a perceber a advertência. O cão encarna o Humanitismo como filosofia, portanto, a advertência se refere à exploração humana pelo interesse. É importante perceber que o amor do cão pelo seu dono é o único amor desinteressado.
( ) O cão amava Rubião desinteressadamente, fielmente, Rubião amou Sofia também verdadeiramente. Outro elemento é semelhante neste relacionamento amoroso entre cão Rubião e Rubião-Sofia: tanto o cão como Rubião aceitam as situações tais como se apresentam, isto é, quando é possível demonstrar o amor, demonstra-se, quando não, conforma-se.
“O resultado foi um desastre. Quinze dias depois do nosso primeiro encontro, o redator do Cruzeiro apresentou-me dois capítulos datilografados, tão cheios de besteiras que me zanguei: — Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!
Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala. — Não pode? perguntei com assombro. E por quê? Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode. — Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.”
Pode-se inferir da discussão entre o narrador e Azevedo Gondim que
Assinale a alternativa correta.
Coluna 1
1. Rubem Braga. 2. Nelson Rodrigues. 3. Ferreira Gullar.
Coluna 2
( ) Poeta engajado política e socialmente que, por vezes, revela certa tendência panfletária e eventuais quedas no prosaísmo. É autor de “Poema sujo”, que apresenta interrogações contínuas do poeta a respeito da permanência e da transitoriedade das coisas.
( ) Um dos grandes cronistas brasileiros, foi aquele que deixou uma obra singular e permanente. Partindo de fatos triviais do cotidiano, ele conseguiu ultrapassar os limites formais da crônica (compromisso excessivo com acontecimentos quase sempre corriqueiros e linguagem pouco elaborada) e alcançou um patamar artístico apreciável.
( ) Renomado autor teatral, conseguiu, na crônica esportiva, capturar outras nuances de uma partida de futebol, vendo-a como uma metáfora vital de paixões e tragédias que movem a existência humana. Seus escritos apresentam um estilo personalíssimo, marcado por uma capacidade quase inesgotável de criar frases de efeito.
A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:
Leia o poema a seguir, de Conceição Evaristo.
Meu rosário
Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo
padres-nossos, ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques
Do meu povo
e encontro na memória mal adormecida
as rezas dos meses de maio de minha infância.
As coroações da Senhora, onde as meninas negras,
apesar do desejo de coroar a Rainha,
tinham de se contentar em ficar ao pé do altar
lançando flores.
As contas do meu rosário fizeram calos
nas minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,
nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.
As contas do meu rosário são contas vivas.
(Alguém disse um dia que a vida é uma oração,
eu diria, porém, que há vidas-blasfemas).
Nas contas de meu rosário eu teço intumescidos
sonhos de esperanças.
Nas contas do meu rosário eu vejo rostos escondidos
por visíveis e invisíveis grades
e embalo a dor da luta perdida nas contas
do meu rosário.
Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.
Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome
no estômago, no coração e nas cabeças vazias.
Quando debulho as contas de meu rosário,
eu falo de mim mesma em outro nome.
E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas,
vidas que pouco a pouco descubro reais.
Vou e volto por entre as contas de meu rosário,
que são pedras marcando-me o corpo-caminho.
E neste andar de contas-pedras,
o meu rosário se transmuda em tinta,
me guia o dedo,
me insinua a poesia.
E depois de macerar conta por conta do meu rosário,
me acho aqui eu mesma
e descubro que ainda me chamo Maria.
Sobre o texto, analise as assertivas a seguir:
I. O poema traz uma questão que marcou profundamente a religiosidade dos escravizados: o sincretismo religioso, que ainda marca os ritos de matriz africana no Brasil.
II. Ao longo do poema, pode-se perceber trechos que comprovam a teoria da “escrevivência”, termo cunhado pela própria Conceição e que define a escrita de autoria negra como uma voz que ecoa ancestralidade e experiências partilhadas.
III. Ao trazer para o poema a experiência memorialística da infância, a poeta aproxima-se da visão saudosista e pueril de autores clássicos e consagrados pelo cânone, como Casemiro de Abreu, inclusive na questão formal.
Quais estão corretas?
(1a parte): O texto lírico é marcado pela abertura interpretativa, permitindo que uma mesma construção poética gere múltiplos efeitos de sentido e leituras distintas.
(2a parte): Para garantir que o leitor compreenda o sentimento exato do poeta, o gênero lírico exige o uso rigoroso da linguagem denotativa e factual.
(3a parte): Ao contrário do gênero narrativo, o lírico foca na suspensão do tempo e na intensidade de um momento ou sentimento, não possuindo como eixo central uma progressão cronológica de ações.
Pode-se afirmar que
I. O eu lírico demonstra profundo sofrimento por não conseguir encontrar verdades absolutas através das palavras.
II. O poema prega que nada existe e que o mundo físico é uma ilusão da qual devemos duvidar constantemente.
III. Para o eu lírico, a única verdade legítima e irrefutável reside na imanência do ser.
Está CORRETO o que se afirma em:
Assinale a alternativa correta sobre a literatura brasileira.
Considerando essa definição e a leitura integral do poema, a relação entre o título e o texto estabelece-se principalmente porque:
(__) A teoria da literatura constitui um conjunto de princípios sistemáticos voltados à compreensão do funcionamento da linguagem literária e à identificação de seus elementos constitutivos.
(__)A especificidade da linguagem literária reside na centralidade da função poética, que enfatiza a forma da mensagem e a inseparabilidade entre o que se diz e como se diz.
(__)A literatura, embora ficcional, pode revelar aspectos profundos da condição humana, funcionando como uma forma de conhecimento que ultrapassa a mera transmissão de informações.
(__)A teoria da literatura caracteriza-se por produzir textos de natureza literária, uma vez que mobiliza recursos expressivos semelhantes aos utilizados nas obras ficcionais.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta dos itens acima, de cima para baixo.
Leia o Texto 1 para responder à questão.
Texto 1
Receita
ingredientes
2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles
modo de preparar
dissolva os sonhos eróticos nos dois litros de sangue fervido e deixe gelar seu coração.
leve a mistura ao fogo, adicionando dois conflitos de gerações às esperanças perdidas.
corte tudo em pedacinhos e repita com as canções dos beatles o mesmo processo usado com os sonhos eróticos, mas desta vez deixe ferver um pouco mais e mexa até dissolver.
parte do sangue pode ser substituído por suco de groselha, mas os resultados não serão os mesmos. sirva o poema simples ou com ilusões.
BEHR, Nicolas. Receita. In: 50 POEMAS de revolta. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 73-74.
“Capitu era dissimulada, de olhos de ressaca, capazes de arrastar para dentro deles quem os contemplasse. Sua inteligência e firmeza contrastavam com o comportamento mais inseguro de Bentinho.”
No trecho, é possível identificar a construção de perfis psicológicos dos personagens. A caracterização de Capitu como “dissimulada” contribui para:
Texto 2
Metamorfose
Luís Fernando Veríssimo
Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e descobriu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Acionou suas antenas e não tinha mais antenas. Quis emitir um pequeno som de surpresa e, sem querer, deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ela quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu primeiro pensamento humano foi: que vergonha, estou nua! O seu segundo pensamento humano foi: que horror! Preciso me livrar dessas baratas!
Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente, ela seguia o seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto da cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa, caminhando junto à parede, porque os hábitos morrem devagar. Encontrou um quarto, um armário, roupas de baixo, um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquilou-se. Todas as baratas são iguais, mas uma mulher precisa realçar a sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia? Tinha educação? Referências? Conseguiu, a muito custo, um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas; era uma boa faxineira.
[...]
Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado de novo numa barata. Seu penúltimo pensamento humano foi: meu Deus, a casa foi dedetizada há dois dias! Seu último pensamento humano foi para o seu dinheiro rendendo na financeira e o que o safado do marido, seu herdeiro legal, faria com tudo. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu em cinco minutos, mas foram os cinco minutos mais felizes da sua vida. Kafka não significa nada para as baratas.
Adaptado de: https://ielrs.blogspot.com/2012/12/metamorfose-luisfernando-verissimo.html. Acesso em: 28 mar. 2026.