Nisto chegou do Rio de Janeiro D. Evarista, esposa do
alienista, a tia, a mulher do Crispim Soares, e toda a mais
comitiva — ou quase toda — que algumas semanas antes partira
de Itaguaí.
(...)
Três horas depois cerca de cinquenta convivas
sentavam-se em volta da mesa de Simão Bacamarte; era o jantar
das boas-vindas. D. Evarista foi o assunto obrigado dos brindes,
discursos, versos de toda a casta, metáforas, amplificações,
apólogos. Ela era a esposa do novo Hipócrates, a musa da
ciência, anjo, divina, aurora, caridade, vida, consolação; trazia
nos olhos duas estrelas segundo a versão modesta de Crispim
Soares e dous sóis, no conceito de um vereador. (...) Um dos
oradores, por exemplo, Martim Brito, rapaz de vinte e cinco anos,
pintalegrete acabado, curtido de namoros e aventuras, declamou
um discurso em que o nascimento de D. Evarista era explicado
pelo mais singular dos reptos. “Deus”, disse ele, “depois de dar o
universo ao homem e à mulher, esse diamante e essa pérola da
coroa divina,” (e o orador arrastava triunfalmente esta frase de
uma ponta a outra da mesa) “Deus quis vencer a Deus, e criou D.
Evarista.”
D. Evarista baixou os olhos com exemplar modéstia. Duas
senhoras, achando a cortesanice excessiva e audaciosa,
interrogaram os olhos do dono da casa; e, na verdade, o gesto do
alienista pareceu-lhes nublado de suspeitas, de ameaças e,
provavelmente, de sangue. O atrevimento foi grande, pensaram
as duas damas. (...) Mas o alienista sorria agora para o Martim
Brito e, levantados todos, foi ter com ele e falou-lhe do discurso.
Não lhe negou que era um improviso brilhante, cheio de rasgos
magníficos. Seria dele mesmo a ideia relativa ao nascimento de
D. Evarista ou tê-la-ia encontrado em algum autor que?... Não
senhor; era dele mesmo; achou-a naquela ocasião e parecera-lhe
adequada a um arroubo oratório. De resto, suas ideias eram antes
arrojadas do que ternas ou jocosas. Dava para o épico. (...)
“Pobre moço!”, pensou o alienista. E continuou consigo:
“Trata-se de um caso de lesão cerebral: fenômeno sem gravidade,
mas digno de estudo...”
D. Evarista ficou estupefata quando soube, três dias
depois, que o Martim Brito fora alojado na Casa Verde.
Um moço que tinha ideias tão bonitas! As duas senhoras
atribuíram o ato a ciúmes do alienista. Não podia ser outra cousa;
realmente, a declaração do moço fora audaciosa demais.
Ciúmes? Mas como explicar que, logo em seguida, fossem
recolhidos José Borges do Couto Leme, pessoa estimável, o
Chico das cambraias, folgazão emérito, o escrivão Fabrício e
ainda outros? O terror acentuou-se. Não se sabia já quem estava
são, nem quem estava doudo.
Machado de Assis. O alienista. In: 50 contos de Machado de Assis.
São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.38; 55-56 (com adaptações).
A estrutura narrativa do trecho reproduzido de O alienista é
conduzida
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