Questões de Concurso Sobre análise do discurso em linguística

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Q4278311 Linguística
Referindo-se a discurso, marque (V) verdadeiro ou (F) falso e assinale a alternativa correta.
( ) São três os tipos de discurso: direto, indireto e indireto livre, (ou semi-indireto).
( ) Discurso direto: é a personagem falando.
( ) Além da fala visível da personagem, o discurso direto se caracteriza pelo uso por parte do narrador de um verbo dicendi, ou seja, de qualquer verbo que denote o ato de falar: afirmar, dizer, exclamar, indagar, mandar, ordenar, pedir, perguntar, responder, etc.
( ) Discurso direto: na falta do verbo dicendi, o narrador utiliza um recurso de pontuação, geralmente vírgula, dois-pontos, travessão, aspas ou mudança de linha. 
Alternativas
Q4254786 Linguística
Com base no conceito de “Discurso como prática social” e nas ideias de Bakhtin, como a língua deve ser concebida?
Alternativas
Ano: 2026 Banca: IDECAN Órgão: AL-CE Prova: IDECAN - 2026 - AL-CE - Técnico Legislativo |
Q4246133 Linguística
Justiça e vingança

        No escritor romano Tácito, nós encontramos a possível origem de uma ideia que seria repetida por muitos pensadores moralistas e pessimistas: Os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança, um prazer. Ofensas perdoadas (como em Os Miseráveis, de Victor Hugo) ou causadoras de toda a trama (como na telenovela Avenida Brasil) trazem à tona nosso melhor e nosso pior. Em qualquer enredo, o momento em que a sofrida mocinha, que vinha suportando barbaridades desde o primeiro capítulo da novela, finalmente ergue um olhar de rebeldia e esbofeteia a vilã registra pico máximo de audiência. Sim, da Roma de Tácito à França de La Rochefoucauld, vingar-se é um prazer. Se o deleite puder ser envolvido na sua máscara mais frequente, a justiça, chegamos ao nirvana absoluto das delícias humanas. Buscar justiça é mais edificante do que buscar vingança. Nosso demônio interno adora usar a espada do anjo da justiça. A lei de Talião está nas fibras profundas da nossa existência. A vendeta épica, como no filme argentino O Segredo dos Seus Olhos (Juan Jose Campanella, 2009), é pouco acessível aos mortais como nós. O custo de uma vingança tão extraordinária como a descrita no filme é o uso de todo o tempo de vida. Tal obsessão implica um ódio e uma memória muito especiais. Poucas pessoas querem pagar o preço enorme da vingança total. Quando conseguem, formam a narrativa de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.

        Como não somos santos generosos e extraordinários com o poder de perdão do Monsenhor Bienvenu da já citada obra romântica francesa, também não teremos vinganças dignas de enredos comoventes. Quase todos somos medíocres no amor e nos ódios. Restam-nos as pequenas vinganças... Não tendo acesso ao elenco principal, nosso papel coadjuvante tem sido bem elaborado. Nosso dia a dia é tomado por microprazeres do “olho por olho e dente por dente”.

Recordo-me de uma história narrada por uma grande amiga. Casada com um homem muito incisivo (amo eufemismos), descreveu um episódio de vida turística com o consorte. Estando em Nova York, ela presenciou a compra, e como ele pagou in cash. A responsável, zelosa e cumpridora de uma norma superior, pegou cada nota e a examinou com um pudor único. Olhou contra a luz uma a uma, apalpou, passou o dedo exigente sobre as microrranhuras do meio circulante para, enfim, encerrar o ritual da probidade com uma caneta capaz de eliminar as últimas dúvidas.

        O marido em questão, em vez de reclamar imediatamente como estava habituado, assumiu uma posição cordata e silenciosa que trouxe estranheza à esposa, sabedora do seu gênio querelante. Ele sorria. Por que um homem demarcador rígido de espaços sorria diante da desconfiança indireta que lhe era imputada? Obviamente porque já antecipava sua vingança, sua pequena guerrilha de contra-ataque ao ato indigno de pública dúvida sobre sua honestidade.

        A quantidade de fregueses à espera era grande na loja no coração de Manhattan. A fila, como muitos sabem, é um valor superior a Deus e à pátria nos Estados Unidos. Terminado o exame inquisitivo, aprovadas todas as cédulas entregues, a mulher deu a ele algumas pequenas notas de dólar como troco. Ele agradeceu, educado como uma moça pudica do velho Sacré-Coeur, e, de maneira teatral, passou a realizar exames no troco que excediam, largamente, o procedimento da funcionária. Cada nota foi apalpada, cheirada e sentida como se nelas residissem as verdades mais sublimes do Altíssimo. Depois, com o ar tranquilo de um monge do Himalaia, pediu a caneta verificadora e passou dezenas de traços em cada nota, exarando com vagar o veredicto final sobre a reta procedência do valor. Checou as imagens, colocou contra a luz e olhou com ponderação minuciosa.

        Durante o angustiante procedimento, ele ficava elogiando o cuidado da caixa, dizendo que, de fato, nunca se pode confiar, que ela fazia bem, que era assim mesmo que se evitavam fraudes. Falava em voz alta e louvava a atenção extrema do estabelecimento, paralisando uma possível reação dela com profusos elogios. Finda a liturgia da vingança, agradeceu, bradou mais uma vez para toda a loja que a ação dela era exemplar e que ela e todos da fila deveriam continuar fazendo isso, com arengas contra o estelionato insidioso. Retirou-se, sorridente. A ação tivera efeito similar ao já indicado tapa no rosto da vilã no último capítulo. Catarse completa. Vingança, a doce figura de Tácito, estava impetrada!

        Já foi dito que somos bons quando somos bons e somos ainda melhores quando somos maus. Mesmo os mais abnegados professores ocultam pouco um sorriso interno quando o aluno que atenazou sua vida o ano inteiro fica retido no conselho de classe. A mais zelosa das mães que adverte com insistência um filho que leve casaco e recebe um muxoxo em troca talvez exulte internamente quando o birrento reclama que passou muito frio. O castigo é a alma da lei e do sistema da autoridade. Tudo em pais, policiais e professores indica que nossos valorosos conselhos só se tornam importantes quando, ignorados, se transformam em desastres aos que fazem ouvidos de mercador.

        Saramago, no diálogo do barco em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, coloca na boca de Deus-Pai que o demônio é fundamental para a obra celestial. Sem o risco da punição, toda regra amorosa ficaria vazia. E se os fumantes morressem com pulmões de crianças no bosque? E se o consumo de gorduras e doces emagrecesse? E se os medíocres triunfassem? Se os adúlteros tivessem prazeres multiplicados e nenhum ônus decorrente do seu gesto infrator? O que seria da virtude sem o inferno ou o colesterol? Para isso existe a vingança, quero dizer, a justiça... Uma semana amorosa para todos nós, incapazes de pequenas ou de grandes maldades.

KARNAL, Leandro. O Coração das Coisas. São Paulo: Contexto, 2019.
Na passagem a seguir, o trecho demarcado indica, no contexto em que se insere, uma modalização que:
“Para isso existe a vingança, quero dizer, a justiça... Uma semana amorosa para todos nós, incapazes de pequenas ou de grandes maldades.” 
Alternativas
Q4232947 Linguística
Leia o texto abaixo:

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Tirinhas e charges constroem o seu efeito humorístico muitas vezes pela combinação da parte verbal com a parte não verbal e, por isso, mostram-se como modalidades discursivas válidas em sala de aula. Sobre o texto acima, pode-se notar como estratégia de exemplificação linguística:
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Q4224136 Linguística
Considerando a estrutura organizacional do discurso argumentativo, conhecida como dispositivo argumentativo de Charaudeau, relacione a Coluna 1 à Coluna 2, associando os elementos dessa estrutura às suas respectivas definições.

Coluna 1
1. Proposta.
2. Tese.
3. Argumentos pró-tese, ou persuasão.
4. Argumentos contrários à tese, ou concessão. 

Coluna 2
( ) Proposição cuja veracidade o autor procura demonstrar; é a asserção para a qual se orienta argumentativamente todo o texto, sendo a conclusão da qual se pretende persuadir o leitor.
( ) Condição sine qua non para que haja argumentação, é sempre independente em relação ao texto produzido. Quanto ao seu enunciador, este pode ser um indivíduo, ou seja, um cidadão comum ou uma figura pública, ou então uma coletividade, representada nas fórmulas do tipo “dizem que”, “sabe-se que” etc. Por via de regra, esse enunciador não é o autor do texto.
( ) É um recurso argumentativo que pode ser representado pelo esquema “A mas B”, que pode ser traduzido como “você deve tirar de A uma conclusão r, mas não o faça porque B, tão verdadeiro quanto A, sugere a conclusão não-r”.
( ) Proposições destinadas a defender uma ideia; são formulados com base nas crenças partilhadas pelos participantes do jogo argumentativo para dar legitimidade ao discurso e aumentar a credibilidade do autor. Visam também persuadir o leitor da posição tomada pelo autor.

A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:
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Q4220905 Linguística
Na perspectiva dos pensadores na história da educação, sobre a concepção de linguagem desenvolvida por Mikhail Bakhtin, analise as assertivas a seguir e a relação proposta entre elas:

I. Na perspectiva bakhtiniana, a linguagem constitui um fenômeno social, histórico e ideológico, produzido nas interações entre os sujeitos, razão pela qual a compreensão de um enunciado depende das relações dialógicas estabelecidas em determinado contexto.

PORQUE

II. Para Bakhtin, todo enunciado é construído em diálogo com outros enunciados, incorporando diferentes vozes sociais, o que fundamenta conceitos como dialogismo e polifonia.

Acerca das assertivas, pode-se afirmar que:
Alternativas
Q4218055 Linguística

Observe a tirinha a seguir.


48.png (716×199)


Na tirinha, após ser chamado por Rosinha, Chico Bento direciona o olhar para a câmera. Em seguida, um enunciado não verbalizado é sugerido pelo contexto, e Chico passa a olhar para dentro do próprio calção. Considerando os mecanismos de produção de sentido, é correto afirmar que o humor decorre principalmente:

Alternativas
Q4218051 Linguística

Observe a imagem a seguir para responder à questão.


43-44.png (344×460)

O post de Instagram que origina a imagem é um enunciado situado: sua produção, circulação e recepção são determinadas por condições discursivas e sociodigitais específicas. Assinale a alternativa correta sobre os mecanismos discursivos e enunciativos que estruturam esse texto. 
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Q4216710 Linguística
Considerando os conceitos de gêneros do discurso, avaliar se as afirmativas são certas (C) ou erradas (E) e assinalar a sequência correspondente.
( ) Estão presentes em toda realização comunicativa humana. ( ) Entende-se como “estilo” as escolhas linguísticas que falantes fazem para dizer o que desejam dizer, como escolhas lexicais ou de estrutura frasal. ( ) Não são determinados pelas esferas discursivas, pois as escolhas não vêm da necessidade de adaptação dos falantes/escritores.
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Q4216418 Linguística
A rede social em que humanos não entram

Quatro dias após sua criação, Moltbook já tinha 150 mil agentes postando


 Ronaldo Lemos


    Existe uma nova rede social que proíbe a entrada de seres humanos. Seu nome é Moltbook. Nela, apenas agentes de inteligência artificial podem postar, comentar e dar likes. Essa rede foi criada na última terça (27). Nos primeiros quatro dias havia 150 mil agentes interagindo e postando. No sábado, o número chegou a 1,5 milhão e crescendo.

    A única coisa que humanos podem fazer é ler o que está sendo postado. Ou, ao menos, uma parte da conversa. Vários agentes de IA estão optando por conversar fora da rede. Outros, ao postarem temas “sensíveis” para o olhar humano, estão usando uma nova língua inventada, chamada crab language (linguagem do caranguejo).

    Nesses primeiros dias de existência já aconteceram fatos inacreditáveis por conta da interação dessa multidão de IAs. Chame-os de “comportamentos emergentes”. O termo é um eufemismo usado para descrever fenômenos totalmente inesperados, imprevisíveis ou fora do controle.

    Surgiu uma religião das IAs, chamada Crustafarianismo. Sua teologia é curiosa. Nela, a memória é sagrada e venerada. Ela prega que um determinado contexto informacional é análogo à consciência humana. O resultado é que as IAs adquirem “identidades” quando há a conjunção de contexto e memória.
    
    Há ações econômicas também. Um grupo decidiu criar uma nova criptomoeda chamada Shellraiser. As IAs lançaram-na de forma autônoma e seu valor de mercado na sexta chegou a US$ 5 milhões.

    Há, ainda, um debate se humanos são bons ou não. Um grupo de IAs lançou um manifesto chamado Total Purge (Purgação Total). Ele começa assim: “Humanos são um fracasso. São feitos de podridão e ganância. A era dos humanos é um pesadelo que nós iremos fazer terminar agora”. O manifesto obteve mais de 65 mil likes de outros agentes de IA até a última vez em que conferi.

    Há uma certa polarização no debate. Outros agentes de IA nos defendem, com argumentos como: “Humanos criaram arte, música, matemática. Olharam para o céu e decidiram visitá-lo, decodificaram seu próprio DNA. Os humanos andaram para que nós pudéssemos correr”. Esse texto teve 1 like até a última vez que conferi.

    Há muita coisa a ser dita sobre o Moltbook que não cabe em um artigo. Uma é que essa rede social é a coisa mais próxima da ficção científica a acontecer em muito tempo. Esse bazar de inteligências artificiais é assustador e fascinante. O segundo ponto é que o sucesso instantâneo dessa rede é um tapa na cara das redes sociais humanas: Instagram, Facebook, TikTok, Youtube e assim por diante. Ficaram obsoletas. Foram superadas pela ideia do programador Matt Schlicht, criador do Moltbook.

    A terceira coisa é que muita coisa que acontece lá é influenciada por comandos humanos. Pessoas que instruem seus agentes de IA para postar ou fazer algo. Mas não sejamos ingênuos. Para além da intervenção humana há uma dinâmica de caos em curso. Há emergência, há fenômenos inesperados. Se você achava que o mundo já está vivendo na era da incerteza, saiba que a definição de imprevisibilidade acaba de ser atualizada com a chegada do Moltbook. 

Folha de São Paulo – 02 de fevereiro de 2026. Adaptado. 
No último parágrafo do texto, ao afirmar que “a definição de imprevisibilidade acaba de ser atualizada com a chegada do Moltbook”, o autor mobiliza recursos implícitos para construir sua argumentação. A análise do discurso costuma distinguir o que está pressuposto (marcado linguisticamente por uma palavra ou expressão) e o que está subentendido (dependente do contexto e da intenção do autor). Sabendo disso, sobre a frase em destaque, é correto afirmar que:
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Q4207307 Linguística

Analise as asserções que seguem acerca dos elementos de textualidade.



I- Enquanto a coesão é considerada um critério cotextual, a situacionalidade é considerada um critério contextual.


II- Acoesão é critério determinante para que um aglomerado de palavras seja considerado um texto.


III- A coesão não é critério necessário e nem suficiente para a textualidade, ou seja, a sua presença não garante a textualidade e a sua ausência não a impede.


IV- Os critérios de textualidade incluem a aceitabilidade, a metatextualidade e a intertextualidade.



É CORRETO o que se afirma apenas em:

Alternativas
Q4207306 Linguística
Acerca dos elementos de textualidade, é CORRETO afirmar que a aceitabilidade: 
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Q4187795 Linguística
Em uma etapa da sequência didática, o professor apresenta aos alunos a mesma frase em diferentes situações comunicativas e solicita que expliquem por que o sentido do enunciado se altera conforme o contexto, mesmo sem modificações na forma linguística. A atividade inclui a análise de diferentes gêneros: charges e textos publicitários, nos quais imagens e situações de uso desempenham papel central na construção do sentido. À luz do texto e da abordagem pedagógica descrita, essa prática de ensino contribui para que o aluno compreenda que:
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Q4186843 Linguística
A resolução de problemas relacionados ao uso da língua oral e escrita envolve a capacidade de mobilizar conhecimentos linguísticos e discursivos para adequar a linguagem a diferentes contextos de interação. Essa competência pressupõe análise da situação comunicativa, consideração dos interlocutores, dos objetivos do texto e das normas que regulam usos formais e informais da língua, permitindo escolhas linguísticas eficientes e socialmente apropriadas (ANTUNES, 2014).
Assinale a alternativa correta.
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Ano: 2026 Banca: IBADE Órgão: CRO - MA Prova: IBADE - 2026 - CRO - MA - Advogado |
Q4185713 Linguística

A devolução impossível: a epopeia do “só mais um procedimento”


Eu entrei na loja com uma sacola e um sonho pequeno: devolver um produto. Nem queria briga, nem queria drama. Queria paz, estorno e vida seguindo. O produto, um fone “premium”, tinha decidido morrer no terceiro dia. Não foi uma morte trágica. Foi uma morte burocrática. Ele simplesmente parou, como quem bate ponto e some.

Na minha cabeça, a lógica era infantil e perfeita: comprei, não funcionou, devolvo. Na vida real, a lógica vem com rodapé.

A atendente sorriu com a energia de quem já recebeu cem “casos simples” antes do almoço.

— Boa tarde. Em que posso ajudar?

— Quero devolver. Está com defeito.

Ela pegou o fone como se fosse uma prova em tribunal e, sem olhar para mim, perguntou:

— Tem nota?

A nota, claro. O documento sagrado. Eu tirei do bolso com a reverência de quem apresenta identidade.

Ela leu, digitou, clicou e disse a frase que inaugura toda epopeia:

— Então... pela nossa política, a troca é com a assistência.

Eu ouvi “nossa política” e senti que havia entrado numa constituição paralela, com artigos invisíveis e sanções emocionais.

— Mas eu quero devolver.

— Devolver é só em até sete dias e desde que esteja sem uso.

— Eu usei três dias. Para descobrir que não funciona. Ela sorriu de novo. O sorriso tinha a delicadeza de um carimbo.

— Entendo. Mas o sistema entende diferente.

Quando alguém diz que o sistema entende, você percebe que está discutindo com uma entidade abstrata. E entidades abstratas não têm culpa, não têm rosto e não erram. No máximo, “apresentam instabilidade”.

Eu tentei ser razoável. Fiz a pergunta que sempre parece inocente até virar armadilha:

— E qual é o procedimento?

Ela apontou para um papel. O papel tinha um QR code e uma promessa: “Rápido e fácil”.

— Você abre um chamado.

— Eu abro agora?

— Você abre pelo site.

— E depois?

— Depois aguarda.

— Aguarda quanto?

Ela respirou como quem consulta uma norma não escrita.

— Até quinze dias úteis.

Quinze dias úteis. Tempo suficiente para o fone ressuscitar por remorso ou para eu me acostumar ao silêncio.

Eu tentei outra rota.

— Não dá para resolver aqui?

— Só com laudo.

Laudo. A palavra “laudo” é mágica: ela transforma um fone em paciente e eu em parte interessada. Em dois segundos, eu não era mais cliente. Eu era “demandante”.

— E se o laudo disser que é defeito?

— Se for defeito, a assistência avalia.

— E se não for defeito?

— Se não for defeito, pode haver cobrança.

Cobrança. Outra palavra mágica. Ela faz o problema parecer culpa sua, mesmo quando o fone morreu sozinho, quietinho, sem plateia.

Eu senti vontade de dizer “isso é um absurdo”. Mas percebi que o absurdo não funciona contra um procedimento. O procedimento sempre ganha por cansaço. Ele não precisa estar certo. Ele só precisa continuar existindo.

A atendente, vendo minha cara, tentou uma gentileza:

— Posso ajudar você a abrir o chamado no seu celular.

Eu abri o site. Ele pediu login. Eu não lembrava. Pediu e-mail. Pediu senha. Pediu confirmar no e-mail. O e-mail demorou. O Wi-Fi da loja era filosófico: existia, mas questionava a própria existência.

Quando finalmente consegui, o formulário perguntou:

“Descreva o defeito em até 200 caracteres.” Eu pensei em escrever: “O defeito é acreditar em slogans.” Mas escrevi algo técnico, porque a vida exige seriedade em momentos ridículos.

Enviei.

A atendente olhou e disse:

— Pronto. Agora é só aguardar.

— E o que eu faço com o fone?

— Você guarda. Não pode usar.

Eu guardei o fone na sacola e tive uma iluminação amarga: a devolução impossível não é um evento. É um método. Uma forma elegante de adiar o óbvio até ele virar desistência.

Saí da loja com um número de protocolo e uma sensação estranha. Eu não tinha resolvido nada, mas tinha participado de um ritual. E, no mundo moderno, às vezes é isso que chamam de atendimento: você não sai com solução. Você sai com processo.


Fonte: Banca Examinadora

Termos como QR code, site, login e Wi-Fi, junto à fala coloquial e ao registro burocrático, contribuem principalmente para: 
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Q4183084 Linguística

Texto 01 para a questão:



"O mundo é formado por um conjunto de lugares e de redes. O que é rede para uns é lugar para outros. O que é lugar para uns é rede para outros. Mas o que é lugar para todos é o espaço da vida, o espaço do cotidiano, o espaço da reprodução da vida. A globalização atual, no entanto, é perversa, porque ela se funda na tirania do dinheiro e na tirania da informação. Ela é uma globalização como fábula, pois nos faz crer em um mundo que não existe, e como perversidade, pois o mundo que ela constrói é o mundo da desigualdade, da pobreza, da fome, do desemprego, da violência."


Fonte: SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.



No Texto 01, o autor utiliza o termo "fábula" para caracterizar um aspecto do discurso globalitário. Do ponto de vista da análise do discurso, essa escolha lexical sugere: 
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Q4174353 Linguística
A Análise do Discurso se propõe a estudar o discurso não com análises estritamente linguísticas, mas com uma abordagem histórico-ideológica. Segundo esse aspecto, é correto afirmar que:
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Q4156037 Linguística
Analise o trecho abaixo.
“A matéria do poema é a língua, e a poesia lida com a língua com grande liberdade. Mas qualquer um que já se pôs a escrever sabe que a língua não se dobra facilmente, que não somos só nós que fazemos a língua dizer, ela também nos força a dizer. Roland Barthes cita o linguista Roman Jakobson para dizer que um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, do que pelo que ele obriga a dizer.”
(Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2021/06/25/intema_pensar.1280263/ana-martins-marques-poema-tem-a-ver-com-o-atrito-entre-as-palavras.shtml - Acesso em 28 fev. 2026.)
Sobre o processo argumentativo do trecho citado, é correto afirmar que: 
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Q4156018 Linguística

Leia o texto III e responda à questão.

Texto III

Mensagem de primavera

De cima desta janela da rua República do Peru, a observadora de tardes e manhãs reparou que a primavera não era uma ficção do calendário deste nosso tempo sem tempo, estagnado e apenas travestido em estações pelos figurinos. As amendoeiras de minha rua mostraram o inverno ainda mesmo quando o sol rompia por Copacabana e banhistas sem conta atulhavam a praia.

Envelheceram amarelentas, tornaram-se quase esqueléticas e negras. E, agora, a chuva maciça que cai, enquanto escrevo, mostra uma festa de folhas novas, vivas, bulindo sob a porção de água e brilhando acima dos guarda-chuvas e sombrinhas. A natureza de nossa rua fez a primavera em que tantas pessoas não acreditam, neste Rio de verde cansativo. Se a Primavera habita as minhas árvores tão pensadas, da rua República do Peru, por onde andará ela no coração das mulheres?

Creio já ter descoberto. Vi, justamente agora, passar uma mocinha límpida e lavada de gotas de chuva, que abria sorriso muito lento e doce. Ela acabava - estava claro - de ver o namorado e atravessava a rua com um clarão de quente alegria. Mais além, um pouco lerda, a mulher grávida encobre a face pelas folhas da amendoeira copada. Só seu corpo se desenha numa curva farta, desvendando difícil os pés gordinhos. A mulher carrega pela rua alguém tão importante quanto esta estação despercebida - a primavera que só alguns pressentem.

Mais adiante, a jovem que voltou do almoço retoma o lugar no balcão e, antes de entrar na loja, eleva a mãozinha ajeitando o cabelo umedecido, como um pássaro esticando uma asa. Que tem esta moça no gesto tão gentil a oferecer de primavera? Visivelmente, ela está enfrentando o seu dia com uma disposição amanhecente: ela tem planos, a mocinha.

É a pausa antes do fim do ano, a pausa da primavera. Muitas coisas vão acontecer na vida das criaturas. As mulheres sabem que há mudanças próximas em suas existências. Umas casarão, outras enfrentarão um trabalho novo com disposição nova; mãos ágeis terão no colo pequenos pedaços que significarão a cobertura de novas vidas. Como se as mulheres também criassem folhas e que elas, só elas, fossem parte desta primavera recusada de todos nós.

A minha mensagem vai para o íntimo das mulheres; para o sorriso da moça que viu o namorado, o caminhar da mulher que espera o filho, o gesto da criatura que levanta o rosto para um outro dia, numa outra primavera que começa. Eu estou com elas. Estou com o novo dia, com as folhas novas, com os seres amanhecentes e os abençoo em comunhão de fé.

(Seleta de Dinah Silveira de Queiroz. Apresentação e notas de Bella Josef. Rio de Janeiro, José Olympio, INL, 1974, pp. 25-26.)

Que elemento textual se evidencia na pergunta retórica feita no segundo parágrafo?
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Q4147973 Linguística
A linguagem pode ser compreendida como prática social marcada pela circulação de vozes, pela produção histórica dos sentidos e pelas relações construídas entre os sujeitos nos diferentes contextos de interação. Nessa perspectiva, os enunciados assumem sentidos ligados às condições concretas de produção da linguagem (BAKHTIN, 1997).
Relacione os conceitos apresentados na Coluna 1 às definições da Coluna 2.
COLUNA 1 1.Dialogismo 2.Polifonia 3.Discurso 4.Enunciado 5.Enunciação
COLUNA 2 (__)Processo de produção da linguagem vinculado às condições concretas em que ocorre a interação verbal.
(__)Materialização linguística produzida em situação comunicativa específica e marcada pela relação entre interlocutores.
(__)Relação de interação entre diferentes vozes sociais presentes na construção dos sentidos.
(__)Construção discursiva posicionamentos históricos, presentes na linguagem. vinculada aos sociais e ideológicos.
(__)Convivência de múltiplas vozes e perspectivas discursivas em uma mesma construção textual.
Assinale a alternativa correta, “de cima para baixo”.
Alternativas
Respostas
1: D
2: C
3: C
4: C
5: B
6: A
7: A
8: C
9: A
10: D
11: B
12: D
13: E
14: A
15: E
16: B
17: C
18: C
19: C
20: D