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Uma trabalhadora doméstica, Elza, de 63 anos de idade, vive...

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Q4155368 Direitos Humanos
Uma trabalhadora doméstica, Elza, de 63 anos de idade, vive na residência de uma família, que mora em zona rural, desde os 12 anos de idade. Moram na casa um casal de meia idade e a mãe da dona da casa, de 88 anos de idade. Os filhos do casal viveram lá até a juventude e atualmente moram na cidade. Elza é analfabeta e cuida da casa, incluindo limpeza, refeições e roupas, além de cuidar da idosa, sem ajuda de outra pessoa. Sua jornada de trabalho começa por volta das 6h30 e vai até a hora de servir o jantar, quando, então, pode-se retirar para descansar. Não sai para nenhum lugar e nem tem carteira de trabalho assinada. Quando comete um erro, como deixar a comida queimar ou quebrar alguma louça, é proibida de comer à noite. Apresenta dor lombar desde os 50 anos de idade, mas nunca reclamou, até que um dia, ao arrastar um móvel pesado, fica com a “coluna travada”, sendo levada a um serviço de pronto atendimento do SUS. O médico que a atende fica estarrecido com a situação de vida de Elza e sente que teria que fazer alguma coisa. Sobre esse caso, assinale a alternativa correta.
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: A

Fundamento decisivo: Resolução CFM nº 2.217/2018 (Código de Ética Médica), Capítulo IV, art. 25: "Art. 25. Deixar de denunciar prática de tortura ou de procedimentos degradantes, desumanos ou cruéis, praticá-las, bem como ser conivente com quem as realize ou fornecer meios, instrumentos, substâncias ou conhecimentos que as facilitem." A norma veda a omissão do médico diante de procedimentos degradantes, desumanos ou cruéis, o que torna correta a alternativa A no caso narrado.

Tema central: Dever ético de denúncia
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque a situação narrada autoriza, ao menos, suspeita juridicamente plausível de submissão a procedimentos degradantes, desumanos ou cruéis, com repercussão sobre a personalidade e a saúde física e mental da paciente. O art. 28, parágrafo único, do Código de Ética Médica determina: "Parágrafo único. Caso ocorram quaisquer atos lesivos à personalidade e à saúde física ou mental dos pacientes confiados ao médico, este estará obrigado a denunciar o fato à autoridade competente e ao Conselho Regional de Medicina." Como apoio, a narrativa também é compatível, em tese, com a moldura do Código Penal, art. 149, caput: "Art. 149. Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto:". A questão não exige tipificação penal fechada pelo médico; basta a suspeita e o dever ético de denunciar.
B
Errada
Está errada porque restringe o dever de denúncia à tortura física, mas o Código de Ética Médica é mais amplo. O art. 25 alcança também "procedimentos degradantes, desumanos ou cruéis". Logo, a obrigação ética não depende de violência física direta.
C
Errada
Está errada porque nega relevância ética à situação de vida revelada no atendimento. O art. 28, parágrafo único, do Código de Ética Médica impõe denúncia quando houver atos lesivos à personalidade e à saúde física ou mental do paciente. Portanto, o médico não pode tratar o caso como se fosse apenas um episódio ortopédico agudo.
D
Errada
Está errada porque propõe conduta insuficiente diante do dever normativo de denúncia. Analgesia, orientação e encaminhamento podem integrar o cuidado clínico, mas não substituem a obrigação prevista no art. 25 e no art. 28, parágrafo único, do Código de Ética Médica, já que a narrativa aponta procedimentos degradantes e atos lesivos à personalidade e à saúde.
E
Errada
Está errada porque naturaliza violação de dignidade e tratamento degradante. Isso contraria a vedação constitucional do art. 5º, III, da Constituição Federal: "III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;" e é incompatível com o dever ético do médico de não ser conivente com tais práticas.
Pegadinha da questão
A banca explorou a confusão entre dever de denúncia apenas em caso de tortura física e dever de denúncia também diante de procedimentos degradantes, desumanos ou cruéis, além da tentativa de reduzir o caso a mero atendimento clínico.
Dica para questões semelhantes
  • Se o enunciado revelar tortura ou tratamento degradante, desumano ou cruel, confira se a alternativa reconhece dever ético de denúncia, e não simples neutralidade clínica.
  • Não exija do médico certeza sobre a tipificação penal; se a narrativa permite suspeita plausível de violação grave, isso já basta para afastar alternativas omissivas.
  • Quando houver atos lesivos à personalidade e à saúde física ou mental do paciente, lembre do art. 28, parágrafo único, do Código de Ética Médica: há obrigação de denunciar à autoridade competente e ao CRM.

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