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Q508164 Português
                                 A maldição do esquerdo-direitismo

      O esquerdo-direitismo é uma crença semirreligiosa que se tornou a ideologia dominante do mundo no último século. Esquerdo-direitistas são pessoas que acreditam que todo o bem que existe no mundo provém de apenas uma fonte. Há dois tipos de esquerdo-direitistas - aqueles que acham que a fonte de todo o bem é o mercado e aqueles que acham que é o estado. A estes chamamos esquerdistas, aqueles são os direitistas.
      No fundo, esquerdistas e direitistas são dois lados de uma mesma coisa. Ambos veem o mundo em apenas duas dimensões, sem profundidade, dividido entre bons e maus. Não admira que esquerdistas transformem-se em direitistas e vice-versa com tanta facilidade - alguns dos analistas mais ferrenhos da direita passaram a juventude militando nas facções mais radicais da esquerda.
      Nos últimos [...] meses, os dois maiores ícones desse jeito simplista de ver o mundo morreram: Hugo Chávez (esquerda) e Margareth Thatcher (direita). Difícil imaginar dois personagens tão representativos desse modo oitocentista de ver o mundo. Todos os esquerdo-direitistas concordam que, entre os mortos, havia um santo e um demônio. Eles discordam apenas em relação a qual é qual.
      A realidade é que nem Chávez nem Thatcher merecem a canonização. Ambos tiveram seus inegáveis méritos como líderes carismáticos, mas as duas biografias estão cheias de erros crassos. É que, ao contrário do que eles acreditavam, o esquerdo-direitismo está errado. A crença compartilhada por esquerdistas e direitistas de que o mundo está dividido ao meio, entre virtuosos e cretinos, simplesmente não tem lastro na realidade. Há virtudes e cretinices em cada um de nós e o mundo é muito mais cheio de sutilezas do que imaginavam nossos manuais ideológicos publicados nos séculos 18 e 19.
      Prova disso está numa reportagem de capa recente publicada pela tradicional revista The Economist, a Bíblia liberal inglesa, que já foi um ícone esquerdo-direitista na época que essas coisas faziam sentido. A matéria de Economist de clara que o novo modelo para o planeta são os países nórdicos. “Se você tivesse que renascer em algum lugar do mundo com talentos e renda médios, você ia querer ser um viking", diz a revista.
      Os países escandinavos, que nas décadas de 1970 e 1980 eram estados inchados, com impostos altíssimos, baixa competitividade e serviços públicos de estado socialista, quem diria, viraram exemplo para a revista que os liberais sempre adoraram. Isso porque, nos últimos anos, Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia fizeram várias reformas e se tornaram países incríveis para se viver.
      Para começar, o estado racionalizou seus gastos e criou as mais fantásticas políticas de transparência do mundo, permitindo à população fiscalizar seus governantes e reduzir a gastança. Na Suécia, políticos de alto escalão moram em quitinetes, lavam a própria louça e usam transporte público ou bicicleta. Além disso, a burocracia caiu quase a zero e esses países viraram paraísos do empreendedorismo, de fazer inveja ao Vale do Silício com suas histórias de sucesso (Skype, Angry Birds, Spotify).
      Mas isso foi feito sem sucatear o estado nem prejudicar a população. As reformas do estado foram feitas com um objetivo claro: manter a qualidade do serviço público, ou, se possível, aumentá-la. Essa lógica ajuda a entender o que aconteceu com a saúde e a educação pública nesses países. O governo continua atuando, provendo serviços de qualidade, mas empresas privadas também podem entrar na competição. Os cidadãos recebem do governo vouchers de saúde e educação e podem decidir usá-los em escolas e hospitais públicos ou privados. Na Escandinávia, o estado continua grande, mas uma coisa fundamental mudou: ele agora funciona.
      O sucesso nórdico expõe a grande falácia do esquerdo-direitismo: a crença de que só há um caminho certo. Para os esquerdistas, criar mais empresas estatais e ter impostos altos é sempre bom. Para os direitistas, é sempre ruim. A verdade, como costuma ser o caso, está no meio: é possível, ao mesmo tempo, melhorar os serviços e aumentar a eficiência. Basta para isso focar no cidadão, que é muito mais importante do que empresas e estado.
      Essa é a mágica que os países nórdicos operaram nos últimos anos. Enquanto isso, o Brasil faz o contrário: por aqui conseguimos combinar impostos altos com serviços ruins. E, em vez de focar em reduzir uns e melhorar outros, continuamos desperdiçando tempo com Thatcher e Chávez.


                                                                                          (Denis Russo Burgierman. Disponível em:    http://super.abrit.com.br/btogs/mundo-novo/2013/04/15/a-matdicao-do-esquerdo-direitismo/?                    utm_source=redesabril_jovem&utm_medium=twitter&utm_campaign=redesabrit_super)




Sobre o uso da palavra “mágica” no trecho “Essa é a mágica que os países nórdicos operaram nos últimos anos.” (10°§), é correto afirmar que o autor do texto lança mão dela para
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o sentido contextual de “mágica” no trecho “Essa é a mágica que os países nórdicos operaram nos últimos anos.”: a palavra é usada em sentido figurado, com valor apreciativo, para nomear de modo enfático um resultado considerado admirável no contexto argumentativo do autor. Esse uso, apoiado na descrição do êxito nórdico, conduz ao gabarito A.

Tema central: sentido contextual de mágica
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque “mágica” não nomeia um procedimento técnico nem um milagre literal; ela sintetiza, com tom elogioso, os resultados atribuídos aos países nórdicos. O contexto anterior é claramente valorativo: eles “se tornaram países incríveis para se viver”, criaram “as mais fantásticas políticas de transparência do mundo” e conseguiram conciliar melhoria dos serviços com aumento de eficiência. Portanto, o uso do termo reforça a admiração do autor pelos feitos desses países.
B
Errada
A alternativa erra porque desloca o foco do comando. Embora o texto apresente as reformas nórdicas e seus efeitos, a questão pergunta a função da palavra “mágica”. Nesse uso, o termo não serve apenas para indicar como algo foi feito; ele qualifica o resultado de forma elogiosa. Há, portanto, confusão entre o conteúdo informativo do parágrafo e o efeito discursivo do vocábulo destacado.
C
Errada
A alternativa generaliza além do que o texto sustenta. O autor comenta a experiência nórdica como caso específico e a contrapõe ao Brasil, mas não a transforma em solução geral para “problemas políticos de diferentes naturezas”. O erro está na extrapolação indevida: a palavra “mágica” valoriza um exemplo concreto, não formula uma receita universal.
D
Errada
A alternativa contraria frontalmente a orientação do texto. “Mágica” não indica impossibilidade nem irrealidade; ao contrário, o autor afirma que os países nórdicos efetivamente fizeram reformas, que “o estado continua grande, mas uma coisa fundamental mudou: ele agora funciona” e que “é possível, ao mesmo tempo, melhorar os serviços e aumentar a eficiência”. O uso é metafórico e elogioso, não de negação da viabilidade.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre o assunto do parágrafo e a função da palavra destacada: quem lê “mágica” literalmente ou a toma como simples indicação de solução prática tende a errar, porque o termo foi usado para exaltar os resultados, não para marcar impossibilidade nem para apenas descrever o método.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a questão destacar uma palavra, responda pelo efeito de sentido dela no contexto, não pelo tema geral do parágrafo.
  • Verifique se o termo retoma uma sequência de avaliações positivas ou negativas; isso costuma definir seu valor discursivo.
  • Não trate palavra figurada como literal se o próprio contexto mostrar resultado concreto e efetivo.
  • Evite generalizar um caso particular do texto para fórmulas universais sem apoio expresso.

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Comentários

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JUSTIFICATIVA DA ALTERNATIVA CORRETA: (LETRA A)

 

A palavra “mágica” no trecho carrega, em vista do sentido construído no texto, uma avaliação positiva daquilo que realizaram os países nórdicos, afinal, na ausência de um fato realmente extraordinário, sobrenatural, a leitura que se pode fazer é que os países nórdicos atingiram feitos dificílimos de se obter, tão difíceis que, a olhos inocentes, pareceriam mágica. Isso se caracteriza como uma exaltação a tais feitos.

 

Fontes: • O próprio texto. • CIPRO NETO, Pasquale; INFANTE, Ulisses. Gramática da Língua Portuguesa. 2ª ed. São Paulo: Scipione, 2004. • SAVIOLI, Francisco Platão; FIORIN, José Luiz. Para entender o texto: leitura e redação. 17ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2007.

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