Até a camarada professora ficou espantada e interrompeu a aula quando o Bruno entrou na sala. Não era só o que
se via na mudança das roupas, mas também o que se podia
cheirar com a chegada daquele Bruno tão lavadinho.
No intervalo, em vez de irmos todos brincar a correr, cada
um ficou só espantado a passar perto do Bruno, mesmo a
fingir que ia lá fazer outra coisa qualquer. A antiga blusa vermelha tinha sido substituída por uma camisa de manga curta
esverdeada e flores brancas tipo Hawai. Mas o mais espantoso era o Bruno não trazer os calções dele verdes justos
com duas barras brancas de lado. A pele cheirava a sabonete
azul limpo, as orelhas não tinham cera, as unhas cortadas e
limpas, o cabelo lavado e cheio de gel. Até os óculos estavam
limpos. Tortos mas limpos.
Fiquei no fundo da sala. Eu era grande amigo do Bruno e
mesmo assim não consegui entender aquela transformação.
Olhei o pátio onde as meninas brincavam “35 vitórias”. Na porta, uma contraluz do meio-dia iluminava a cara espantada da Romina. Eu olhava a Romina, o sol na porta e o Bruno também.
O mujimbo* já tinha circulado lá fora e eu nem sabia. Havia uma explicação para tanto banho e perfumaria. Parece
que o Bruno estava apaixonado pela Ró. A mãe do Bruno tinha contado à mãe do Helder todos os acontecimentos incríveis da tarde anterior: a procura dum bom perfume, o gel no
cabelo, os sapatos limpos e brilhantes, a camisa de botões. A
mãe do Bruno disse à mãe do Helder, “foi ele mesmo que me
chamou para eu lhe esfregar as costas”.
Depois do intervalo o Bruno passou-me secretamente a
carta.
A carta continuava bonita como eu nunca soube que o
Bruno sabia escrever assim. Ele tinha a cara afundada nos
braços, parecia adormecido, eu lia a carta sem acreditar que
o Bruno tinha escrito aquilo mas os erros de português eram
muito dele mesmo.
A camarada professora era muito má. Veio a correr e riu-
-se porque eu tinha lágrimas nos olhos. Pegou na carta e
rasgou tudo em pedacinhos tão pequenos como as minhas
lágrimas e as do Bruno. A Romina desconfiou de alguma coisa, porque também tinha os olhos molhados.
O sino tocou. Saímos. Era o último tempo.
No dia seguinte, com um riso que era também de tristeza
e uma espécie de saudade, o Bruno apareceu com a blusa
dele vermelha e os calções verdes justos com duas riscas
brancas de lado. Deu a gargalhada dele que incomodava a
escola toda e veio brincar conosco.
Na porta da sala, uma contraluz amarela do meio-dia iluminava a cara bonita da Romina e os olhos dela molhados
com lágrimas de ternura. E o Bruno também.
* Mujimbo: boato.
(Ondjaki, Os da minha rua. Adaptado)
Ao relatar a situação de transformação de Bruno, o narrador deixa evidente que