Juventude apática
“Que desalento é esse que está intoxicando
garotos e garotas que deveriam estar em seu
auge”
(Martha Medeiros)
Espero estar enganada, mas meu senso de
observação, aliado a algumas matérias que andei
lendo, tem me induzido a pensar que pessoas
maduras, também conhecidas como velhas,
continuam empolgadas com a vida, fazendo planos
para o futuro e transando bem, obrigada, enquanto
os jovens, que eram os que detinham o monopólio
da vitalidade, estão entediados, apáticos, achando
graça em nada. Alguém aí confirma?
Outro dia, estava conversando com amigos da
minha faixa etária, todos entrados nos 60 e com
filhos na casa dos 30, e a impressão deles era a
mesma. A nova geração tem passado os dias com
cara de paisagem. Eles trabalham
desesperançados, não se apaixonam
perdidamente e seus entusiasmos mal duram um
fim de semana, logo esfriam. Não que tivéssemos
muitas certezas na idade deles, mas a gente ia em
frente com dúvida e tudo, o pulso latejava. Um dia
de sol na praia era um acontecimento. Um beijo
roubado nos deixava insones. Abraçávamos
nossas causas com inocência e ardor, nunca com
ódio. Vibrávamos numa frequência positiva. Sorriso
não era uma raridade em nosso rosto e não
falávamos por monossílabos: palestrávamos em
mesa de bar. Melancolia? De vez em quando,
sucumbíamos a ela, claro. Éramos poetas, alguns
trágicos, cortesia da arte e de suas consequências na alma, mas tudo era visto como privilégio da
existência. Não havia zumbis atrás de telas,
buscávamos excitação de verdade.
Que desalento é esse que está intoxicando
garotos e garotas que deveriam estar em seu
auge? São pouco afirmativos e não lutam por seus
sonhos — nem mesmo sonham. Falta propósito. E
o fracasso apavora. Contentam-se em ser uma
eterna promessa e não estão entendendo que o
tempo irá cobrar caro, um dia, pela postura blasé
do “tanto faz”.
O excesso é cúmplice do vazio, uma dupla
bandida. Excesso de informações, poucos
empregos. Excesso de bocas, pouca intimidade.
Os cardápios são fartos de “felicidade”: quanto
mais é oferecido, mais confusos eles ficam, que
caminho seguir? Nós também tivemos que fazer
escolhas e as renúncias faziam parte do jogo, não
paralisavam ninguém. Agora o rolê tonteia.
Escolher só uma alternativa entre um milhão? Não
conseguem. Nada se destaca, nada é especial. A
banalidade dá o tom da conversa, que leva ao
fastio, claro. Um minuto de atenção (se tanto) e já
se trocou de desejo.
Não todos eles, amém. Há aqueles que ainda
leem livros, o que ajuda a concentrar. Há os que se
mantêm confiantes e interessados. E os que ainda
param para escutar a nós, os velhos cheios de gás
que parecem não se abalar com o planeta
derretendo e com políticos dando show de
insanidade. Galera, é no caos que a gente reage.
Reajam.
(Disponível em: https://oglobo.globo.com/ela/marthamedeiros/coluna/2025/03/juventude-apatica.ghtml. Acesso em 12/04/2025)
No último parágrafo do texto, o emprego do
vocábulo “ainda”, em suas duas ocorrências,
sugere que autora acredita tratar-se de
comportamentos: