Ao contrário de tempos passados, quando sumir com
alguém exigia certo grau de dificuldade e até risco criminal,
hoje tornou-se facílimo dar fim a uma pessoa. Bastam um
dedo e algumas teclas. É possível mudar completamente o
círculo de amizades, sumir da turma, buscar novos ares, sem
grandes enfrentamentos. Um amigo estava falando de sua
ex: “Bloqueei”. Explicou que bloqueou em tudo: no WhatsApp,
no Instagram, no Face. Em qualquer outra rede social, uma
pessoa existe ou não existe. Se é bloqueada em todos os
canais em que pode se comunicar com a outra, tecnicamente
não existe mais. Simplesmente deixa de estar presente.
Mesmo porque, na atualidade, a presença é mais digital que
física em um número imenso de casos.
Houve um tempo em que eu me admirava ao dar uma
“limpa” no celular. Por que tanta gente, com quem nunca converso, tantos endereços que já não fazem parte do meu dia a
dia? Para meu susto, recebi reclamações: “Por que você me
deletou?”, “Me bloqueou?”. Na prática, respondia: “Porque a
gente não se falava mais”. Descobri que estar na minha rede
mesmo sem papo era um modo de afirmar a existência da
pessoa em minha vida. Portanto, era ofensivo ser excluído.
Parecia sem sentido. Mas entendi. Se a pessoa for deletada
ou, pior, bloqueada, simplesmente deixa de existir. A comparação é forte, mas inevitável: morre.
Eu ainda acredito nas relações de carne e osso, nos
abraços, nos encontros longos e profundos. Mas descubro
que os relacionamentos digitais tomaram um espaço impressionante. Deletar equivale a dizer adeus. E dizer adeus é
sempre uma forma de luto.
(Walcyr Carrasco. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/walcyrcarrasco/assassinato-digital/. Acesso em 28/09/2025. Adaptado)
A respeito das transformações nas formas de relacionamento interpessoal com as tecnologias digitais, o autor
do texto
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