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Q819522 Português

Impotência

Foi na última chuvarada do ano, e a noite era preta. O homem só estava em casa; chegara tarde, exausto e molhado, depois de uma viagem de ônibus mortificante, e comera, sem prazer, uma comida fria. Vestiu o pijama e ligou o rádio, mas o rádio estava ruim, roncando e estalando. “Há dois meses estou querendo mandar consertar esse rádio”, pensou com tédio. E pensou ainda que há muitos meses, há muitos anos, estava com muita coisa para consertar desde os dentes até a torneira da cozinha, desde seu horário no serviço até aquele caso sentimental em Botafogo. E quando começou a dormir e ouviu que batiam na porta, acordou assustado, achando que era o dentista, o homem do rádio, o caixa da firma, o irmão de Honorina ou um vago fiscal geral dos problemas da vida que lhe vinha tomar contas.

A princípio não reconheceu a negra velha Joaquina Maria, miúda, molhada, os braços magros luzindo, a cara aflita. Ela dizia coisas que ele não entendia; mandou que entrasse. Há dois meses a velha lavava sua roupa, e tudo o que sabia a seu respeito é que morava em algum barraco, em um morro perto da Lagoa, e era doente. Sua história foi saindo aos poucos. O temporal derrubara o barraco, e seu netinho, de oito anos, estava sob os escombros. Precisava de ajuda imediata, se lembrara dele.

– O menino está... morto?

Ouviu a resposta afirmativa com o suspiro de alívio. O que ela queria é que ele telefonasse para a polícia, chamasse ambulância ou rabecão, desse um jeito para o menino não passar a noite entre os escombros, na enxurrada, ou arranjasse um automóvel e alguém para retirar o corpinho. Quis telefonar, mas o telefone não dava sinal; enguiçara. E quando meteu uma capa de gabardine e um chapéu e desceu a escada, viu que tudo enguiçara, os bondes, os ônibus, a cidade, todo esse conjunto de ferro, asfalto, fios e pedras que faz uma cidade, tudo estava paralisado, como um grande monstro débil. [...]

(Rubem Braga – 50 crônicas escolhidas. 3. ed. Rio de Janeiro: BestBolso. 2011. Fragmento.)


“Um recurso textual indicando __________________ é empregado no texto para estabelecer a ideia presente no último parágrafo transcrito entre ‘cidade’ e ‘grande monstro débil’.” Assinale a alternativa que completa corretamente a afirmativa anterior

Alternativas

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Esta questão envolve a análise de uma figura de linguagem no texto, especificamente a comparação por semelhanças entre 'cidade' e 'grande monstro débil'. Vamos analisar cada alternativa para compreender por que a opção C é a correta.

Alternativa A - aparente contraste: Esta alternativa sugere que há um contraste entre 'cidade' e 'grande monstro débil', o que não é o caso no texto. A cidade é descrita como paralisada, assim como o "grande monstro débil", demonstrando semelhança, não contraste.

Alternativa B - comparação implícita: Embora a comparação seja uma figura de linguagem presente, ela é explícita, não implícita. O texto faz uso claro da comparação ao descrever a cidade como um 'grande monstro débil'.

Alternativa C - comparação por semelhanças: Esta é a resposta correta. O texto estabelece uma comparação por semelhanças ao associar a cidade a um 'grande monstro débil', destacando a paralisação e impotência de ambos.

Alternativa D - relação de causa e consequência: Não há relação de causa e consequência entre 'cidade' e 'grande monstro débil'. O trecho foca em uma comparação direta, não em descrever causas ou consequências.

Ao entender que a questão aborda figuras de linguagem, especificamente a comparação por semelhanças, fica claro que a alternativa C é a mais adequada.

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Comentários

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Para comparar, você usa estruturas assim: parece com, é como, tal qual... Na comparação implícita, esses termos não aparecem, pois implícito é algo que não está à mostra mas pode ser percebido. Gabarito alternativa "C".

Essa dava para acertar, porém com certo receio. PM - CE 2023

"tudo estava paralisado, como um grande monstro débil" GAB C) comparação por semelhanças

Se tem um "COMO" não pode ser uma comparação implícita.

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