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Ano: 2018 Banca: Exército Órgão: CMRJ Prova: Exército - 2018 - CMRJ - Aluno - Português |
Q2045391 Português
    Eu tinha nove ou dez anos, e uma tia, que era pintora, me convidara para ir ao seu ateliê para conhecer o local onde ela trabalhava. O pequeno aposento estava frio e tinha um cheiro maravilhoso de terebintina e óleo; as telas armazenadas, apoiadas uma nas outras, me pareciam livros deformados no sonho de alguém que soubesse vagamente o que eram livros e os houvesse imaginado enormes, feitos de uma única página, dura e grossa [...].
    Francis Bacon observou que, para os antigos, todas as imagens que o mundo dispõe diante de nós já se acham encerradas em nossa memória desde o nascimento. “Desse modo, Platão tinha a concepção”, escreveu ele, “de que todo conhecimento não passava de recordação; do mesmo modo, Salomão proferiu sua conclusão de que toda novidade não passa de esquecimento”. Se isso for verdade, estamos todos refletidos de algum modo nas numerosas e distintas imagens que nos rodeiam, uma vez que elas já são parte daquilo que somos: imagens que criamos e imagens que emolduramos; imagens que compomos fisicamente, à mão, e imagens que se formam espontaneamente na imaginação; imagens de rostos, árvores, prédios, nuvens, paisagens, instrumentos, água, fogo e imagens daquelas imagens — pintadas, esculpidas, encenadas... Quer descubramos nessas imagens circundantes lembranças desbotadas de uma beleza que, em outros tempos, foi nossa (como sugeriu Platão), quer elas exijam de nós uma interpretação nova e original, por meio de todas as possibilidades que nossa linguagem tenha a oferecer, somos essencialmente criaturas de imagens, de figuras.

(MANGUEL, Alberto. Lendo imagens. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 19-20.)
A argumentação pode ser construída por meio de diferentes recursos, sempre visando convencer o leitor sobre a validade de determinada tese.
Nesse sentido, é correto afirmar que Manguel
Alternativas

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Tema central: Trata-se de uma questão de interpretação de texto com foco nos recursos argumentativos utilizados pelo autor — especialmente o uso da condicional ("se") e da primeira pessoa do plural para expressão de coletividade. Esses elementos são fundamentais na construção do texto dissertativo-argumentativo e estão em perfeita conformidade com a norma-padrão da Língua Portuguesa e orientações de manuais clássicos e gramáticas de referência.

Justificativa da alternativa correta (D):

A alternativa D é correta porque Manguel articula um argumento de autoridade (citando Bacon, Platão e Salomão) com uma hipótese introduzida pela conjunção condicional “se”: "Se isso for verdade, estamos todos refletidos..."

Além disso, ao usar a primeira pessoa do plural ("estamos todos refletidos..."), o autor inclui a coletividade, tornando o argumento mais abrangente e menos subjetivo, conforme explica Evanildo Bechara: a primeira pessoa do plural amplia o alcance das ideias do autor, aproximando leitor e escritor.

Essa estrutura (condicional + coletividade) fortalece a argumentação, atendendo a uma estratégia bastante utilizada em textos acadêmicos e oficiais.

Análise das alternativas incorretas:

A) Incorreta: O texto não prioriza o diálogo direto com o leitor, e sim a exposição argumentativa; não há interpelações ou perguntas ao leitor.

B) Incorreta: O primeiro parágrafo é nitidamente descritivo e narrativo, ambientando a experiência do autor, e não apresentando a tese.

C) Incorreta: Em nenhum momento o texto afirma que a linguagem verbal é pobre; pelo contrário, sugere que interpretamos o mundo por meio das imagens e da linguagem.

E) Incorreta: O autor utiliza Bacon, Platão e Salomão como exemplos, e não os coloca como únicas autoridades ou fontes absolutas sobre o assunto.

Estrategicamente: Sempre identifique quem o autor cita como autoridade (isso não quer dizer exclusividade) e localize expressões de inclusão como “nós”, “todos”, “nossa”, pois indicam coletividade. Além disso, atente-se ao valor lógico de conectivos condicionais (“se”), pois sinalizam hipóteses ou suposições—muito comuns em argumentos sofisticados.

Referências: Bechara, E. Moderna Gramática Portuguesa. Cunha & Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo.

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