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Ano: 2018 Banca: Exército Órgão: CMRJ Prova: Exército - 2018 - CMRJ - Aluno - Português |
Q2045390 Português
O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos. [...]
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo. [...]

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

(BARROS, Manoel de. Meu quintal é maior do que o mundo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015. p. 114.)
De acordo com Ferreira Gullar, “A arte existe, porque a vida não basta”.
No poema de Manoel de Barros, mais especificamente no verso “até fez uma pedra dar flor” (v. 24), a relação do poeta com a representação da realidade pode ser entendida como
Alternativas

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Comentário da questão – Interpretação de Textos e Figura de Linguagem (Metáfora)

Tema central: A questão exige interpretação de texto, focando na relação do poeta com a realidade a partir do uso de metáforas. O candidato deve identificar conceitos de releitura e criação poética, elementos essenciais em leituras literárias.

No verso “até fez uma pedra dar flor”, Manoel de Barros utiliza uma metáfora – figura de linguagem pela qual se transfere uma ideia de um elemento para outro, baseando-se em analogias. Segundo Celso Cunha e Lindley Cintra, “A metáfora é a transferência, por analogia, de significados" (Nova Gramática do Português Contemporâneo).

O poeta não está apenas descrevendo a realidade de maneira fiel, e sim oferecendo uma nova perspectiva sobre o mundo: um olhar inventivo e criativo sobre o banal. A pedra não pode literalmente dar flor, mas na poesia pode, representando a transformação poética do real.

Alternativa correta: C) releitura

Segundo Evanildo Bechara, releitura é reinterpretar ou recriar uma realidade, oferecendo um novo significado (Moderna Gramática Portuguesa). O menino-poeta do texto transforma o ordinário em algo inesperado, fazendo da pedra, símbolo do duro e estático, um novo começo (dar flor).

Análise das alternativas incorretas:

  • A) cópia: Errada. Não há reprodução fiel da realidade, e sim transformação inventiva.
  • B) negação: Errada. O poeta não rejeita a realidade, mas a reinventa com lirismo.
  • D) aceitação: Incorreta. Aceitar seria apenas observar e registrar o mundo tal qual é, o poeta vai além.
  • E) detalhamento: Incorreta. O verso não detalha o real, mas apresenta uma construção simbólica.

Estratégia de resolução: Identifique figuras de linguagem (metáfora, comparação) e pense como cada alternativa dialoga com o trecho. Questões assim usam pegadinhas, como trocar “releitura” por “cópia” ou “detalhamento”, testando sua compreensão além do óbvio.

Resumo: A poesia de Manoel de Barros é marcada por reinterpretação do mundo, ação que ultrapassa a simples reprodução, sendo conceito-chave em provas de interpretação de texto.

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