Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coi...

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Ano: 2018 Banca: Exército Órgão: CMRJ Prova: Exército - 2018 - CMRJ - Aluno - Português |
Q2045377 Português
Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

(ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro enigma. São Paulo: Companhia das Letras. 2012. p. 26.)


Vocabulário:

Expectante: aquele que espera, que observa.

Inerte: o que não possui movimento nem se consegue movimentar; imóvel.

Inóspito: local sem condições para ser habitado.

Pérfida: desleal; em que há traição, falsidade.

Rapina: ato de roubar astuciosa e violentamente.

Tácito: algo que é implícito ou que está subentendido.
Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor.
De acordo com a estrofe acima, o nosso destino é amar e se doar incondicionalmente. Para reforçar tal ideia, o poeta vale-se de
Alternativas

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Tema central: A questão aborda a interpretação de texto poético, especificamente a identificação de figuras de linguagem (paradoxo/antítese) e análise do sentido produzido pelo poeta.

Justificativa da alternativa correta (D):
O poema de Drummond utiliza a correlação de ideias contraditórias para expressar a essência do amor como algo que se doa completamente, mesmo sem receber retorno. A expressão “doação ilimitada a uma completa ingratidão” junta duas ideias opostas: doar sem reservas (generosidade extrema) e receber ingratidão total (ausência de reconhecimento). Essa justaposição caracteriza o paradoxo (também chamado de oxímoro, segundo Celso Cunha & Lindley Cintra), pois une sentidos conflitantes dentro da mesma frase para acentuar a profundidade do sentimento. Pela norma-padrão e manuais de referência (Bechara, 2009), reconhecer tais correlações exige atenção ao contraste implícito.

Análise das alternativas incorretas:

A) “Ilimitada” e “vazia” não são sinônimas. “Ilimitada” remete a algo sem restrição; “vazia”, à ausência. Não há sinonímia, nem destaque relevante dessas palavras.

B) Embora “pérfidas” e “nulas” sejam opostas ao sentido positivo do amor, “vazia” e “medrosa” não são conceitos opostos entre si; ambas sugerem ausência ou fragilidade. Logo, erro conceitual e de interpretação.

C) Os sentimentos destacados (“ingratidão” e “medrosa”) têm sentido definido, não são ambíguos (ambiguidade = duplo sentido). A estrofe não pormenoriza ambiguidades, mas sim coloca ideias em contraste.

E) “Completa ingratidão” não é exemplo de altruísmo, mas de falta dele. “Procura medrosa” é uma angústia, não comportamento altruísta. Errada a exemplificação.

Estratégia para acertar questões assim:
Leia atentamente o contexto dos versos: procure relações de oposição, palavras antagônicas e efeitos de sentido gerados pela justaposição dessas ideias. Ao identificar um paradoxo, pergunte-se: “Essas ideias podiam coexistir logicamente ou provocam estranhamento?” Se sim, há grande chance de ser um paradoxo!

Regra de ouro: Em poesia, figuras de linguagem muitas vezes têm papel central para transmitir emoções e sentidos complexos. Segundo Bechara e Cunha & Cintra, reconhecer paradoxos e antíteses é essencial para interpretação plena do texto literário.

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Comentários

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D. correlações contraditórias, como “doação ilimitada” e “completa ingratidão”.



Essas expressões evidenciam a contradição entre a generosidade do amor e a ingratidão recebida, ressaltando a complexidade e a dificuldade do ato de amar.

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