O emprego de recursos próprios da linguagem subjetiva caract...

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Ano: 2017 Banca: IDECAN Órgão: CBM-DF Prova: IDECAN - 2017 - CBM-DF - Soldado Operacional |
Q781609 Português

      *Sobre as paredes internas que restavam, equilibravam-se pontas de vigamento, revestidas de um bolor claro de cinza, tições enormes, apagados. Na atmosfera luminosa da manhã flutuava o sossego fúnebre que vem no dia seguinte sobre o teatro de um grande desastre.

      Informaram-me de coisas extraordinárias. O incêndio fora propositalmente lançado pelo Américo, que para isso rompera o encanamento do gás no saguão das bacias. Desaparecera depois do atentado.

      Desaparecera igualmente durante o incêndio a senhora do diretor.

      Dirigi-me para o terraço de mármore do outão. Lá estava Aristarco, tresnoitado, o infeliz. No jardim continuava a multidão dos basbaques. Algumas famílias em toilette matinal, passeavam. Em redor do diretor muitos discípulos tinham ficado desde a véspera, inabaláveis e compadecidos. Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, imóvel, absorto, sujo de cinza como um penitente, o pé direito sobre um monte enorme de carvões, o cotovelo espetado na perna, a grande mão felpuda envolvendo o queixo, dedos perdidos no bigode branco, sobrolho carregado.

      Falavam do incendiário. Imóvel! Contavam que não se achava a senhora. Imóvel! A própria senhora com quem ele contava para o jardim de crianças! Dor veneranda! Indiferença suprema dos sofrimentos excepcionais! Majestade inerte do cedro fulminado! Ele pertencia ao monopólio da mágoa. O Ateneu devastado! O seu trabalho perdido, a conquista inapreciável dos seus esforços!... Em paz!... Não era um homem aquilo; era um de profundis.

      Lá estava: em roda amontoavam-se figuras torradas de geometria, aparelhos de cosmografia partidos. Enormes cartas murais em tiras, queimadas, enxovalhadas, vísceras dispersas das lições de anatomia, gravuras quebradas da história santa em quadros, cronologias da história pátria, ilustrações zoológicas, preceitos morais pelo ladrilho, como ensinamentos perdidos, esferas terrestres contundidas, esferas celestes rachadas; borra, chamusco por cima de tudo: despojos negros da vida, da história, da crença tradicional, da vegetação de outro tempo, lascas de continentes calcinados, planetas exorbitados de uma astronomia morta, sóis de ouro destronados e incinerados...

            Ele, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra.

      Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo — o funeral para sempre das horas.

        (POMPEIA, Raul. O Ateneu: crônica de saudades. 2. ed. São Paulo: FTD, 1992.) 

*O texto em análise trata-se do fragmento final do romance “O Ateneu”, que narra os momentos seguintes ao incêndio que destruiu a escola e o estado de desolação de Aristarco, diretor do Ateneu, diante de tal fato.  

O emprego de recursos próprios da linguagem subjetiva caracteriza o texto literário. Leia os trechos abaixo selecionados:

I.A própria senhora com quem ele contava para o jardim de crianças!” (5º§)

II.Ele, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra.” (7º§)

III.Em redor do diretor muitos discípulos tinham ficado desde a véspera, inabaláveis e compadecidos.” (4º§)

IV.Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, imóvel, absorto, sujo de cinza como um penitente, [...]” (4º§)

A ocorrência de aproximação de elementos distintos considerando algumas de suas características pode ser identificada em:

Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O comando pede a identificação da “aproximação de elementos distintos considerando algumas de suas características”, critério que corresponde à comparação explícita, marcada no texto por “como”. Essa aproximação ocorre nos trechos II, “Ele, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra.”, e IV, “Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, imóvel, absorto, sujo de cinza como um penitente, [...]”; por isso, a resposta é D.

Tema central: comparação explícita
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque I e III não contêm comparação entre elementos distintos. Em I, há enunciado exclamativo com valor afetivo: “A própria senhora com quem ele contava para o jardim de crianças!”, mas sem aproximação imagética com outro referente. Em III, há descrição narrativa com qualificação: “inabaláveis e compadecidos”, sem construção comparativa.
B
Errada
Está errada porque não há apenas uma ocorrência. O recurso aparece em dois trechos: II, com “como um deus caipora”, e IV, com “como um penitente”. A exclusão de um deles contraria a marca linguística explícita de comparação presente nos dois.
C
Errada
Está errada porque não se sustentam três ocorrências. Para chegar a três, seria necessário incluir I ou III como comparação, mas isso não é possível com base no texto: I é expressivo e exclamativo; III é descritivo e qualificativo. Nenhum dos dois aproxima seres distintos por semelhança.
D
Certa
A alternativa D está correta porque somente os trechos II e IV realizam o recurso pedido no comando: a aproximação entre elementos distintos por traços comuns. Em II, Aristarco é aproximado de “um deus caipora”; em IV, sua figura é aproximada à de “um penitente”. Nos dois casos, a comparação é explícita e produz imagem subjetiva. Como I e III não apresentam esse mecanismo, o total correto é dois trechos.
Pegadinha da questão
A banca começou com a ideia geral de “linguagem subjetiva”, mas a pergunta final restringiu o foco a um recurso específico: a comparação. A confusão está em tratar qualquer expressividade, exclamação ou adjetivação como se fosse aproximação comparativa.
Dica para questões semelhantes
  • Leia primeiro o recorte exato do comando: aqui não bastava localizar subjetividade; era preciso achar comparação entre elementos distintos.
  • Procure a marca formal do recurso pedido. Nesta questão, “como” foi o indício decisivo em II e IV.
  • Não classifique como comparação um trecho apenas por ser exclamativo, afetivo ou descritivo.
  • Separe qualificação direta de imagem comparativa: adjetivos descrevem; comparação aproxima um referente de outro.

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Comentários

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Olá, DEUS, sou eu de novo! Por favor, não deixe que essa banca seja a organizadora do concurso da PMCE. Amém!

Desejo o mesmo que o cara de baixo...

Se você não entendeu a questão, você não foi o único!

PCCE, eu que vou enfrentar essa banquinha de deus,

o jeito que tem é pegar as manhas da banca.

I. “A própria senhora com quem ele contava para o jardim de crianças!” (5º§)

 

Nesse trecho, não ocorre a aproximação de elementos distintos, já que nele não é feito nenhum tipo de comparação entre elementos distintos (nem direta, nem subentendida).

 

A expressão jardim de crianças foi empregada em substituição a jardim de infância.

 

II. “Ele, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra.” (7º§)

 

A expressão como um deus caipora representa uma figura de palavra chamada comparação, em que se atribui a um ser (Ele) característica de um outro (deus caipora) em decorrência de alguma semelhança entre os dois elementos comparados.

 

A expressão desastre universal é uma metáfora que compara, de forma subentendida, a imagem da escola destruída a um desastre universal. Portanto, aproxima esses elementos considerando algumas de suas características (a cena de uma tragédia, de tristeza, desolamento, etc.).

 

III. “Em redor do diretor muitos discípulos tinham ficado desde a véspera, inabaláveis e compadecidos.” (4º§)

 

Nesse trecho, não ocorre a aproximação de elementos distintos, já que nele não é feito nenhum tipo de comparação entre elementos distintos (nem direta, nem subentendida).

 

IV. “Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, imóvel, absorto, sujo de cinza como um penitente, [...]” (4º§)

 

A expressão como um penitente representa a figura de palavra chamada comparação, em que se atribui a um ser (o personagem Aristarco) característica de um outro (um penitente, uma pessoa que cumpre penitência) em decorrência de alguma semelhança entre os dois elementos comparados (sujos de cinza). Ocorre, então, a aproximação entre o personagem Aristarco e a figura de um penitente em virtude de ambos se mostrarem sujos de cinza.

 

LETRA "A"-ERRADA.  Todos os trechos selecionados. 

 

LETRA "B"-ERRADA.   Um trecho selecionado apenas.

 

LETRA "C"-ERRADA.   Três dos trechos selecionados apenas.

 

LETRA "D"-CORRETA.  Dois dos trechos selecionados apenas.

TECCONCURSOS

I. “A própria senhora com quem ele contava para o jardim de crianças!” (5º§)

II. “Ele, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra.” (7º§)

COMPARAÇÃO

III. “Em redor do diretor muitos discípulos tinham ficado desde a véspera, inabaláveis e compadecidos.” (4º§)

IV. “Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, imóvel, absorto, sujo de cinza como um penitente, [...]” (4º§)

COMPARAÇÃO

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