Conforme o 2º parágrafo do texto é CORRETO afirmar que:

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Q658502 Português

                                   Contradições do mundo em que vivemos

Devemos sempre resistir à impressão de que o mundo enlouqueceu. O famoso conto de Machado de Assis “O Alienista” nos deixa essa lição. Doutor Simão Bacamarte, depois de trancar toda a cidade no manicômio – inclusive a sua própria mulher – acabou por trancar a si mesmo.

Se não é saudável nem prudente apostar na loucura geral, imaginando-se em plena sanidade, há evidências de que grassa uma epidemia de capota furada. Junto dois textos que julgo oportuno republicar diante das manifestações – contra, a favor e muito ao contrário – suscitadas pela prisão dos diretores da Camargo Correa e de Eliana Tranchesi. Os dois episódios desataram um desfile de fúria e descontrole moral entre os comentaristas de blogs e missivistas das colunas de Cartas ao Leitor. Não se trata aqui de discutir as razões e as justificativas das ações da polícia ou a procedência das decisões judiciais. Cuida-se de examinar as reações aos fatos e avaliar o estado da consciência jurídica que predomina entre os cidadãos deste país.

Nos episódios mencionados, os ululantes atacaram, mais uma vez, com as bordunas do preconceito, da intolerância e da apologia da brutalidade, sem falar nas ações em massa contra última flor do Lácio, inculta e bela. Alguém já dizia que há método na loucura, mas a desrazão caprichou na metodologia. Expressões grosseiramente facistoides poucas vezes foram utilizadas com tanta liberalidade e descuido. A generosa distribuição de adjetivos foi acompanhada de exaltadas conclamações para o retorno dos militares ou sugestões para que o desrespeito à lei e aos direitos individuais se transformassem em regra geral e irrestrita.

Torço para que o destampatório seja mais um esgar do que um ideário consistente. Mas não custa ficar esperto: os estudiosos do totalitarismo sabem que a “autovitimização” da “boa sociedade” e a inculpação do “outro” foram métodos eficientes para a conquista do poder absoluto. Vejo nos blogs: os mais furiosos se apresentam como “humanos direitos”, em contraposição aos defensores dos “direitos humanos”. Fico a imaginar como seria a vida dos humanos direitos na moderna sociedade capitalista de massas, crivada de conflitos e contradições, sem as instituições que garantam os direitos civis, sociais e econômicos conquistados a duras penas. A possibilidade da realização desse pesadelo, um tropismo da anarquia de massas, tornaria o Gulag e o Holocausto um ensaio de amadores.

As novas operações da Polícia Federal desataram, ademais, a costumeira rodada de críticas ao poder Judiciário e às leis destinadas a proteger os direitos individuais, – a começar da Constituição. As acusações, em boa medida, partem de certa esquerda de boca torta. Em sua sede de “justiça” (com letra minúscula) ela se acumplicia aos extremistas de direita das classes remediadas, em sua campanha para “limpar” a sociedade. “A polícia prende, a Justiça solta”. Refrão midiático destinado ao imaginário de um povo habituado a ser preso e espancado arbitrariamente, desamparado da consciência de seus direitos. O século XXI já vai completar uma década e, no Brasil, a letra da lei que garante os direitos do indivíduo jaz inerte nos compêndios. As garantias individuais ainda não saíram dos códigos para ganhar vida do povaréu, quotidianamente massacrado pelos abusos dos senhoritos da “ordem” e seus sequazes. (...) 

O jurista Herbert Hart, no livro The Concept of Law diz com razão que o juiz não pode decidir como supremo censor e guardião da moralidade pública. A primeira e ilustre vítima do particularismo moralista será o princípio da legalidade que deve estabelecer com a maior clareza possível o que é lícito e o que não é. Exemplo de atropelo ao princípio da legalidade é a lei promulgada pelo regime nazista em 1935. Ela prescrevia que era “digno de punição qualquer crime definido como tal pelo ‘saudável sentimento’ popular”.

No ensaio O Estado e o Indivíduo no Nacional-Socialismo, Herbert Marcuse argumentava que, na era moderna, o domínio da lei, o monopólio do poder coercitivo e a soberania nacional são as três características do Estado que mais claramente expressam a divisão racional de funções entre Estado e Sociedade. “A lei trata as pessoas, se não como iguais, pelo menos sem considerar as contingências sociais mais óbvias; é, por assim dizer, a corte de apelação que mitiga os infortúnios e as injustiças que as pessoas sofrem em suas relações sociais. O caráter universal da lei oferece proteção universal a todos os cidadãos, não apenas em relação ao desastroso jogo de autointeresses conflitantes, mas também aos caprichos governamentais. O regime nacionalsocialista aboliu estas propriedades da lei que a tinham elevado acima dos riscos da luta social.” (...) 

No mundo das grandes empresas e da inevitável mediação do Estado nas disputas entre os competidores privados, a exceção tende a se tornar a regra. Tal estado de excepcionalidade deságua na proliferação legislativa casuística e na ameaça permanente ao caráter abstrato e universal da norma jurídica. A contradição se torna aguda: de um lado, a liberdade dos indivíduos no mercado exige a independência do Judiciário, certeiro na aplicação da lei e cuidadoso em seus procedimentos; de outra parte, a “corrupção” quase congênita, engendrada pela concorrência econômica mediada pelo Estado, estimula a formação de correntes de opinião que propugnam por formas primitivas de punição e de vingança. (...) 

Para assumir a condição de sujeitos de direitos e deveres, os indivíduos são constrangidos a abdicar de sua moral particularista. O consensus iuris é o reconhecimento dos cidadãos de que o direito, ou seja, o sistema de regras positivas emanadas dos poderes do Estado e legitimados pelo sufrágio universal deve punir rigorosamente quem se aventura à violação da norma abstrata. Mas a mediação do Estado é precária, sugere Giorgio Agambem, pois a soberania é um frágil compromisso entre a natureza e a razão, o direito e a violência. (...) 

Os meios de comunicação de massa, compelidos pela disputa de audiência, são arrastados para o abismo da vulgaridade, pelos “movimentos da ralé”. Eles repercutem e realimentam as simplificações e slogans de um tipo de sociabilidade que necessita cada vez mais, para reproduzir suas formas de dominação, da incompreensão dos indivíduos abandonados à sua solidão. Essa relação entre a linguagem midiática e as relações no interior da sociedade de massas legitima as tropelias e ilegalidades praticadas pelas burocracias públicas e promovem a subversão da hierarquia entre os poderes do Estado. As empresas corrompem a política e, assim, degradam o instituto da representação popular. Procuradores e policiais fazem gravações clandestinas ou inventam provas e assim corrompem o princípio da legalidade e da impessoalidade nos atos da administração pública. Nas altas esferas do Olimpo midiático, “a imprensa diária dispara a cortina de relâmpagos” e trata de manipular a opinião pública, atemorizar juízes e fomentar a arbitrariedade dos esbirros e beleguins.

Conforme o 2º parágrafo do texto é CORRETO afirmar que:
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a aderência literal e semântica ao 2º parágrafo, sobretudo à delimitação do foco do autor e à reação atribuída aos comentaristas: "Os dois episódios desataram um desfile de fúria e descontrole moral entre os comentaristas de blogs e missivistas das colunas de Cartas ao Leitor. Não se trata aqui de discutir as razões e as justificativas das ações da polícia ou a procedência das decisões judiciais. Cuida-se de examinar as reações aos fatos e avaliar o estado da consciência jurídica que predomina entre os cidadãos deste país." Desse trecho resulta que a correta é a alternativa que mantém a ideia de reação colérica dos comentaristas, sem inverter o objeto de análise do texto.

Tema central: foco do 2º parágrafo
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque contraria uma negação explícita do texto. O autor afirma: "Não se trata aqui de discutir as razões e as justificativas das ações da polícia". A alternativa transforma em objeto defendido de discussão aquilo que o parágrafo exclui expressamente do foco.
B
Errada
Está errada pelo mesmo critério de inversão do foco temático. O texto declara que não se trata de discutir "a procedência das decisões judiciais". A alternativa afirma como essencial exatamente o que o autor afasta como objetivo do parágrafo.
C
Certa
A alternativa C está correta porque traduz com fidelidade o conteúdo afirmado no 2º parágrafo: os episódios ligados às prisões mencionadas provocaram reação intensa dos comentaristas e missivistas. A formulação "mostraram-se coléricos" é paráfrase compatível com "desataram um desfile de fúria e descontrole moral", preservando o núcleo semântico da passagem. Além disso, a referência às prisões dos diretores da Camargo Correa e de Eliana Tranchesi corresponde ao referente de "os dois episódios" no próprio parágrafo.
D
Errada
Está errada por inverter o sentido do trecho final do parágrafo. O autor diz: "Cuida-se de examinar as reações aos fatos e avaliar o estado da consciência jurídica que predomina entre os cidadãos deste país." A alternativa troca "avaliar" por "negligenciar", o que produz oposição semântica direta ao texto.
Pegadinha da questão
A banca menciona ações da polícia e decisões judiciais no mesmo parágrafo, mas justamente para excluí-las como foco; além disso, troca-se facilmente a ideia correta de "avaliar" a consciência jurídica pela ideia errada de "negligenciar", e exige-se reconhecer que "desfile de fúria" sustenta a paráfrase "mostraram-se coléricos".
Dica para questões semelhantes
  • Verifique primeiro se o autor está afirmando um conteúdo ou delimitando o que não será discutido; essa diferença elimina alternativas por negação explícita.
  • Quando a alternativa vier em outras palavras, teste se ela preserva o núcleo semântico do trecho, como ocorre entre "fúria" e "coléricos".
  • Em parágrafos com dois objetivos coordenados, confira se a alternativa mantém ambos; trocar um deles por sentido oposto costuma invalidar a opção.

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Comentários

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COLÉRICO= ESTADO DE RAIVA, FÚRIA, IRA, BRAVEZA;

"Os dois episódios desataram um desfile de fúria e descontrole moral entre os comentaristas de blogs e missivistas das colunas de Cartas ao Leitor."

a) As ações da polícia devem ser amplamente discutidas. ERRADA!

b) É essencial o exame minucioso da procedência das decisões judiciais. ERRADA!

Não se trata aqui de discutir as razões e as justificativas das ações da polícia ou a procedência das decisões judiciais.

d) Importa aquilatar as reações dos comentaristas de blog e negligenciar o estado de consciência jurídica dos brasileiros. ERRADA!

Cuida-se de examinar as reações aos fatos e avaliar o estado da consciência jurídica que predomina entre os cidadãos deste país.

Essa banca tem tesão em palavras difíceis. AFF

Além de estudar pra prova agora temos que decorar o dicionário. Tenha a santa paciência!

Como que acerta uma questão que a pessoa nem sabe o significado das palavras kkkk, aquilatar, coléricos.

Inacreditável, as provas mais recentes da banca são relativamente mais fáceis na parte de interpretação de texto kkkkk

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