Considere as passagens a seguir:•  “… ter claro como devería...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q4191448 Português
As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz


      Não é trivial analisar, ao menos a meus olhos míopes, a complexidade do mundo de hoje, e, menos ainda, ter claro como deveríamos lidar com o que há, e com o que o destino nos traz. Uma provocação interessante seria explorar eventuais conexões entre “fato” (aquilo que foi feito), “fado” (destino, aquilo que foi dito, postulado por alguma transcendência) e “fatalidade”, um acontecimento vivido como destino.

      Quando sentimos a serenidade abalada, vem à memória o torturado solilóquio* de Hamlet: o dilema entre sofrer passivamente as flechas da fortuna**, ou postar-se contra o mar de aflições. O célebre trecho não refletiria uma opção entre coragem e covardia, mas entre duas atitudes diante da fatalidade. Hamlet sabe que “o mar” não pode ser derrotado e hesita, não porque teme agir, mas porque sabe que sua ação não resolverá o mundo. A pergunta dele talvez não seja “o que se deve escolher?”, mas “como viver com o que não escolhemos?”.

     Para os estoicos, o destino não é capricho dos deuses, mas uma necessidade racional do cosmos. A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós e agir virtuosamente no que depende. O estoico não se queixa, rejeita o ressentimento e mantém a dignidade sem ilusões; o mundo seria, no fundo, compreensível, e a serenidade, possível.

   Uma terceira via, que seguiria sem rebelar-se ao fado, nem tentar sua “domesticação” via razão, seria a adotada por Nietzsche: o “amor fati”, literalmente “amor ao destino”, amor ao mundo como é, sem buscar desculpas. Em Ecce Homo, ele afirma: “Minha receita para a grandeza do ser humano (amor fati) é não querer nada diferente, nem para frente, nem para trás, por toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, ou justificá-lo, mas amá-lo”. Assumir o destino como fato, e responder por ele, sem a resignação estoica, nem a hesitação hamletiana. Não se questiona se o mundo é justo, racional ou digno; pergunta-se apenas se somos capazes de afirmá-lo. Amor fati – amar o destino – seria a recusa radical ao álibi. Não cabe dizer “tudo acontece por alguma razão”, mas sim afirmar “isto aconteceu – e eu o assumo”. Amar o destino é tratar o fado como se fato fosse, não no sentido de tê-lo causado, mas em responder por ele.

      Amenizando, haveria talvez ainda outra resposta, bem menos rebuscada e muito mais conhecida, que veio de um conjunto musical nos anos 70. Ela nos tranquiliza lembrando-nos que, quando estamos em tempos de tribulação, “… a mãe Maria vem a mim e me diz, com palavras de sabedoria, ‘deixa estar’”… Let it be!


(Demi Getschko, “As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz”,
O Estado de S.Paulo. Disponível em: https://www.estadao.com.br/
economia/demi-getschko/as-dificuldades-para-lidar-como-que-o-destino-nos-traz/. Adaptado)
Considere as passagens a seguir:

•  “… ter claro como deveríamos lidar com o que há…” (1º parágrafo)
•  “A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós…” (3º parágrafo)
•  “Assumir o destino como fato, e responder por ele…” (4º parágrafo)

De acordo com a norma-padrão de regência e com o sentido original do texto, as expressões destacadas podem ser substituídas, respectivamente, por:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O comando exige preservar simultaneamente a regência normativa e o sentido contextual, conforme os trechos “... ter claro como deveríamos lidar com o que há...” / “A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós...” / “Assumir o destino como fato, e responder por ele...”; por isso, a alternativa D é a única que recompõe os três segmentos com construções gramaticalmente aceitáveis e semanticamente compatíveis com o texto.

Tema central: regência e sentido
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada por alteração semântica relevante. “pelejar contra o” não equivale a “lidar com”, porque introduz confronto direto, enquanto o texto não define essa relação como combate. No segundo segmento, “acolher o” até se aproxima parcialmente de “aceitar”, mas isso não salva a alternativa. O erro decisivo está em “Retificar o”, incompatível com “assumir o destino como fato”, já que retificar significa corrigir ou emendar, e o texto aponta para reconhecer e responder pelo destino.
B
Errada
Está errada por regência inadequada e por desvio de sentido. “conviver no” não recompõe adequadamente “lidar com”, nem pela construção sintática nem pelo valor semântico. “conformar-se no” viola a regência esperada. “Consentir ao” também não corresponde à estrutura de “assumir o destino como fato” e ainda desloca o sentido para permitir ou anuir, o que não é o caso no texto.
C
Errada
Está errada por falha de regência e desvio semântico forte. “suportar o” pode tangenciar a ideia de lidar, mas reduz o sentido a mera tolerância. No segundo segmento, “reconhecer ao” apresenta regência inadequada. No terceiro, “Tomar posse do” contraria diretamente o texto, porque “assumir o destino como fato” não é apropriar-se do destino, mas admiti-lo e responder por ele.
D
Certa
A alternativa D é a única que satisfaz o critério duplo da questão. No primeiro trecho, “nos ocupar do” preserva a ideia de tratar de uma realidade dada, compatível com “lidar com o que há”. No segundo, “sujeitar-se ao” mantém, no contexto estoico, o valor de submissão ao que não depende da vontade humana, o que sustenta a reescrita de “aceitar o que não depende de nós”. No terceiro, “admitir o” é compatível com “assumir o destino como fato”, porque o texto esclarece que se trata de reconhecer o ocorrido e responder por ele, não de possuí-lo, corrigi-lo ou apenas anuir.
E
Errada
Está errada por erro de regência generalizado e inadequação semântica. “trabalhar no” não corresponde ao sentido de “lidar com o que há”. “aderir com o” fere a regência e também não equivale a “aceitar” no contexto estoico. “Concordar do” não atende à regência normativa e tampouco preserva o sentido de “assumir o destino como fato”.
Pegadinha da questão
A banca combina dois filtros simultâneos: não basta a expressão parecer sinônima; ela precisa funcionar com a preposição exigida e manter exatamente o sentido que o texto constrói, sobretudo em “assumir o destino como fato”, que não significa tomar posse, corrigir ou apenas consentir.
Dica para questões semelhantes
  • Leia o comando como critério duplo: verifique primeiro se a reescrita mantém o sentido e depois se a regência continua correta.
  • Desconfie de sinônimos aproximados quando a preposição muda: a banca costuma eliminar por regência inadequada mesmo quando a ideia parece parecida.
  • Em reescrita contextual, decida pelo sentido do trecho, não pelo verbo isolado: aqui “aceitar” e “assumir” dependem do enquadramento filosófico dado pelo texto.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Mesma questão em:

https://www.qconcursos.com/questoes-militares/questoes/9d8cafe2-85

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo