[...] Vinham vindo, com o trazer de comitiva. ...

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Ano: 2013 Banca: UNEB Órgão: UNEB Prova: UNEB - 2013 - UNEB - Vestibular - Português/Inglês/Ciências |
Q1393967 Português

[...] Vinham vindo, com o trazer de comitiva.

Aí, paravam. A filha–a moça–tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras–o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração. Assim com panos e papéis, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espantados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas– virundangas: matéria de maluco. A velha só estava de preto, com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam.

Soroco estava dando o braço a elas, uma de cada lado.Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro. Todos ficavam de parte, a chusma de gente não querendo afirmar as vistas, por causa daqueles trasmodos e despropósitos, de fazer risos, e por conta de Soroco–para não parecer pouco caso. Ele hoje estava calçado de botinas, e de paletó, com chapéu grande, botara sua roupa melhor, os maltrapos. E estava reportado e atalhado, humildoso. Todos diziam a ele seus respeitos, de dó. Ele espondia: – “Deus vos pague essa despesa...”

O que os outros diziam: que Soroco tinha tido muita paciência. Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio. [...]

Tomara aquilo acabasse. O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre. [...]

Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido, e virou, pra ir-s’ embora. Estava voltando para casa, como se estivesse indo para longe, fora de conta.

Mas parou. Em tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de si, parar de ser. Assim num excesso de espírito, fora de sentido. E foi o que não se podia prevenir: quem ia fazer siso naquilo?. Num rompido — ele começou a cantar, alterando, forte, mas sozinho para si-e era a cantiga, mesma de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.

ROSA, João Guimarães. Soroco sua mãe, sua filha. Primeiras estórias. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olyimpio, s.d. p. 16-18. Guimarães Rosa, escritor inserido na chamada Geração de 45 — Modernismo Brasileiro —, apresenta uma obra de cunho universalista.


O texto comprova isso porque

Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O comando pede a comprovação do "cunho universalista" pela identificação do tema central do fragmento, não por traços formais, regionais ou sociais isolados. Isso se confirma em "Era uma tristeza. Parecia enterro. [...] Estava voltando para casa, como se estivesse indo para longe, fora de conta. [...] parecia que ia perder o de si, parar de ser. [...] ele começou a cantar [...] e era a cantiga, mesma de desatino, que as duas tanto tinham cantado.", trecho que evidencia dor, perda e abalo subjetivo, o que leva à alternativa D.

Tema central: dor humana universal
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra porque "prosa poética" nomeia um modo de escrita, isto é, um traço formal/estilístico. O comando, porém, pede o que comprova o "cunho universalista" do texto. Pela base, o universalismo aqui decorre do tema humano-existencial, não da forma de composição.
B
Errada
A alternativa erra por deslocar o foco para a ambientação. Há elementos de cidade interiorana e coletividade local, mas isso é moldura do episódio. O dado decisivo não é o pitoresco regional; é a experiência de perda e desintegração interior de Soroco, que ultrapassa o espaço local.
C
Errada
A alternativa erra porque neologismos e construções inventivas pertencem ao plano da linguagem, não ao fundamento temático que comprova o universalismo nesta questão. A base é expressa ao distinguir recurso formal de conteúdo humano-existencial.
D
Certa
A alternativa D está correta porque reconhece o núcleo temático que efetivamente universaliza o texto: a vivência íntima de Soroco diante da separação da mãe e da filha e o abalo interior que isso produz. O fragmento não se limita a registrar um fato local; ele transforma essa cena em experiência humana ampla, marcada por luto, solidão, desamparo e ruptura subjetiva, como mostram "Era uma tristeza. Parecia enterro.", "Estava voltando para casa, como se estivesse indo para longe" e "parecia que ia perder o de si, parar de ser.". É esse enfoque intimista e ligado à condição humana que comprova o cunho universalista pedido.
E
Errada
A alternativa erra por transformar elementos sociais acessórios em eixo central de sentido. O texto traz sinais de pobreza e exclusão, mas não organiza o fragmento como denúncia social dos mais pobres. O centro está na dor íntima, na perda e no abalo subjetivo do personagem.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre o que é visível no texto e o que responde ao comando: linguagem rosiana, cenário interiorano e marcas sociais aparecem no fragmento, mas não são o critério que comprova o "cunho universalista"; esse critério está no drama humano-existencial de Soroco.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando pedir comprovação de universalismo, procure primeiro o tema humano mais amplo, não a marca estilística mais chamativa.
  • Separe ambientação regional de eixo de sentido: o cenário pode ser local, mas o tema pode ser universal.
  • Distingua recurso formal de núcleo temático: linguagem elaborada não resolve a questão se o comando cobrar alcance humano do texto.

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