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Ano: 2025 Banca: FCM Órgão: UNIFEI Prova: FCM - 2025 - UNIFEI - Vestibular |
Q3882364 Português

A QUESTÃO SE REFERE AO TEXTO A SEGUIR.


Não existem finais felizes: a felicidade é uma ilusão que não desejamos

Julián Fuks


Convidaram-me a falar sobre a mentira dos finais felizes. Tarefa fácil: são mesmo mentirosos os finais felizes. Basta lançar ao mundo algum olhar clínico. Nossa cultura já aprendeu que nem tudo se dissolve em harmonia, que jamais se cria uma paz absoluta, carente de todo trauma passado e todo conflito futuro. Onde se vê felicidade pura pode ser que algo não se veja, que os olhos estejam turvos.


A fórmula clássica que encerra as histórias infantis, "e viveram felizes para sempre", é a expressão de um desinteresse total pelo que seria essa existência feliz. Nela se realiza, é fácil sentir, uma associação entre felicidade e morte. No fundo o que a fórmula diz, em tom apaziguador, equivale a um "não viveram mais nada até que morreram". Mas me convidaram a falar sobre isso em Medelín, em espanhol, e nessa língua o final clássico tem outra nuance: "vivieron felices y comieron perdices". Nesse pequeno detalhe acrescido, o fato de terem comido perdizes, cabe ao menos um pouco de vida. Nessa outra fórmula o que se diz é que "viveram uma série de outras coisas que já não nos interessam", e só depois disso se chega ao fim.


Seja como for, do tempo dos clássicos até o tempo presente, deu-se uma revolução em nosso interesse. Já há alguns séculos, desde o surgimento do romance moderno, nossa curiosidade tem recaído exatamente sobre essa vida comum que se inicia ao fim de qualquer aventura, sobre o cotidiano tenso que antes tomávamos por feliz. Interessa a aflição que subjaz à rotina, interessa a angústia sutil que se gesta em silêncio ao longo dos anos. O que procuramos nas histórias que narramos a nós mesmos, agora, é a desilusão da vida que trai os anseios juvenis, é o indiscreto caos do convívio familiar, é o medo da morte depois de tanta monotonia, tudo isso quem sabe redimido em alguma medida por um final mais ameno.


"Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira." Nessa frase magistral de Tolstói que abre Anna Karenina se manifesta com clareza nossa vontade insuperável de observar com atenção de que é feita a infelicidade. Mas acho que ela merece um reparo, se formos honestos, e se o leitor me permite tamanha insolência. Também as famílias felizes são felizes cada uma à sua maneira. Não porque haja tanta nuance na paz e na existência tranquila, mas porque aquilo que chamamos felicidade também é feito da infelicidade em sua infinita riqueza, porque uma vida feliz também é atravessada continuamente por tristezas, sobressaltos, sustos, desalentos, desilusões, pesadelos.


De modo que não existe e jamais existiu uma felicidade pura, até porque não existe nenhum tipo real de pureza — mesmo em ciência a pureza é sempre um estado hipotético. Uma felicidade absoluta não chega nem mesmo a ser um ideal que nutrimos, porque a ele associamos algum torpor, uma indolência, uma saciedade que conduz à paralisia, a ausência de um novo desejo que nos vitalize. A partir disso já poderíamos concluir pela impossibilidade de todo "final feliz", já que essa última palavra seria inatingível. Mas a primeira também é uma falácia, e sobre isso talvez valha acrescentar ainda algum raciocínio.


Penso na leitura de livros infantis que tenho feito ao lado das minhas filhas, esse um dos momentos mais puramente felizes da minha vida cotidiana, como já confessei uma vez aqui. Penso nos bordões que Tulipa criou para emendar ao final de cada livro, numa fórmula própria que em alguma medida os ordena. São duas variações: "Mas essa já é outra história", ou então "E vai começar tudo outra vez". Acho cômico e preciso seu sistema de classificação. Vejo nele uma proposta de distinção entre as histórias cíclicas, cujo fim remonta ao princípio, e aquelas que avançam numa espécie de deriva, e vão convocando outros sinuosos acontecimentos que já não cabem nas páginas que lemos.


E então me pergunto se não será assim a vida, feita de retornos e derivas, num movimento perpétuo. Se não se encadeiam assim tanto os momentos felizes quanto os infelizes, ou os momentos a um só tempo felizes e infelizes, sempre sucedidos por outros tão complexos e indefiníveis quanto eles, em nossa própria existência ou na existência daqueles que ficam quando partimos. Não existem finais felizes, eles são uma mentira, pelo simples fato de que não existem finais, de que os finais são sempre uma ilusão momentânea, e nada jamais termina. Bom, nada talvez seja muito: ao menos um texto, sim, é capaz de alcançar o seu fortuito fim. 


Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-fuks/2025/08/23/nao-existem-finais-felizes-a-felicidade-e-uma-ilusao-que-nao-desejamos.htm. Acesso em: 10 set. 2025.

É correto afirmar que, ao discorrer sobre a ilusão de uma felicidade duradoura, Julián Fuks defende a
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a tese final explicitada no fechamento do texto, em especial o trecho "E então me pergunto se não será assim a vida, feita de retornos e derivas, num movimento perpétuo. Se não se encadeiam assim tanto os momentos felizes quanto os infelizes, ou os momentos a um só tempo felizes e infelizes, sempre sucedidos por outros tão complexos e indefiníveis quanto eles". É essa formulação que deve orientar a resposta, pois a alternativa correta é a única que a parafraseia sem desvio relevante.

Tema central: tese final do texto
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque recompõe a conclusão do articulista sem deformá-la: a vida não se fecha em um "final feliz", mas segue em continuidade, como "retornos e derivas", e os momentos humanos não são puros nem simples, podendo ser felizes, infelizes ou até "a um só tempo felizes e infelizes". O núcleo da tese está justamente nessa recusa de um encerramento definitivo e nessa mistura constitutiva dos afetos.
B
Errada
A alternativa reduz indevidamente a tese do texto. O autor não afirma que a vida seja "essencialmente e sobretudo" triste; ele afirma que não existe felicidade pura e que a experiência humana é mesclada. Isso aparece tanto no trecho final, que aproxima momentos felizes e infelizes, quanto na passagem: "porque aquilo que chamamos felicidade também é feito da infelicidade em sua infinita riqueza". Portanto, há extrapolação e mudança de sentido.
C
Errada
A alternativa confunde exemplo argumentativo com tese defendida. As fórmulas dos contos infantis são analisadas para sustentar a discussão sobre a ilusão do "final feliz", mas o texto não propõe, como conclusão, a necessidade de reescrevê-las. Não há defesa prescritiva de reformulação; há uso dessas fórmulas como apoio à argumentação central.
D
Errada
A alternativa literaliza uma interpretação que o texto apresenta em chave conceitual. Ao dizer que a fórmula clássica "equivale a um 'não viveram mais nada até que morreram'", o autor interpreta criticamente o efeito de sentido de "e viveram felizes para sempre"; ele não sustenta literalmente que os personagens morrem assim que a narrativa termina. O erro está em transformar leitura interpretativa em afirmação factual do texto.
E
Errada
A alternativa contradiz diretamente o texto. O autor afirma: "desde o surgimento do romance moderno, nossa curiosidade tem recaído exatamente sobre essa vida comum". Logo, não há "desestruturação" nem perda de significância do romance moderno por narrar o cotidiano; ao contrário, o texto apresenta esse foco como objeto de interesse narrativo.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de o leitor tomar elementos secundários — fórmulas dos contos infantis, referência à morte ou menção ao romance moderno — como se fossem a tese principal, quando a resposta está no parágrafo final, que sintetiza a defesa da vida como continuidade e mistura de afetos.
Dica para questões semelhantes
  • Em questão sobre tese do autor, priorize o parágrafo de fechamento, onde a argumentação costuma ser sintetizada de forma mais direta.
  • Elimine alternativas que transformam exemplo de apoio em conclusão central do texto.
  • Desconfie de opções que radicalizam o sentido, como "essencialmente", "sobretudo" ou leituras literais de passagens interpretativas.
  • Procure a alternativa que faça paráfrase fiel da ideia explícita do texto, sem reduzir nem acrescentar conteúdo.

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