Por perceber na mineralização (da personagem) um processo de...
Aristarco depois do primeiro receio esquecia-se na delícia de uma metamorfose. Venâncio era o seu escultor.
A estátua não era mais uma aspiração: batiam-na ali. Ele sentia metalizar-se a carne à medida que o Venâncio falava. Compreendia inversamente o prazer de transmutação da matéria bruta que a alma artística penetra e anima: congelava-lhe os membros uma frialdade de ferro; à epiderme, nas mãos, na face, via, adivinhava reflexos desconhecidos de polimento. Consolidavam-se as dobras das roupas em modelagem resistente e fixa. Sentia-se estranhamente maciço por dentro, como se houvera bebido gesso. Parava-lhe o sangue nas artérias comprimidas. Perdia a sensação da roupa; empedernia-se, mineralizava-se todo. Não era um ser humano: era um corpo inorgânico, rochedo inerte, bloco metálico, escória de fundição, forma de bronze, vivendo a vida exterior das esculturas, sem consciência, sem individualidade, morto sobre a cadeira, oh, glória! Mas feito estátua.
“Coroemo-lo!” bradou de súbito Venâncio.
Gabarito comentado
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Tema central da questão: Trata-se de interpretação de texto literário com ênfase em conceitos semânticos, especialmente o processo de reificação (ou coisificação), que consiste em transformar um ser humano em objeto ou coisa inanimada. Para acertar, o candidato deve identificar qual personagem, entre as alternativas, recusa explicitamente ser reduzido a coisa/mineral, conforme exemplificado no texto analisado.
Análise da alternativa correta (D): Macunaíma, de "Macunaíma".
O personagem Macunaíma, do modernista Mário de Andrade, é célebre por sua natureza mutável, esquiva e avessa a qualquer fixação identitária. Ele rejeita ser reduzido a algo estático, mecânico ou inanimado. Esse comportamento simboliza a recusa à reificação. Enquanto as demais personagens se adaptam, coisificam-se ou se submetem às forças sociais, Macunaíma preserva sua essência caótica, fugidia e vital até o fim. No texto, é mencionado que “recusa-se expressamente a converter-se em mineral”, o que remete claramente à postura desse personagem.
Como interpretar o texto e chegar à resposta? O comando pede atenção ao processo de mineralização/reificação e à recusa consciente dessa transformação. Assim, a estratégia é:
- Identificar quem, na literatura brasileira, simboliza a resistência a se tornar coisa.
- Analisar as características dos protagonistas citados nas alternativas.
- Distinguir entre personagens que vivenciam ou aceitam a coisificação (incorretas) e quem expressa rejeição ativa a esse processo (correta).
Análise das alternativas incorretas:
A) Leonardo (pai) - Não há temática central de recusa à coisificação.
B) João Romão - Personagem que materializa o desejo de ascensão social, mas que gradualmente se embrutece e coisifica.
C) Rubião - Em “Quincas Borba”, Rubião sucumbe à alienação, mas nunca se insurge contra ela.
E) Olímpico - Também busca ascensão; não se observa resistência consciente à redução à condição de objeto.
Referência normativa: Segundo Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”), a compreensão de sentido no texto deve observar explícitos e implícitos. Celso Cunha reforça: “A análise interpretativa exige correlacionar elementos do texto com conceitos culturais e literários pertinentes”.
Gabarito: D) Macunaíma, de "Macunaíma."
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