No excerto, diz o narrador que Aristarco “mineralizava-se to...
Aristarco depois do primeiro receio esquecia-se na delícia de uma metamorfose. Venâncio era o seu escultor.
A estátua não era mais uma aspiração: batiam-na ali. Ele sentia metalizar-se a carne à medida que o Venâncio falava. Compreendia inversamente o prazer de transmutação da matéria bruta que a alma artística penetra e anima: congelava-lhe os membros uma frialdade de ferro; à epiderme, nas mãos, na face, via, adivinhava reflexos desconhecidos de polimento. Consolidavam-se as dobras das roupas em modelagem resistente e fixa. Sentia-se estranhamente maciço por dentro, como se houvera bebido gesso. Parava-lhe o sangue nas artérias comprimidas. Perdia a sensação da roupa; empedernia-se, mineralizava-se todo. Não era um ser humano: era um corpo inorgânico, rochedo inerte, bloco metálico, escória de fundição, forma de bronze, vivendo a vida exterior das esculturas, sem consciência, sem individualidade, morto sobre a cadeira, oh, glória! Mas feito estátua.
“Coroemo-lo!” bradou de súbito Venâncio.
Gabarito comentado
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Tema central: Interpretação de texto e análise de metáfora no contexto literário, identificando processos simbólicos de "mineralização" associados à construção de personagens femininas em obras da literatura brasileira.
O comando pergunta em qual romance a “mineralização” é também marcante, focando a protagonista feminina. Para responder, é necessário reconhecer a metáfora — conceito da figura de linguagem que, conforme Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), consiste em atribuir uma qualidade de um elemento a outro, sem expressão comparativa explícita.
Justificativa da alternativa correta (A – Senhora, de José de Alencar):
Em Senhora, Aurélia Camargo simboliza, ao longo do romance, um processo de endurecimento emocional: após decepções amorosas, age com frieza, distanciando-se do sentimentalismo e assumindo postura calculista, metaforicamente “mineralizada”. Isso significa que sua humanidade, afetos e emoções são substituídos pela “rigidez” e “dureza” de alguém que se blinda de sentimentos para enfrentar suas dores. A análise da metáfora é essencial para chegar à resposta, revelando como o texto literário utiliza processos simbólicos para caracterizar psicologicamente a personagem.
Eliminação das alternativas incorretas:
- B) Quincas Borba: o enredo explora o Humanitismo e a trajetória de Rubião; não trata de “mineralização” feminina.
- C) O cortiço: embora haja personagens femininas fortes, como Rita Baiana, a metáfora da “mineralização” não é central à obra.
- D) Macunaíma: trata da busca da identidade nacional, centrando-se em personagem masculina e elementos míticos, sem tal processo simbólico.
- E) São Bernardo: apesar do sofrimento de Madalena, não há ênfase na transformação em elemento “mineral”.
Estratégia para questões similares: procure ler atentamente metáforas e imagens presentes nos enunciados, relacionando-as ao enredo e à construção dos personagens. Isso evita pegadinhas que exploram generalizações sem análise do conteúdo literário.
Resumo da regra: Identificar metáforas (figura de linguagem: relação de semelhança implícita) e analisar o contexto permite a interpretação correta e o reconhecimento da alternativa alinhada à proposta do enunciado.
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