Leia o trecho do conto “A caligrafia de Deus”, de Márcio Sou...

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Q4152391 Literatura

Leia o trecho do conto “A caligrafia de Deus”, de Márcio Souza.



    Na loucura da Zona Franca, o povo era tão afável na sua ironia que chamava aquilo de bairro. Em dez anos, aquelas colinas suaves cortadas por um igarapé viram desaparecer os buritizais e a mata quase cerrada, as chácaras e os banhos, para dar lugar a um conjunto habitacional do BNH e às adesões provocadas pela iniciativa particular dos ribeirinhos que chegavam com a anual subida das águas. O conjunto habitacional nunca ficaria pronto, e era um inferno de calor e poeira ao meio-dia, uma geladeira tropical de umidade e bruma durante a noite. Nada mais restava da antiga mata e o deserto estendia-se pelo lado das casas dos ribeirinhos. Nos meses de chuva formava-se um atoleiro que era um verdadeiro nirvana para os porcos; nos meses sem chuva, uma paisagem marcada com todo o charme de um barro avermelhado que empoava as crianças e as galinhas.


(Márcio Souza. A caligrafia de Deus, 2007.)



O ambiente apresentado, em que vive o “povo” referido no início do trecho, colabora no conto para estabelecer

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o efeito de sentido produzido pela ambientação: a descrição do espaço é disfórica e irônica, com marcas de deterioração e fracasso urbano em trechos como “O conjunto habitacional nunca ficaria pronto” e “era um inferno de calor e poeira ao meio-dia”. A isso se somam “Nada mais restava da antiga mata” e “Nos meses de chuva formava-se um atoleiro”, que indicam precariedade e destruição; por isso, o ambiente sustenta a crítica aberta ao processo de modernização de Manaus, conforme a alternativa C.

Tema central: crítica à modernização
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por extrapolação temática. O trecho não trata de “povos originários”, mas menciona “ribeirinhos” e o “povo” do local. Também não há defesa de integração ao espaço urbano; o foco está na descrição crítica de um ambiente degradado.
B
Errada
A alternativa contraria o sentido do texto. Não há defesa dos benefícios da modernização, porque a ambientação é construída com marcas de fracasso e precariedade: desaparecimento da mata, conjunto habitacional inacabado, calor, poeira, umidade, atoleiro e barro.
C
Certa
A alternativa C está correta porque a descrição do ambiente não é neutra nem elogiosa: ela associa a transformação urbana à perda da mata, à obra inacabada e a condições hostis de vida. Expressões como “nunca ficaria pronto”, “inferno de calor e poeira”, “deserto” e “atoleiro” constroem uma avaliação negativa do espaço produzido pela modernização. Além disso, a ironia presente no trecho reforça esse julgamento crítico.
D
Errada
A alternativa introduz uma ideia que o trecho não apresenta: diminuição do ritmo de crescimento da cidade. O texto fala em transformação intensa “Em dez anos” e critica seus efeitos, não uma desaceleração. Também não se organiza como lamento saudosista, mas como crítica ao resultado da modernização.
E
Errada
A alternativa é incompatível com a literalidade do trecho. A natureza não aparece idealizada como eixo da passagem; ela é mostrada como destruída: “viram desaparecer os buritizais e a mata quase cerrada” e “Nada mais restava da antiga mata”. A referência ao espaço anterior serve de contraste com a degradação posterior.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre descrição de ambiente e descrição neutra: quem ignora a ironia e o vocabulário negativo pode ler “Zona Franca” e “conjunto habitacional” como sinais de progresso, quando o texto os apresenta de modo criticamente degradado.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se a descrição do espaço usa vocabulário avaliativo; aqui, as escolhas lexicais já indicam julgamento negativo.
  • Quando houver ironia, não leia palavras como “bairro”, “nirvana” e “charme” em sentido elogioso automático; observe o contexto em que aparecem.
  • Diferencie o que o texto efetivamente diz do que a alternativa projeta como tema externo, como ocorreu com “povos originários”.

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