Mas, ao apresentar espetacularmente a superação, terminam p...

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Ano: 2010 Banca: VUNESP Órgão: UNESP Prova: VUNESP - 2010 - UNESP - Vestibular - Segundo Semestre |
Q534986 Português

Instrução: A  questão  toma  por base uma passagem do livro Palhaços, do docente e pesquisador da UNESP Mario Fernando Bolognesi:


      [...] O circo é a exposição do corpo humano em seus limites biológico e social. O espetáculo fundamenta-se na relação do homem com a natureza, expondo a dominação e a superação humanas. O adestramento de feras é demonstração do controle do homem sobre o mundo natural, confirmando, assim, a sua superioridade sobre as demais espécies animais. Acrobacias, malabarismos, equilibrismos e ilusionismos diversos deixam evidente a capacidade humana de superação de seus próprios limites. Mas, ao apresentar espetacularmente a superação, terminam por confirmar a contingência natural da existência, expressa na sublimidade do corpo altivo, distante do cotidiano.

      Os riscos dos artistas circenses são reais, dentro do contexto espetaculoso de cada função. No espetáculo, os artistas não apresentam “interioridades”; eles são puro corpo exteriorizado, sublime ou grotesco, que se realiza e se extingue na dimensão mesma do seu gesto. Eles não são atores a interpretar um “outro”, uma realidade externa e distante. O espetáculo, assim, se aproxima de um ritual que se repete e que evidencia a possibilidade concreta de fracasso. A emoção da plateia então oscila entre uma possível frustração diante do malogro do acrobata e a sugestão de superação de limites presente a cada número. Um trapezista pode cair, como acontece vez ou outra. Por isso o público não afasta o olhar das evoluções aéreas. Estabelece-se, assim, uma relação ritualística que encontra eco, em última instância, nas estruturas coletivas de sobrevivência e necessidade de transposição dos percalços do cotidiano. Se o artista falha, ele é aplaudido porque ao menos tentou. Ele ousou, e isso já é o bastante para impulsionar a fantasia coletiva da superação.

      Os números cômicos, por sua vez, ao explorar os estereótipos e situações extremas, evidenciam os limites psicológicos e sociais do existir. Eles trabalham, no plano simbólico, com tipos que não deixam de ser máscaras sociais biologicamente determinadas (os palhaços são desajeitados, lerdos, fisicamente deformados, estúpidos etc.). Esses limites se revelam com o riso espontâneo que escancara as estreitas fronteiras do social. Quando os palhaços entram no picadeiro, o olhar espetaculoso se desloca objetivamente para a realidade diária da plateia.

      [...]

   [...] O movimento de superação da natureza e a possibilidade (quando não a capacidade) de subjugar as limitações biológicas e de criticar as máscaras sociais garantem a legitimidade do exercício do sonho. Está aberto, no espetáculo de circo, o terreno da utopia.


                    (Mario Fernando Bolognesi. Palhaços. São Paulo: Editora da Unesp, 2003.)

Mas, ao apresentar espetacularmente a superação, terminam por confirmar a contingência natural da existência, expressa na sublimidade do corpo altivo, distante do cotidiano.


Examine as quatro afirmações seguintes:


I. Os feitos dos artistas circenses superam a limitação física do homem.


II. Os artistas do circo são homens comuns e fazem o mesmo que os homens comuns.


III. A superação das limitações físicas pelos artistas circenses acaba comprovando essas mesmas limitações nas pessoas comuns.


IV. O homem comum se sente humilhado ante os feitos espetaculares dos artistas circenses.


Marque a alternativa que aponta todas as afirmações coincidentes com a opinião manifestada pelo autor no trecho mencionado:

Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a inferência semântica do trecho “Mas, ao apresentar espetacularmente a superação, terminam por confirmar a contingência natural da existência, expressa na sublimidade do corpo altivo, distante do cotidiano.”: a conjunção adversativa e o verbo “confirmar” mostram que a exibição da superação não elimina a limitação humana, mas a reafirma; por isso, coincidem com o texto as afirmações I e III, e não II e IV.

Tema central: superação e limitação humana
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por incluir II. O texto não equipara os artistas circenses a homens comuns que fazem o mesmo que os homens comuns. Ao contrário, caracteriza essa exibição como “expressa na sublimidade do corpo altivo, distante do cotidiano”, o que marca excepcionalidade, não equivalência com a vida ordinária.
B
Certa
A alternativa B é a correta porque reúne exatamente as duas afirmações autorizadas pelo texto. A I se sustenta em “Acrobacias, malabarismos, equilibrismos e ilusionismos diversos deixam evidente a capacidade humana de superação de seus próprios limites.” Já a III decorre do núcleo paradoxal do trecho destacado: ao exibir essa superação de modo espetacular, o circo “termina por confirmar a contingência natural da existência”. Portanto, o texto não opõe superação e limitação como ideias excludentes; ele afirma as duas simultaneamente.
C
Errada
A alternativa erra por incluir IV. O texto não menciona humilhação do homem comum diante dos artistas. O efeito sobre a plateia é outro: emoção, risco, fantasia coletiva da superação e até aplauso ao fracasso tentado, como em “Se o artista falha, ele é aplaudido porque ao menos tentou.” Atribuir humilhação ao público é extrapolação sem apoio textual.
D
Errada
A alternativa é incompatível com o texto porque soma I, que está correta, a II e IV, que não estão. II é refutada pela ideia de corpo “distante do cotidiano”; IV é refutada pela ausência de qualquer marca de humilhação e pela presença de termos ligados a emoção, ousadia e fantasia coletiva da superação.
E
Errada
A alternativa erra por excluir I e incluir II e IV. Exclui indevidamente uma afirmação expressamente sustentada pelo trecho sobre “capacidade humana de superação de seus próprios limites” e acrescenta duas leituras não autorizadas: a equiparação entre artista e homem comum e a suposta humilhação da plateia.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre dois movimentos simultâneos do texto: mostrar a superação dos limites e, ao mesmo tempo, reafirmar que esses limites existem. Quem lê “confirmar a contingência natural da existência” como negação da superação erra; quem troca “distante do cotidiano” por aproximação ao homem comum também erra.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o texto articula ideias com “Mas”, verifique se há oposição simples ou paradoxo: aqui, a superação não anula a limitação; ela a evidencia.
  • Separe o que o texto afirma explicitamente do que seria reação possível do leitor: humilhação da plateia não foi dita.
  • Expressões como “distante do cotidiano” impedem equivalências apressadas entre o espetáculo e a vida comum.

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