Leia a matéria a seguir para responder à questão.
Proletários de plataforma
Como a indústria de inteligência artificial lucra criando uma nova classe trabalhadora sem direitos no Brasil
A baiana Lílian largou um emprego CLT no ano passado. Por causa da filha pequena, trabalhar fora de casa era um
pesadelo. Foi em um vídeo no TikTok que ficou sabendo da possibilidade de trabalhar online treinando inteligência artificial.
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Hoje, trabalha em horários flexíveis, seis dias por semana, para “melhorar a inteligência artificial com dados”, como
propagandeia a Appen. No fim do mês, se tudo der certo, tira R$ 1.400, sem nenhum outro benefício. Lílian faz parte de uma
classe de trabalhadores muitas vezes definidos como fantasmas, escondidos ou microtrabalhadores. Por meio de plataformas
multinacionais como Tellus, OneForma e a própria Appen, grandes empresas de tecnologia contratam mão de obra barata,
em larga escala e em diversos países, para executar pequenas tarefas.
Na outra ponta da cadeia, gigantes como Meta, Google e TikTok lucram com a facilidade de comprar bases de dados já
preparadas por trabalhadores que custam infinitamente menos do que os profissionais do mercado de tecnologia. As big tech
também se beneficiam de uma cadeia que opera à margem da lei, opaca e blindada por contratos de confidencialidade, em
que as pessoas sequer sabem para quem ou para quê estão trabalhando. Além dos salários baixos, esses trabalhadores
terceirizados não recebem treinamento e trabalham com prazos apertados. Há inúmeros relatos de calotes, contratos
rompidos unilateralmente sem explicação e desassistência das plataformas.
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Os sistemas de aprendizado de máquina são um tipo de inteligência artificial, um conjunto de algoritmos que, a partir de
determinado input – dados ou informações disponíveis – gera um output, ou seja, o resultado desejado. Isso pode ser feito
com uma árvore de decisão, por exemplo. Mas, no caso da IA generativa, o próprio sistema aprende a decidir sozinho, no
chamado ‘deep learning’, ou aprendizado profundo. O programador não cria a regra – só mostra o resultado desejado.
Os dados produzidos por essa legião de trabalhadores são a matéria prima e o refinamento dessa automatização. É a partir
deles que os sistemas de computação ditos inteligentes aprendem os padrões que vão imitar depois.
Sem uma montanha de conteúdo produzido por veículos de comunicação e pessoas reais, o ChatGPT seria incapaz de
oferecer respostas qualificadas. Sem pessoas reais interpretando erros de digitação em resultados de busca, o Google não
adivinharia o que você realmente quis dizer com aquela palavra que escreveu errado. Sem trabalhadores interpretando fotos
para treinar algoritmos de visão computacional, câmeras inteligentes não conseguiriam identificar objetos em uma imagem.
Para executar o enorme número de tarefas humanas necessárias para o desenvolvimento de sistemas de IA, é preciso
contratar também milhões de trabalhadores. O jeito mais barato que a indústria encontrou para fazer isso foi por meio de
multinacionais intermediárias.
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DIAS, Tatiana; SCHURIG, Sofia. Proletários de plataforma: como a indústria de inteligência artificial lucra criando uma nova classe trabalhadora sem direitos no Brasil. 2024.
Disponível em: https://www.intercept.com.br/2024/07/22/inteligencia-artificial-classe-trabalhadora-sem-direitos-no-brasil/. Acesso em: 24 mar. 2025.