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Ano: 2025 Banca: UEG Órgão: UEG Prova: UEG - 2025 - UEG - Vestibular (2º Semestre 2025) |
Q3510621 Sociologia
Leia a matéria a seguir para responder à questão.


Proletários de plataforma
Como a indústria de inteligência artificial lucra criando uma nova classe trabalhadora sem direitos no Brasil


A baiana Lílian largou um emprego CLT no ano passado. Por causa da filha pequena, trabalhar fora de casa era um pesadelo. Foi em um vídeo no TikTok que ficou sabendo da possibilidade de trabalhar online treinando inteligência artificial.
[...]

Hoje, trabalha em horários flexíveis, seis dias por semana, para “melhorar a inteligência artificial com dados”, como propagandeia a Appen. No fim do mês, se tudo der certo, tira R$ 1.400, sem nenhum outro benefício. Lílian faz parte de uma classe de trabalhadores muitas vezes definidos como fantasmas, escondidos ou microtrabalhadores. Por meio de plataformas multinacionais como Tellus, OneForma e a própria Appen, grandes empresas de tecnologia contratam mão de obra barata, em larga escala e em diversos países, para executar pequenas tarefas.

Na outra ponta da cadeia, gigantes como Meta, Google e TikTok lucram com a facilidade de comprar bases de dados já preparadas por trabalhadores que custam infinitamente menos do que os profissionais do mercado de tecnologia. As big tech também se beneficiam de uma cadeia que opera à margem da lei, opaca e blindada por contratos de confidencialidade, em que as pessoas sequer sabem para quem ou para quê estão trabalhando. Além dos salários baixos, esses trabalhadores terceirizados não recebem treinamento e trabalham com prazos apertados. Há inúmeros relatos de calotes, contratos rompidos unilateralmente sem explicação e desassistência das plataformas.
[...]

Os sistemas de aprendizado de máquina são um tipo de inteligência artificial, um conjunto de algoritmos que, a partir de determinado input – dados ou informações disponíveis – gera um output, ou seja, o resultado desejado. Isso pode ser feito com uma árvore de decisão, por exemplo. Mas, no caso da IA generativa, o próprio sistema aprende a decidir sozinho, no chamado ‘deep learning’, ou aprendizado profundo. O programador não cria a regra – só mostra o resultado desejado.

Os dados produzidos por essa legião de trabalhadores são a matéria prima e o refinamento dessa automatização. É a partir deles que os sistemas de computação ditos inteligentes aprendem os padrões que vão imitar depois.

Sem uma montanha de conteúdo produzido por veículos de comunicação e pessoas reais, o ChatGPT seria incapaz de oferecer respostas qualificadas. Sem pessoas reais interpretando erros de digitação em resultados de busca, o Google não adivinharia o que você realmente quis dizer com aquela palavra que escreveu errado. Sem trabalhadores interpretando fotos para treinar algoritmos de visão computacional, câmeras inteligentes não conseguiriam identificar objetos em uma imagem.

Para executar o enorme número de tarefas humanas necessárias para o desenvolvimento de sistemas de IA, é preciso contratar também milhões de trabalhadores. O jeito mais barato que a indústria encontrou para fazer isso foi por meio de multinacionais intermediárias.
[...]

DIAS, Tatiana; SCHURIG, Sofia. Proletários de plataforma: como a indústria de inteligência artificial lucra criando uma nova classe trabalhadora sem direitos no Brasil. 2024. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2024/07/22/inteligencia-artificial-classe-trabalhadora-sem-direitos-no-brasil/. Acesso em: 24 mar. 2025.
Levando em consideração o fenômeno da reestruturação produtiva e o conceito sociológico de trabalho alienado, o trabalho descrito na matéria expressa
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Alternativa correta: E

1. Tema central
A questão articula reestruturação produtiva do capitalismo contemporâneo com o conceito de trabalho alienado. Precisa identificar como práticas como plataformas digitais, terceirização massiva e precarização se relacionam com perda de direitos, controle remoto e desvalorização do trabalho.

2. Resumo teórico
- Reestruturação produtiva: mudanças nas formas de organização do trabalho após a crise do modelo fordista — flexibilização, terceirização, deslocalização, trabalho por plataformas, fragmentação das tarefas e busca por redução de custos e maior competição global (Castells; Harvey).
- Trabalho alienado (Marx): perda de controle do trabalhador sobre o processo, produto e condições de trabalho; o trabalho torna-se mera mercadoria, sem reconhecimento nem autonomia (Marx, Manuscritos Econômico-Filosóficos, 1844).

3. Justificativa da alternativa E
A alternativa E descreve exatamente o fenômeno: a reestruturação produtiva contemporânea promove aprofundamento da alienação — redução de direitos (precarização), uso de intermediárias/plataformas, contratos instáveis e subcontratações. O texto apresenta trabalhadores “sem direitos”, sem benefícios, isolados e performando microtarefas para treinar IA — condição típica da precarização e perda de vínculo clássico de trabalho.

4. Por que as outras alternativas estão erradas
A — Taylorismo: trata de racionalização e controle por tempos e movimentos na fábrica; embora haja controle e busca de produtividade, o enunciado enfatiza terceirização, plataformas e ausência de vínculo/benefícios, não o modelo taylorista clássico. B — Fordismo: caracteriza produção em massa com emprego estável, horários fixos e certo patamar salarial; o caso descreve trabalho flexível, informal e sem garantias — oposto do fordismo. C — Superação da alienação: incorreto — o texto mostra aumento da alienação (trabalhadores alienados das condições, sem controle e sem reconhecimento), não sua superação. D — Trabalho "livre" do início do capitalismo: fala da liberdade formal do proletariado (sem posse dos meios) — é conceito histórico, mas não capta a nova forma de precarização e reestruturação produtiva descrita.

5. Estratégia para resolver questões assim
Procure palavras-chave: “redução de direitos”, “subcontratações”, “plataformas”, “flexibilidade” → remete a reestruturação e precarização. Se o enunciado aponta perda de benefícios e vínculo, descarte conceitos de fordismo/taylorismo clássicos que pressupõem emprego mais estável ou controle industrial direto.

Fontes úteis: Marx (Manuscritos de 1844) para alienação; estudos sobre reestruturação produtiva e economia política contemporânea; Lei nº 13.467/2017 (Reforma Trabalhista) como referência sobre flexibilização/terceirização no Brasil.

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