COMO O AQUECIMENTO GLOBAL PODE
DEIXAR CICLONES MAIS INTENSOS
Um ciclone extratropical causou estragos em
São Paulo e região metropolitana no dia 9 de
dezembro de 2025. O fenômeno, associado a uma
frente fria, derrubou mais de 330 árvores, sendo que
muitas caíram sobre a rede elétrica, deixando mais de
2,2 milhões de pessoas sem energia.
Os ventos acima de 90 km/h fizeram com que
cerca de 200 voos fossem afetados em São Paulo,
consequentemente causando transtornos também em
outros aeroportos do país. A falta de eletricidade
também prejudicou o funcionamento de semáforos e
o abastecimento de água.
Em novembro do mesmo ano, o nascimento
de um ciclone extratropical no Rio Grande do Sul
causou um tornado no Paraná que destruiu 80% da
cidade de Rio Bonito do Iguaçu, matando seis pessoas
e ferindo 750, segundo a Defesa Civil do Estado. Em
julho de 2023, um outro ciclone no Rio Grande do Sul
provocou estragos em 52 cidades e uma morte na
cidade de Rio Grande. O fenômeno provocou ventos
de mais de 140 km/h e também atingiu o estado de
São Paulo, onde duas mortes foram associadas ao
ciclone.
O ciclone extratropical é uma área de menor
pressão atmosférica do que o ambiente do entorno,
em que os ventos giram ao redor de um centro, no
sentido horário. Esses sistemas afetam o tempo das
regiões onde atuam provocando nuvens, chuva,
redução da temperatura do ar e ventos fortes.
Embora seja um fenômeno meteorológico
comum na região Sul, o aumento da temperatura do
ar e do oceano em consequência das mudanças
climáticas pode deixar os ciclones extratropicais mais
intensos, afirmam especialistas.
Os ciclones extratropicais são sistemas de
baixa pressão atmosférica, em geral vinculados a
frentes frias. Eles provocam um contraste muito
grande de temperatura, umidade, chuva em seu
entorno. Além disso, ventos muito intensos são
gerados na direção dele, explica Tércio Ambrizzi,
professor de Ciências Atmosféricas na Universidade
de São Paulo.
Na América do Sul, um mapeamento das
áreas mais ciclogenéticas – como os especialistas
definem as áreas mais propensas ao fenômeno –
aponta duas regiões principais. Uma fica no extremo
sul, na costa da Patagônia. A outra é a região da bacia
do Prata, ou seja, o sul do Brasil, Uruguai e nordeste
da Argentina, explica Marcelo Seluchi,
meteorologista e coordenador-geral de Operação e
Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e
Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
A área sobre a Patagônia registra uma
frequência maior de formação de ciclones
extratropicais durante o verão. Já na região ao sul do
Brasil, o fenômeno ocorre durante os meses de
inverno e primavera. “Existe também uma terceira
região de formação de ciclone, que é perto da costa de
São Paulo e Rio de Janeiro, mas é muito raro a
formação sobre o continente”, diz Seluchi.
Um estudo feito por Tércio Ambrizzi há
alguns anos mostrou que os ciclones não sofreram
aumento em termos numéricos, mas em intensidade.
“Em princípio, há relação com as mudanças
climáticas. Com a atmosfera acumulando muito mais
energia em função do aquecimento que o planeta está
sofrendo por conta da emissão de gases de efeito
estufa, os sistemas se tornam mais intensos”, diz.
O impacto sobre a vida das pessoas depende
da região onde o fenômeno se desenvolve. “Em junho
de 2022, houve um ciclone extratropical muito
intenso que se desenvolveu no oceano. O fenômeno
se desenvolveu em função de um outro sistema, que
foram vórtices ciclônicos de altos níveis. Naquele
junho, ele se propagou na região do Atlântico. Em
julho de 2023, ele se desenvolveu exatamente em
cima do Rio Grande do Sul, por isso causou tanta
chuva. A intensidade das chuvas e dos ventos causam
muitos danos e colocam vidas em risco”, afirma
Ambrizzi.
Marcelo Seluchi destaca que, antigamente,
detectar ciclones sobre os oceanos era muito difícil.
“Não existiam dados observados, não havia boas
imagens de satélite, então muito provavelmente
houve muitos ciclones que não foram detectados no
passado, que não fazem parte da série histórica”,
detalha o meteorologista, pontuando que a série
histórica mais confiável que registra o fenômeno
reúne informações dos últimos 25 anos.
Seluchi afirma que ainda não existem estudos
muito claros sobre como as mudanças climáticas podem afetar a frequência e a intensidade dos
ciclones extratropicais. As projeções feitas com base
em modelos indicam que alguns ciclones tenderiam a
se formar um pouco mais para o sul num cenário de
aquecimento global.
“Há um fato que pode influenciar a
intensidade dos ciclones, que é justamente o
aquecimento da atmosfera e do oceano. Um oceano
mais quente consegue evaporar mais água. Uma
atmosfera mais quente, por conta do aumento da
temperatura, retém mais umidade, que é um elemento
muito importante para determinar a intensidade dos
ciclones”, explica Seluchi.
Isso ajuda a explicar o fato de a costa leste da
América do Sul, a bacia do Prata e o sul do Brasil
serem regiões de maior frequência de ciclones
extratropicais, argumenta o meteorologista. A costa
do lado do Oceano Pacífico, na área do Chile, não
registra muito o fenômeno, pois é uma área que tem
baixa umidade, diz Seluchi.
Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/como-oaquecimento-global-pode-deixar-ciclones-mais-intensos/a66236577>. Adaptado. Acesso em: 23 de fevereiro de 2026.