A ALMA DO JOGO
Talvez nessas próximas semanas de festas, um
amigo ou familiar proponha um jogo como diversão.
Outro pode lembrar que, em um congresso recente,
neurologistas provaram que jogos de tabuleiro são
bons para a saúde mental. Eu digo simplesmente
que, para mim, em qualquer época do ano, um jogo
é muito mais que uma brincadeira. É uma paixão na
qual não estou sozinha. Desde políticos até homens
de negócios bem-sucedidos, muitos são os que se
sentam em torno de uma mesa, com toalha de feltro
ou um tabuleiro, não como um passatempo, mas
para um exercício mental.
Não é gratuito que haja tantas associações entre os
avanços no jogo e os progressos — e, é preciso
dizer, também os reveses — da vida. Podemos
apostar todas as fichas em uma ideia ou em uma
pessoa. Ou, com franqueza, colocar nossas cartas
na mesa. Entrar num jogo para ganhar, com garra
total. Ou jogar com os números, figuras e naipes
que a vida nos deu, o que não denota resignação,
mas inteligência. Reviravoltas, estresse, alegria,
tudo pode acontecer. Às vezes nos recolhemos e
damos a impressão de estar perdendo energia. Mas
estamos só à espera do momento propício para,
como diz outra expressão muito usual, voltar ao
jogo.
De toda a gama de jogos, meus prediletos são os
de cartas. Em livros, muitas vezes elas se associam
à agudeza de pensamento, e não é à toa.
Advogados e produtores de cinema criados por
Sidney Sheldon jogam gin rummy, que lembra o
buraco e adoramos aqui em casa; damas da
sociedade de romances ingleses, como os de Jane
Austen, jogam whist — que aliás é um desses que
evoluíram ao longo de séculos, mas não
desapareceram, comprovando sua atemporalidade.
Criado há 500 anos, ele é o antepassado do bridge,
que o suplantou no começo do século XX e que eu
tanto aprecio. É um gosto que vem não só do fato
de o ter aprendido na adolescência, mas
principalmente pelo que ele exige de raciocínio.
Nele, cada tomada de decisão depende de muita
lógica e dedução, da capacidade de excluir as
hipóteses menos plausíveis. O investidor Warren
Buffett é um fã e não duvido que ele entenda, como
eu, que o bridge ensina para a vida e os negócios.
Ele nos obriga a avaliar situações e antecipar cada
lance. Caso também do xadrez, outro favorito do
meu marido. Quando se fala em xadrez político, não se trata de uma tentativa de diminuição dos
grandes fatos do mundo, mas de dar a dimensão de
complexidade que há no embate entre peças
brancas e pretas.
No bridge, no xadrez e em outros jogos de
estratégia — assim como na política e nos negócios
— há que se levar em conta também as atitudes do
adversário para se antecipar. Quem viu a série O
Gambito da Rainha sabe quanto uma partida
dessas pode cobrar em termos psicológicos. Esse é
outro aspecto fascinante das mesas de jogo. Nelas
se desenrola o desnudamento de personalidades.
Muitas vezes, um colega calado vai demonstrar
sanha ou agudezas que você não imagina no
cotidiano.
Torneios de jogos de raciocínio podem levar dias —
não é exagero dizer que exigem que se esteja em
forma. Adequadamente, o bridge e o xadrez, além
das damas, do pôquer e do go, são reconhecidos
como atividades esportivas.
Por fim, um lembrete. O jogo tem alma. Se
fechamos os olhos para suas regras a fim de ajudar
alguém, ou se não nos dedicarmos com afinco, ele
se volta contra nós. Como a vida, ele é coisa séria.
Lucilia Diniz-Veja-15 de dezembro de 2023