Questões de Concurso Comentadas para intérprete de libras

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Q3899187 Português
No trecho a seguir, considerando a predominância do modo de construção do discurso e das vozes enunciativas:

“Maria pensou consigo mesma que talvez fosse melhor desistir, mas a voz da mãe ecoava em sua mente dizendo que os fracos não vencem.”

Esse fragmento caracteriza-se por:
Alternativas
Q3899186 Português
Texto 01

Brasileiros na Finlândia desabafam sobre viver no país mais feliz do mundo: enfrentam solidão, desemprego, invernos escuros, frios, depressão e pensam até em voltar para casa mesmo com toda segurança, dinheiro e benefícios sociais garantidos

Há oito anos seguidos, a Finlândia ocupa o topo do ranking da ONU que mede a felicidade, combinando distribuição de renda, seguridade social, confiança nas instituições e serviços públicos robustos. Para muitos brasileiros na Finlândia, no entanto, o país mais feliz do mundo é também cenário de silêncio intenso, relações sociais raras, invernos longos e escuros e um tipo de solidão que se instala mesmo quando a conta bancária e a segurança parecem sob controle.

Desde 2022, por exemplo, Aim tenta se adaptar à vida em Tampere, no centro do país, enquanto enfrenta a falta de luz de novembro, o desemprego e a dependência de auxílios do Estado. Outros brasileiros na Finlândia, como Maria em Helsinque e Gabriela, que decidiu voltar ao Brasil após quatro anos e meio, relatam que a estabilidade material não impediu a chegada da tristeza, da depressão e da vontade de ir embora.

A narrativa oficial fala de um país com segurança, igualdade, saúde pública universal, educação gratuita e uma rede de proteção social forte, capaz de garantir uma vida simples, porém digna, em contato permanente com a natureza.

Os índices de felicidade medem essa satisfação média, baseada menos na euforia e mais na estabilidade emocional e social.

Para muitos brasileiros na Finlândia, contudo, essa base segura convive com um cotidiano de paisagens cinzentas, poucas pessoas na rua, silêncio quase absoluto e uma vida social contida, distante da sociabilidade ruidosa e espontânea do Brasil. O artista Rafael traduz esse contraste em telas de cores discretas, onde predominam branco, cinza e um pouco de azul, ao associar a beleza da natureza local à presença constante da solidão e da saudade de outras terras. A experiência do professor Babel, que chegou em 2016 com a família e se tornou referência para famílias brasileiras em Helsinque, ilustra o impacto do silêncio. Ele descreve percursos de um quilômetro encontrando apenas uma pessoa com cachorro, num ambiente frio, escuro e quase sem ruído, até perceber um zumbido interno, resultado de um nível de quietude ao qual não estava acostumado. Ao longo dos anos, Babel percebeu que a sociedade finlandesa parece exigir dos imigrantes uma espécie de versão suavizada de si mesmos, menos expansiva, menos ruidosa, mais contida. 

Muitos brasileiros na Finlândia relatam que passam a falar mais baixo, rir menos, evitar gestos que possam ser vistos como excessivos. Maria, que vive em Helsinque há três anos, teme perder justamente a sociabilidade que sempre considerou parte central de sua identidade, ao se ver rindo menos alto, fazendo menos piadas e calculando cada frase para não cometer gafes culturais. Essa adaptação constante, somada ao idioma difícil e ao clima, cria uma sensação de identidade em suspensão, como se uma parte da vida tivesse ficado congelada do lado de fora, no país de origem, enquanto o corpo tenta se encaixar em novas regras não ditas.

Apesar da boa fama do mercado de trabalho qualificado, o desemprego na Finlândia vive o maior patamar em 15 anos e atinge de forma mais dura os estrangeiros, segundo os relatos. Aim descobriu após a mudança que a ideia de conseguir emprego apenas com inglês não corresponde à realidade: mesmo na capital, Helsinque, encontrar um posto sem falar finlandês é muito difícil. Ela hoje está desempregada, vive com o auxílio estatal em torno de 500 a 600 euros, enquanto aprende o idioma e o marido cursa mestrado com uma bolsa menor que o benefício de desemprego. O casal consegue pagar as contas, mas vive com a perspectiva de que, se a sequência de trabalhos temporários e pedidos de auxílio se mantiver por dois, três ou cinco anos, talvez seja preciso deixar o país, mesmo gostando da segurança e da estrutura local.

Aos 42 anos, Maria também relata ter tido de se reinventar profissionalmente, voltando a estudar para poder trabalhar em outra área. Recomeçar a carreira após os 40, num mercado que valoriza a fluência em finlandês e exige requalificação completa, amplia a sensação de vulnerabilidade e de atraso de vida para alguns brasileiros na Finlândia.

Os relatos convergem em um ponto: o inverno. Meses com pouquíssima luz solar, temperaturas negativas, neve persistente e ruas vazias formam o cenário que muitos brasileiros associam à pior fase do ano. Em cidades pequenas no interior, como Kajaani, a paisagem é composta por florestas, poucos espaços urbanizados e uma sensação permanente de isolamento, com ruas vazias às 10h30 da manhã sob neve e sensação térmica abaixo de zero.

Gabriela, que viveu quatro anos e meio na Finlândia com o marido e a filha, decidiu voltar ao Brasil antes do Natal. Ela conta que nunca havia tido depressão no Brasil e entrou em um quadro depressivo profundo logo no primeiro inverno, repetido ano após ano com a combinação de frio intenso, escuridão prolongada e sensação de solidão extrema. Ao final, concluiu que insistir em ficar já não fazia sentido, apesar da boa qualidade de vida e da segurança. A mesma lógica aparece na fala de outra brasileira que migrou com duas filhas pequenas para uma cidade de 36 mil habitantes no centro do país. A principal preocupação, diz ela, era como garantir o básico para as crianças, mas a ausência de comunidade pesa: entre uma cidade e outra, na paisagem de floresta, as relações de vizinhança são escassas e muitos moradores evitam até cruzar com o vizinho no corredor para não ter de trocar cumprimentos, o oposto do que o brasileiro aprende desde cedo.

A experiência dos brasileiros na Finlândia se entrelaça a um fenômeno global. A Organização Mundial da Saúde classifica a solidão como um problema de saúde pública, estimando que uma em cada seis pessoas no mundo se considera solitária, com impactos diretos sobre doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais e declínio cognitivo. Calcula-se cerca de 100 mortes por hora associadas ao isolamento, além de prejuízos amplos à saúde mental. Reino Unido e Japão já criaram políticas específicas para enfrentar a solidão. Na Finlândia, quase 60 por cento da população afirma se sentir só, pelo menos de vez em quando, com relatos mais frequentes entre pessoas de menor renda. Quase 47 por cento dos domicílios do país são formados por pessoas que moram sozinhas, proporção muito maior que a do Brasil, onde os lares unipessoais não chegam a 20 por cento. Viver sozinho não é sinônimo automático de solidão, mas indica uma sociedade na qual a vida individualizada se tornou padrão.

Especialistas lembram que os finlandeses, em média, conseguem manter níveis de satisfação altos mesmo morando sozinhos, enquanto brasileiros podem estar habituados a outro patamar de vida social, com mais convivência e proximidade, o que torna a adaptação mais difícil. A solidão, explicam, é um sentimento que vai e vem, como fome ou sono, e pode aparecer até em ambientes cheios de gente, mas se torna mais aguda quando não há rede de apoio local.

Nem todos os brasileiros na Finlândia vivem o país da mesma forma. Alguns, que chegaram ainda no ensino médio ou na faculdade, dizem ter conseguido construir redes de amizade com finlandeses, colegas e famílias locais, sentindo-se acolhidos em bairros mais diversos e em cidades maiores como Helsinque. Para esses, a solidão aparece em momentos específicos, mas não domina o cotidiano.

Outros seguem em dúvida. Há quem, como Aim, aceite a proteção do Estado e o tempo para aprender o idioma, mas projete uma possível saída caso a instabilidade no trabalho persista por mais alguns anos. Há quem, como Gabriela, encerre o ciclo, organize malas e volte ao Brasil com a sensação de que a vida não cabe nos invernos longos e silenciosos. E há ainda quem permaneça, tentando equilibrar o conforto material, a natureza presente e o peso da saudade.

No fim, o país mais feliz do mundo pode ser, para diferentes brasileiros na Finlândia, tanto um laboratório de bem-estar social quanto um espelho ampliado das próprias fragilidades emocionais, expectativas de vida e necessidades de pertencimento, obrigando cada um a medir se a felicidade estatística compensa o custo íntimo da solidão.

(Texto de autoria de Bruno Teles. Coluna Economia do Site Click Petróleo e Gás. Publicado em 16/12/2025).


A questao refere-se ao texto 01
No desfecho do texto, ao afirmar que a Finlândia pode funcionar como “espelho ampliado das próprias fragilidades emocionais”, o autor sugere que a experiência migratória:
Alternativas
Q3899185 Português
Texto 01

Brasileiros na Finlândia desabafam sobre viver no país mais feliz do mundo: enfrentam solidão, desemprego, invernos escuros, frios, depressão e pensam até em voltar para casa mesmo com toda segurança, dinheiro e benefícios sociais garantidos

Há oito anos seguidos, a Finlândia ocupa o topo do ranking da ONU que mede a felicidade, combinando distribuição de renda, seguridade social, confiança nas instituições e serviços públicos robustos. Para muitos brasileiros na Finlândia, no entanto, o país mais feliz do mundo é também cenário de silêncio intenso, relações sociais raras, invernos longos e escuros e um tipo de solidão que se instala mesmo quando a conta bancária e a segurança parecem sob controle.

Desde 2022, por exemplo, Aim tenta se adaptar à vida em Tampere, no centro do país, enquanto enfrenta a falta de luz de novembro, o desemprego e a dependência de auxílios do Estado. Outros brasileiros na Finlândia, como Maria em Helsinque e Gabriela, que decidiu voltar ao Brasil após quatro anos e meio, relatam que a estabilidade material não impediu a chegada da tristeza, da depressão e da vontade de ir embora.

A narrativa oficial fala de um país com segurança, igualdade, saúde pública universal, educação gratuita e uma rede de proteção social forte, capaz de garantir uma vida simples, porém digna, em contato permanente com a natureza.

Os índices de felicidade medem essa satisfação média, baseada menos na euforia e mais na estabilidade emocional e social.

Para muitos brasileiros na Finlândia, contudo, essa base segura convive com um cotidiano de paisagens cinzentas, poucas pessoas na rua, silêncio quase absoluto e uma vida social contida, distante da sociabilidade ruidosa e espontânea do Brasil. O artista Rafael traduz esse contraste em telas de cores discretas, onde predominam branco, cinza e um pouco de azul, ao associar a beleza da natureza local à presença constante da solidão e da saudade de outras terras. A experiência do professor Babel, que chegou em 2016 com a família e se tornou referência para famílias brasileiras em Helsinque, ilustra o impacto do silêncio. Ele descreve percursos de um quilômetro encontrando apenas uma pessoa com cachorro, num ambiente frio, escuro e quase sem ruído, até perceber um zumbido interno, resultado de um nível de quietude ao qual não estava acostumado. Ao longo dos anos, Babel percebeu que a sociedade finlandesa parece exigir dos imigrantes uma espécie de versão suavizada de si mesmos, menos expansiva, menos ruidosa, mais contida. 

Muitos brasileiros na Finlândia relatam que passam a falar mais baixo, rir menos, evitar gestos que possam ser vistos como excessivos. Maria, que vive em Helsinque há três anos, teme perder justamente a sociabilidade que sempre considerou parte central de sua identidade, ao se ver rindo menos alto, fazendo menos piadas e calculando cada frase para não cometer gafes culturais. Essa adaptação constante, somada ao idioma difícil e ao clima, cria uma sensação de identidade em suspensão, como se uma parte da vida tivesse ficado congelada do lado de fora, no país de origem, enquanto o corpo tenta se encaixar em novas regras não ditas.

Apesar da boa fama do mercado de trabalho qualificado, o desemprego na Finlândia vive o maior patamar em 15 anos e atinge de forma mais dura os estrangeiros, segundo os relatos. Aim descobriu após a mudança que a ideia de conseguir emprego apenas com inglês não corresponde à realidade: mesmo na capital, Helsinque, encontrar um posto sem falar finlandês é muito difícil. Ela hoje está desempregada, vive com o auxílio estatal em torno de 500 a 600 euros, enquanto aprende o idioma e o marido cursa mestrado com uma bolsa menor que o benefício de desemprego. O casal consegue pagar as contas, mas vive com a perspectiva de que, se a sequência de trabalhos temporários e pedidos de auxílio se mantiver por dois, três ou cinco anos, talvez seja preciso deixar o país, mesmo gostando da segurança e da estrutura local.

Aos 42 anos, Maria também relata ter tido de se reinventar profissionalmente, voltando a estudar para poder trabalhar em outra área. Recomeçar a carreira após os 40, num mercado que valoriza a fluência em finlandês e exige requalificação completa, amplia a sensação de vulnerabilidade e de atraso de vida para alguns brasileiros na Finlândia.

Os relatos convergem em um ponto: o inverno. Meses com pouquíssima luz solar, temperaturas negativas, neve persistente e ruas vazias formam o cenário que muitos brasileiros associam à pior fase do ano. Em cidades pequenas no interior, como Kajaani, a paisagem é composta por florestas, poucos espaços urbanizados e uma sensação permanente de isolamento, com ruas vazias às 10h30 da manhã sob neve e sensação térmica abaixo de zero.

Gabriela, que viveu quatro anos e meio na Finlândia com o marido e a filha, decidiu voltar ao Brasil antes do Natal. Ela conta que nunca havia tido depressão no Brasil e entrou em um quadro depressivo profundo logo no primeiro inverno, repetido ano após ano com a combinação de frio intenso, escuridão prolongada e sensação de solidão extrema. Ao final, concluiu que insistir em ficar já não fazia sentido, apesar da boa qualidade de vida e da segurança. A mesma lógica aparece na fala de outra brasileira que migrou com duas filhas pequenas para uma cidade de 36 mil habitantes no centro do país. A principal preocupação, diz ela, era como garantir o básico para as crianças, mas a ausência de comunidade pesa: entre uma cidade e outra, na paisagem de floresta, as relações de vizinhança são escassas e muitos moradores evitam até cruzar com o vizinho no corredor para não ter de trocar cumprimentos, o oposto do que o brasileiro aprende desde cedo.

A experiência dos brasileiros na Finlândia se entrelaça a um fenômeno global. A Organização Mundial da Saúde classifica a solidão como um problema de saúde pública, estimando que uma em cada seis pessoas no mundo se considera solitária, com impactos diretos sobre doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais e declínio cognitivo. Calcula-se cerca de 100 mortes por hora associadas ao isolamento, além de prejuízos amplos à saúde mental. Reino Unido e Japão já criaram políticas específicas para enfrentar a solidão. Na Finlândia, quase 60 por cento da população afirma se sentir só, pelo menos de vez em quando, com relatos mais frequentes entre pessoas de menor renda. Quase 47 por cento dos domicílios do país são formados por pessoas que moram sozinhas, proporção muito maior que a do Brasil, onde os lares unipessoais não chegam a 20 por cento. Viver sozinho não é sinônimo automático de solidão, mas indica uma sociedade na qual a vida individualizada se tornou padrão.

Especialistas lembram que os finlandeses, em média, conseguem manter níveis de satisfação altos mesmo morando sozinhos, enquanto brasileiros podem estar habituados a outro patamar de vida social, com mais convivência e proximidade, o que torna a adaptação mais difícil. A solidão, explicam, é um sentimento que vai e vem, como fome ou sono, e pode aparecer até em ambientes cheios de gente, mas se torna mais aguda quando não há rede de apoio local.

Nem todos os brasileiros na Finlândia vivem o país da mesma forma. Alguns, que chegaram ainda no ensino médio ou na faculdade, dizem ter conseguido construir redes de amizade com finlandeses, colegas e famílias locais, sentindo-se acolhidos em bairros mais diversos e em cidades maiores como Helsinque. Para esses, a solidão aparece em momentos específicos, mas não domina o cotidiano.

Outros seguem em dúvida. Há quem, como Aim, aceite a proteção do Estado e o tempo para aprender o idioma, mas projete uma possível saída caso a instabilidade no trabalho persista por mais alguns anos. Há quem, como Gabriela, encerre o ciclo, organize malas e volte ao Brasil com a sensação de que a vida não cabe nos invernos longos e silenciosos. E há ainda quem permaneça, tentando equilibrar o conforto material, a natureza presente e o peso da saudade.

No fim, o país mais feliz do mundo pode ser, para diferentes brasileiros na Finlândia, tanto um laboratório de bem-estar social quanto um espelho ampliado das próprias fragilidades emocionais, expectativas de vida e necessidades de pertencimento, obrigando cada um a medir se a felicidade estatística compensa o custo íntimo da solidão.

(Texto de autoria de Bruno Teles. Coluna Economia do Site Click Petróleo e Gás. Publicado em 16/12/2025).


A questao refere-se ao texto 01
Quando o texto aborda a exigência implícita de comportamentos mais contidos por parte dos imigrantes — falar mais baixo, rir menos, evitar gestos expansivos —, não se trata apenas de um ajuste de etiqueta social. Considerando o conjunto da argumentação, essa adaptação é apresentada como:
Alternativas
Q3899184 Serviço Social
Texto 01

Brasileiros na Finlândia desabafam sobre viver no país mais feliz do mundo: enfrentam solidão, desemprego, invernos escuros, frios, depressão e pensam até em voltar para casa mesmo com toda segurança, dinheiro e benefícios sociais garantidos

Há oito anos seguidos, a Finlândia ocupa o topo do ranking da ONU que mede a felicidade, combinando distribuição de renda, seguridade social, confiança nas instituições e serviços públicos robustos. Para muitos brasileiros na Finlândia, no entanto, o país mais feliz do mundo é também cenário de silêncio intenso, relações sociais raras, invernos longos e escuros e um tipo de solidão que se instala mesmo quando a conta bancária e a segurança parecem sob controle.

Desde 2022, por exemplo, Aim tenta se adaptar à vida em Tampere, no centro do país, enquanto enfrenta a falta de luz de novembro, o desemprego e a dependência de auxílios do Estado. Outros brasileiros na Finlândia, como Maria em Helsinque e Gabriela, que decidiu voltar ao Brasil após quatro anos e meio, relatam que a estabilidade material não impediu a chegada da tristeza, da depressão e da vontade de ir embora.

A narrativa oficial fala de um país com segurança, igualdade, saúde pública universal, educação gratuita e uma rede de proteção social forte, capaz de garantir uma vida simples, porém digna, em contato permanente com a natureza.

Os índices de felicidade medem essa satisfação média, baseada menos na euforia e mais na estabilidade emocional e social.

Para muitos brasileiros na Finlândia, contudo, essa base segura convive com um cotidiano de paisagens cinzentas, poucas pessoas na rua, silêncio quase absoluto e uma vida social contida, distante da sociabilidade ruidosa e espontânea do Brasil. O artista Rafael traduz esse contraste em telas de cores discretas, onde predominam branco, cinza e um pouco de azul, ao associar a beleza da natureza local à presença constante da solidão e da saudade de outras terras. A experiência do professor Babel, que chegou em 2016 com a família e se tornou referência para famílias brasileiras em Helsinque, ilustra o impacto do silêncio. Ele descreve percursos de um quilômetro encontrando apenas uma pessoa com cachorro, num ambiente frio, escuro e quase sem ruído, até perceber um zumbido interno, resultado de um nível de quietude ao qual não estava acostumado. Ao longo dos anos, Babel percebeu que a sociedade finlandesa parece exigir dos imigrantes uma espécie de versão suavizada de si mesmos, menos expansiva, menos ruidosa, mais contida. 

Muitos brasileiros na Finlândia relatam que passam a falar mais baixo, rir menos, evitar gestos que possam ser vistos como excessivos. Maria, que vive em Helsinque há três anos, teme perder justamente a sociabilidade que sempre considerou parte central de sua identidade, ao se ver rindo menos alto, fazendo menos piadas e calculando cada frase para não cometer gafes culturais. Essa adaptação constante, somada ao idioma difícil e ao clima, cria uma sensação de identidade em suspensão, como se uma parte da vida tivesse ficado congelada do lado de fora, no país de origem, enquanto o corpo tenta se encaixar em novas regras não ditas.

Apesar da boa fama do mercado de trabalho qualificado, o desemprego na Finlândia vive o maior patamar em 15 anos e atinge de forma mais dura os estrangeiros, segundo os relatos. Aim descobriu após a mudança que a ideia de conseguir emprego apenas com inglês não corresponde à realidade: mesmo na capital, Helsinque, encontrar um posto sem falar finlandês é muito difícil. Ela hoje está desempregada, vive com o auxílio estatal em torno de 500 a 600 euros, enquanto aprende o idioma e o marido cursa mestrado com uma bolsa menor que o benefício de desemprego. O casal consegue pagar as contas, mas vive com a perspectiva de que, se a sequência de trabalhos temporários e pedidos de auxílio se mantiver por dois, três ou cinco anos, talvez seja preciso deixar o país, mesmo gostando da segurança e da estrutura local.

Aos 42 anos, Maria também relata ter tido de se reinventar profissionalmente, voltando a estudar para poder trabalhar em outra área. Recomeçar a carreira após os 40, num mercado que valoriza a fluência em finlandês e exige requalificação completa, amplia a sensação de vulnerabilidade e de atraso de vida para alguns brasileiros na Finlândia.

Os relatos convergem em um ponto: o inverno. Meses com pouquíssima luz solar, temperaturas negativas, neve persistente e ruas vazias formam o cenário que muitos brasileiros associam à pior fase do ano. Em cidades pequenas no interior, como Kajaani, a paisagem é composta por florestas, poucos espaços urbanizados e uma sensação permanente de isolamento, com ruas vazias às 10h30 da manhã sob neve e sensação térmica abaixo de zero.

Gabriela, que viveu quatro anos e meio na Finlândia com o marido e a filha, decidiu voltar ao Brasil antes do Natal. Ela conta que nunca havia tido depressão no Brasil e entrou em um quadro depressivo profundo logo no primeiro inverno, repetido ano após ano com a combinação de frio intenso, escuridão prolongada e sensação de solidão extrema. Ao final, concluiu que insistir em ficar já não fazia sentido, apesar da boa qualidade de vida e da segurança. A mesma lógica aparece na fala de outra brasileira que migrou com duas filhas pequenas para uma cidade de 36 mil habitantes no centro do país. A principal preocupação, diz ela, era como garantir o básico para as crianças, mas a ausência de comunidade pesa: entre uma cidade e outra, na paisagem de floresta, as relações de vizinhança são escassas e muitos moradores evitam até cruzar com o vizinho no corredor para não ter de trocar cumprimentos, o oposto do que o brasileiro aprende desde cedo.

A experiência dos brasileiros na Finlândia se entrelaça a um fenômeno global. A Organização Mundial da Saúde classifica a solidão como um problema de saúde pública, estimando que uma em cada seis pessoas no mundo se considera solitária, com impactos diretos sobre doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais e declínio cognitivo. Calcula-se cerca de 100 mortes por hora associadas ao isolamento, além de prejuízos amplos à saúde mental. Reino Unido e Japão já criaram políticas específicas para enfrentar a solidão. Na Finlândia, quase 60 por cento da população afirma se sentir só, pelo menos de vez em quando, com relatos mais frequentes entre pessoas de menor renda. Quase 47 por cento dos domicílios do país são formados por pessoas que moram sozinhas, proporção muito maior que a do Brasil, onde os lares unipessoais não chegam a 20 por cento. Viver sozinho não é sinônimo automático de solidão, mas indica uma sociedade na qual a vida individualizada se tornou padrão.

Especialistas lembram que os finlandeses, em média, conseguem manter níveis de satisfação altos mesmo morando sozinhos, enquanto brasileiros podem estar habituados a outro patamar de vida social, com mais convivência e proximidade, o que torna a adaptação mais difícil. A solidão, explicam, é um sentimento que vai e vem, como fome ou sono, e pode aparecer até em ambientes cheios de gente, mas se torna mais aguda quando não há rede de apoio local.

Nem todos os brasileiros na Finlândia vivem o país da mesma forma. Alguns, que chegaram ainda no ensino médio ou na faculdade, dizem ter conseguido construir redes de amizade com finlandeses, colegas e famílias locais, sentindo-se acolhidos em bairros mais diversos e em cidades maiores como Helsinque. Para esses, a solidão aparece em momentos específicos, mas não domina o cotidiano.

Outros seguem em dúvida. Há quem, como Aim, aceite a proteção do Estado e o tempo para aprender o idioma, mas projete uma possível saída caso a instabilidade no trabalho persista por mais alguns anos. Há quem, como Gabriela, encerre o ciclo, organize malas e volte ao Brasil com a sensação de que a vida não cabe nos invernos longos e silenciosos. E há ainda quem permaneça, tentando equilibrar o conforto material, a natureza presente e o peso da saudade.

No fim, o país mais feliz do mundo pode ser, para diferentes brasileiros na Finlândia, tanto um laboratório de bem-estar social quanto um espelho ampliado das próprias fragilidades emocionais, expectativas de vida e necessidades de pertencimento, obrigando cada um a medir se a felicidade estatística compensa o custo íntimo da solidão.

(Texto de autoria de Bruno Teles. Coluna Economia do Site Click Petróleo e Gás. Publicado em 16/12/2025).


A questao refere-se ao texto 01
A incorporação de dados da Organização Mundial da Saúde e de exemplos internacionais, como políticas adotadas no Reino Unido e no Japão, permite inferir que o autor pretende:
Alternativas
Q3899183 Português
Texto 01

Brasileiros na Finlândia desabafam sobre viver no país mais feliz do mundo: enfrentam solidão, desemprego, invernos escuros, frios, depressão e pensam até em voltar para casa mesmo com toda segurança, dinheiro e benefícios sociais garantidos

Há oito anos seguidos, a Finlândia ocupa o topo do ranking da ONU que mede a felicidade, combinando distribuição de renda, seguridade social, confiança nas instituições e serviços públicos robustos. Para muitos brasileiros na Finlândia, no entanto, o país mais feliz do mundo é também cenário de silêncio intenso, relações sociais raras, invernos longos e escuros e um tipo de solidão que se instala mesmo quando a conta bancária e a segurança parecem sob controle.

Desde 2022, por exemplo, Aim tenta se adaptar à vida em Tampere, no centro do país, enquanto enfrenta a falta de luz de novembro, o desemprego e a dependência de auxílios do Estado. Outros brasileiros na Finlândia, como Maria em Helsinque e Gabriela, que decidiu voltar ao Brasil após quatro anos e meio, relatam que a estabilidade material não impediu a chegada da tristeza, da depressão e da vontade de ir embora.

A narrativa oficial fala de um país com segurança, igualdade, saúde pública universal, educação gratuita e uma rede de proteção social forte, capaz de garantir uma vida simples, porém digna, em contato permanente com a natureza.

Os índices de felicidade medem essa satisfação média, baseada menos na euforia e mais na estabilidade emocional e social.

Para muitos brasileiros na Finlândia, contudo, essa base segura convive com um cotidiano de paisagens cinzentas, poucas pessoas na rua, silêncio quase absoluto e uma vida social contida, distante da sociabilidade ruidosa e espontânea do Brasil. O artista Rafael traduz esse contraste em telas de cores discretas, onde predominam branco, cinza e um pouco de azul, ao associar a beleza da natureza local à presença constante da solidão e da saudade de outras terras. A experiência do professor Babel, que chegou em 2016 com a família e se tornou referência para famílias brasileiras em Helsinque, ilustra o impacto do silêncio. Ele descreve percursos de um quilômetro encontrando apenas uma pessoa com cachorro, num ambiente frio, escuro e quase sem ruído, até perceber um zumbido interno, resultado de um nível de quietude ao qual não estava acostumado. Ao longo dos anos, Babel percebeu que a sociedade finlandesa parece exigir dos imigrantes uma espécie de versão suavizada de si mesmos, menos expansiva, menos ruidosa, mais contida. 

Muitos brasileiros na Finlândia relatam que passam a falar mais baixo, rir menos, evitar gestos que possam ser vistos como excessivos. Maria, que vive em Helsinque há três anos, teme perder justamente a sociabilidade que sempre considerou parte central de sua identidade, ao se ver rindo menos alto, fazendo menos piadas e calculando cada frase para não cometer gafes culturais. Essa adaptação constante, somada ao idioma difícil e ao clima, cria uma sensação de identidade em suspensão, como se uma parte da vida tivesse ficado congelada do lado de fora, no país de origem, enquanto o corpo tenta se encaixar em novas regras não ditas.

Apesar da boa fama do mercado de trabalho qualificado, o desemprego na Finlândia vive o maior patamar em 15 anos e atinge de forma mais dura os estrangeiros, segundo os relatos. Aim descobriu após a mudança que a ideia de conseguir emprego apenas com inglês não corresponde à realidade: mesmo na capital, Helsinque, encontrar um posto sem falar finlandês é muito difícil. Ela hoje está desempregada, vive com o auxílio estatal em torno de 500 a 600 euros, enquanto aprende o idioma e o marido cursa mestrado com uma bolsa menor que o benefício de desemprego. O casal consegue pagar as contas, mas vive com a perspectiva de que, se a sequência de trabalhos temporários e pedidos de auxílio se mantiver por dois, três ou cinco anos, talvez seja preciso deixar o país, mesmo gostando da segurança e da estrutura local.

Aos 42 anos, Maria também relata ter tido de se reinventar profissionalmente, voltando a estudar para poder trabalhar em outra área. Recomeçar a carreira após os 40, num mercado que valoriza a fluência em finlandês e exige requalificação completa, amplia a sensação de vulnerabilidade e de atraso de vida para alguns brasileiros na Finlândia.

Os relatos convergem em um ponto: o inverno. Meses com pouquíssima luz solar, temperaturas negativas, neve persistente e ruas vazias formam o cenário que muitos brasileiros associam à pior fase do ano. Em cidades pequenas no interior, como Kajaani, a paisagem é composta por florestas, poucos espaços urbanizados e uma sensação permanente de isolamento, com ruas vazias às 10h30 da manhã sob neve e sensação térmica abaixo de zero.

Gabriela, que viveu quatro anos e meio na Finlândia com o marido e a filha, decidiu voltar ao Brasil antes do Natal. Ela conta que nunca havia tido depressão no Brasil e entrou em um quadro depressivo profundo logo no primeiro inverno, repetido ano após ano com a combinação de frio intenso, escuridão prolongada e sensação de solidão extrema. Ao final, concluiu que insistir em ficar já não fazia sentido, apesar da boa qualidade de vida e da segurança. A mesma lógica aparece na fala de outra brasileira que migrou com duas filhas pequenas para uma cidade de 36 mil habitantes no centro do país. A principal preocupação, diz ela, era como garantir o básico para as crianças, mas a ausência de comunidade pesa: entre uma cidade e outra, na paisagem de floresta, as relações de vizinhança são escassas e muitos moradores evitam até cruzar com o vizinho no corredor para não ter de trocar cumprimentos, o oposto do que o brasileiro aprende desde cedo.

A experiência dos brasileiros na Finlândia se entrelaça a um fenômeno global. A Organização Mundial da Saúde classifica a solidão como um problema de saúde pública, estimando que uma em cada seis pessoas no mundo se considera solitária, com impactos diretos sobre doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais e declínio cognitivo. Calcula-se cerca de 100 mortes por hora associadas ao isolamento, além de prejuízos amplos à saúde mental. Reino Unido e Japão já criaram políticas específicas para enfrentar a solidão. Na Finlândia, quase 60 por cento da população afirma se sentir só, pelo menos de vez em quando, com relatos mais frequentes entre pessoas de menor renda. Quase 47 por cento dos domicílios do país são formados por pessoas que moram sozinhas, proporção muito maior que a do Brasil, onde os lares unipessoais não chegam a 20 por cento. Viver sozinho não é sinônimo automático de solidão, mas indica uma sociedade na qual a vida individualizada se tornou padrão.

Especialistas lembram que os finlandeses, em média, conseguem manter níveis de satisfação altos mesmo morando sozinhos, enquanto brasileiros podem estar habituados a outro patamar de vida social, com mais convivência e proximidade, o que torna a adaptação mais difícil. A solidão, explicam, é um sentimento que vai e vem, como fome ou sono, e pode aparecer até em ambientes cheios de gente, mas se torna mais aguda quando não há rede de apoio local.

Nem todos os brasileiros na Finlândia vivem o país da mesma forma. Alguns, que chegaram ainda no ensino médio ou na faculdade, dizem ter conseguido construir redes de amizade com finlandeses, colegas e famílias locais, sentindo-se acolhidos em bairros mais diversos e em cidades maiores como Helsinque. Para esses, a solidão aparece em momentos específicos, mas não domina o cotidiano.

Outros seguem em dúvida. Há quem, como Aim, aceite a proteção do Estado e o tempo para aprender o idioma, mas projete uma possível saída caso a instabilidade no trabalho persista por mais alguns anos. Há quem, como Gabriela, encerre o ciclo, organize malas e volte ao Brasil com a sensação de que a vida não cabe nos invernos longos e silenciosos. E há ainda quem permaneça, tentando equilibrar o conforto material, a natureza presente e o peso da saudade.

No fim, o país mais feliz do mundo pode ser, para diferentes brasileiros na Finlândia, tanto um laboratório de bem-estar social quanto um espelho ampliado das próprias fragilidades emocionais, expectativas de vida e necessidades de pertencimento, obrigando cada um a medir se a felicidade estatística compensa o custo íntimo da solidão.

(Texto de autoria de Bruno Teles. Coluna Economia do Site Click Petróleo e Gás. Publicado em 16/12/2025).


A questao refere-se ao texto 01
Ao longo do texto, os relatos individuais de brasileiros são apresentados de forma reiterada e variada, envolvendo diferentes cidades, perfis profissionais e trajetórias familiares. Do ponto de vista argumentativo, essa multiplicidade de vozes cumpre principalmente a função de: 
Alternativas
Q3899182 Português
Texto 01

Brasileiros na Finlândia desabafam sobre viver no país mais feliz do mundo: enfrentam solidão, desemprego, invernos escuros, frios, depressão e pensam até em voltar para casa mesmo com toda segurança, dinheiro e benefícios sociais garantidos

Há oito anos seguidos, a Finlândia ocupa o topo do ranking da ONU que mede a felicidade, combinando distribuição de renda, seguridade social, confiança nas instituições e serviços públicos robustos. Para muitos brasileiros na Finlândia, no entanto, o país mais feliz do mundo é também cenário de silêncio intenso, relações sociais raras, invernos longos e escuros e um tipo de solidão que se instala mesmo quando a conta bancária e a segurança parecem sob controle.

Desde 2022, por exemplo, Aim tenta se adaptar à vida em Tampere, no centro do país, enquanto enfrenta a falta de luz de novembro, o desemprego e a dependência de auxílios do Estado. Outros brasileiros na Finlândia, como Maria em Helsinque e Gabriela, que decidiu voltar ao Brasil após quatro anos e meio, relatam que a estabilidade material não impediu a chegada da tristeza, da depressão e da vontade de ir embora.

A narrativa oficial fala de um país com segurança, igualdade, saúde pública universal, educação gratuita e uma rede de proteção social forte, capaz de garantir uma vida simples, porém digna, em contato permanente com a natureza.

Os índices de felicidade medem essa satisfação média, baseada menos na euforia e mais na estabilidade emocional e social.

Para muitos brasileiros na Finlândia, contudo, essa base segura convive com um cotidiano de paisagens cinzentas, poucas pessoas na rua, silêncio quase absoluto e uma vida social contida, distante da sociabilidade ruidosa e espontânea do Brasil. O artista Rafael traduz esse contraste em telas de cores discretas, onde predominam branco, cinza e um pouco de azul, ao associar a beleza da natureza local à presença constante da solidão e da saudade de outras terras. A experiência do professor Babel, que chegou em 2016 com a família e se tornou referência para famílias brasileiras em Helsinque, ilustra o impacto do silêncio. Ele descreve percursos de um quilômetro encontrando apenas uma pessoa com cachorro, num ambiente frio, escuro e quase sem ruído, até perceber um zumbido interno, resultado de um nível de quietude ao qual não estava acostumado. Ao longo dos anos, Babel percebeu que a sociedade finlandesa parece exigir dos imigrantes uma espécie de versão suavizada de si mesmos, menos expansiva, menos ruidosa, mais contida. 

Muitos brasileiros na Finlândia relatam que passam a falar mais baixo, rir menos, evitar gestos que possam ser vistos como excessivos. Maria, que vive em Helsinque há três anos, teme perder justamente a sociabilidade que sempre considerou parte central de sua identidade, ao se ver rindo menos alto, fazendo menos piadas e calculando cada frase para não cometer gafes culturais. Essa adaptação constante, somada ao idioma difícil e ao clima, cria uma sensação de identidade em suspensão, como se uma parte da vida tivesse ficado congelada do lado de fora, no país de origem, enquanto o corpo tenta se encaixar em novas regras não ditas.

Apesar da boa fama do mercado de trabalho qualificado, o desemprego na Finlândia vive o maior patamar em 15 anos e atinge de forma mais dura os estrangeiros, segundo os relatos. Aim descobriu após a mudança que a ideia de conseguir emprego apenas com inglês não corresponde à realidade: mesmo na capital, Helsinque, encontrar um posto sem falar finlandês é muito difícil. Ela hoje está desempregada, vive com o auxílio estatal em torno de 500 a 600 euros, enquanto aprende o idioma e o marido cursa mestrado com uma bolsa menor que o benefício de desemprego. O casal consegue pagar as contas, mas vive com a perspectiva de que, se a sequência de trabalhos temporários e pedidos de auxílio se mantiver por dois, três ou cinco anos, talvez seja preciso deixar o país, mesmo gostando da segurança e da estrutura local.

Aos 42 anos, Maria também relata ter tido de se reinventar profissionalmente, voltando a estudar para poder trabalhar em outra área. Recomeçar a carreira após os 40, num mercado que valoriza a fluência em finlandês e exige requalificação completa, amplia a sensação de vulnerabilidade e de atraso de vida para alguns brasileiros na Finlândia.

Os relatos convergem em um ponto: o inverno. Meses com pouquíssima luz solar, temperaturas negativas, neve persistente e ruas vazias formam o cenário que muitos brasileiros associam à pior fase do ano. Em cidades pequenas no interior, como Kajaani, a paisagem é composta por florestas, poucos espaços urbanizados e uma sensação permanente de isolamento, com ruas vazias às 10h30 da manhã sob neve e sensação térmica abaixo de zero.

Gabriela, que viveu quatro anos e meio na Finlândia com o marido e a filha, decidiu voltar ao Brasil antes do Natal. Ela conta que nunca havia tido depressão no Brasil e entrou em um quadro depressivo profundo logo no primeiro inverno, repetido ano após ano com a combinação de frio intenso, escuridão prolongada e sensação de solidão extrema. Ao final, concluiu que insistir em ficar já não fazia sentido, apesar da boa qualidade de vida e da segurança. A mesma lógica aparece na fala de outra brasileira que migrou com duas filhas pequenas para uma cidade de 36 mil habitantes no centro do país. A principal preocupação, diz ela, era como garantir o básico para as crianças, mas a ausência de comunidade pesa: entre uma cidade e outra, na paisagem de floresta, as relações de vizinhança são escassas e muitos moradores evitam até cruzar com o vizinho no corredor para não ter de trocar cumprimentos, o oposto do que o brasileiro aprende desde cedo.

A experiência dos brasileiros na Finlândia se entrelaça a um fenômeno global. A Organização Mundial da Saúde classifica a solidão como um problema de saúde pública, estimando que uma em cada seis pessoas no mundo se considera solitária, com impactos diretos sobre doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais e declínio cognitivo. Calcula-se cerca de 100 mortes por hora associadas ao isolamento, além de prejuízos amplos à saúde mental. Reino Unido e Japão já criaram políticas específicas para enfrentar a solidão. Na Finlândia, quase 60 por cento da população afirma se sentir só, pelo menos de vez em quando, com relatos mais frequentes entre pessoas de menor renda. Quase 47 por cento dos domicílios do país são formados por pessoas que moram sozinhas, proporção muito maior que a do Brasil, onde os lares unipessoais não chegam a 20 por cento. Viver sozinho não é sinônimo automático de solidão, mas indica uma sociedade na qual a vida individualizada se tornou padrão.

Especialistas lembram que os finlandeses, em média, conseguem manter níveis de satisfação altos mesmo morando sozinhos, enquanto brasileiros podem estar habituados a outro patamar de vida social, com mais convivência e proximidade, o que torna a adaptação mais difícil. A solidão, explicam, é um sentimento que vai e vem, como fome ou sono, e pode aparecer até em ambientes cheios de gente, mas se torna mais aguda quando não há rede de apoio local.

Nem todos os brasileiros na Finlândia vivem o país da mesma forma. Alguns, que chegaram ainda no ensino médio ou na faculdade, dizem ter conseguido construir redes de amizade com finlandeses, colegas e famílias locais, sentindo-se acolhidos em bairros mais diversos e em cidades maiores como Helsinque. Para esses, a solidão aparece em momentos específicos, mas não domina o cotidiano.

Outros seguem em dúvida. Há quem, como Aim, aceite a proteção do Estado e o tempo para aprender o idioma, mas projete uma possível saída caso a instabilidade no trabalho persista por mais alguns anos. Há quem, como Gabriela, encerre o ciclo, organize malas e volte ao Brasil com a sensação de que a vida não cabe nos invernos longos e silenciosos. E há ainda quem permaneça, tentando equilibrar o conforto material, a natureza presente e o peso da saudade.

No fim, o país mais feliz do mundo pode ser, para diferentes brasileiros na Finlândia, tanto um laboratório de bem-estar social quanto um espelho ampliado das próprias fragilidades emocionais, expectativas de vida e necessidades de pertencimento, obrigando cada um a medir se a felicidade estatística compensa o custo íntimo da solidão.

(Texto de autoria de Bruno Teles. Coluna Economia do Site Click Petróleo e Gás. Publicado em 16/12/2025).


A questao refere-se ao texto 01
A leitura atenta do texto permite concluir que a classificação da Finlândia como “país mais feliz do mundo” não é negada pelo autor, mas submetida a uma problematização complexa. Considerando o conjunto dos relatos apresentados, os dados institucionais citados e a forma como o conceito de solidão é desenvolvido ao longo do texto, assinale a alternativa que melhor sintetiza a posição global do autor:
Alternativas
Q3895745 Libras
O letramento, compreendido como o uso social da leitura e da escrita, é fundamental para o desenvolvimento do aluno surdo. No contexto da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008), como deve ser prioritariamente desenvolvido o letramento do aluno surdo usuário da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS)?
Alternativas
Q3895744 Libras

A trajetória da educação de surdos é marcada por diferentes abordagens pedagógicas que refletem concepções distintas sobre a surdez e a linguagem. Essas abordagens influenciam diretamente as práticas em sala de aula e as políticas públicas. Considerando as principais abordagens, analise as afirmativas a seguir.



I. A abordagem Oralista visa capacitar a pessoa com surdez para utilizar a língua da comunidade ouvinte na modalidade oral, priorizando o treino da fala e a leitura labial, e desconsiderando a língua de sinais.


II. A abordagem Bilíngue propõe que o aluno surdo adquira a Língua de Sinais como primeira língua (L1) e a língua da comunidade ouvinte, na modalidade escrita, como segunda língua (L2).


III. A abordagem da Comunicação Total utiliza qualquer recurso comunicativo disponível (fala, LIBRAS, leitura labial, gestos) de forma simultânea, mas é criticada por usar, muitas vezes, o Português sinalizado, que descaracteriza a estrutura da LIBRAS.



Está correto o que se afirma em: 

Alternativas
Q3895743 Libras

A educação de surdos é permeada por diferentes filosofias que orientam as práticas pedagógicas, sendo as principais o Oralismo, a Comunicação Total e o Bilinguismo. Acerca do assunto, registre V, para as afirmativas verdadeiras, e F, para as falsas:



(__) O Oralismo visa à integração da pessoa surda na comunidade ouvinte através do desenvolvimento da fala e da leitura labial, proibindo o uso da língua de sinais.


(__) A Comunicação Total surgiu como uma reação ao Oralismo, propondo o uso de todos os recursos comunicativos (fala, sinais, leitura labial, etc.), mas foi criticada por frequentemente utilizar o Português sinalizado.


(__) O Bilinguismo reconhece a Língua de Sinais como a língua natural (L1) da pessoa surda e a língua oral-auditiva da comunidade majoritária, na modalidade escrita, como segunda língua (L2).


(__) O Oralismo é a filosofia oficialmente adotada pela atual Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (MEC/2008).



Após análise, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta dos itens acima, de cima para baixo: 

Alternativas
Q3895742 Libras

O processo de interpretação da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) para a Língua Portuguesa, ou vice-versa, pode ocorrer em diferentes modalidades. No contexto educacional, o intérprete frequentemente precisa verter uma mensagem da modalidade visual-espacial (LIBRAS) para a oral-auditiva (Português) em tempo real, enquanto o palestrante ou professor fala. Considerando esta descrição, analise as afirmativas a seguir.



I. A interpretação simultânea ocorre quando o intérprete verte a mensagem da língua-fonte para a língua-alvo quase ao mesmo tempo em que o orador produz seu discurso.


II. A interpretação consecutiva ocorre quando o orador fala (ou sinaliza) por um período, faz uma pausa, e então o intérprete realiza a versão da mensagem para a outra língua.


III. A tradução refere-se exclusivamente ao processo de passar um texto escrito de uma língua para outra, não se aplicando às modalidades orais ou sinalizadas.



Está correto o que se afirma em:

Alternativas
Q3895741 Legislação Federal
O Decreto nº 5.626/2005 estabelece diretrizes claras para a difusão da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) no sistema educacional. Qual é a determinação desse decreto referente à inclusão da LIBRAS como disciplina curricular?
Alternativas
Q3895740 Pedagogia
A Tecnologia Assistiva (TA) engloba recursos e serviços que visam proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência. No caso da surdez, a acessibilidade comunicacional é um desafio central. Qual dos recursos abaixo NÃO é considerado uma Tecnologia Assistiva voltada para a acessibilidade de pessoas surdas?
Alternativas
Q3895739 Libras
Na perspectiva da educação inclusiva, a escolarização de alunos com surdez demanda uma organização pedagógica específica que considere suas necessidades linguísticas. Qual é a proposta de atendimento educacional especializado (AEE) considerada fundamental para esses alunos, conforme as diretrizes inclusivas? 
Alternativas
Q3895738 Legislação Federal

O Decreto nº 5.626/2005, que regulamenta a Lei da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), estabelece diretrizes claras para a educação bilíngue de alunos surdos. Acerca do assunto, registre V, para as afirmativas verdadeiras, e F, para as falsas:



(__) O decreto define a escola ou classe de educação bilíngue como aquela em que a LIBRAS é a língua de instrução (L1) e a modalidade escrita da Língua Portuguesa é a segunda língua (L2).


(__) O decreto determina que os alunos surdos devem ser agrupados exclusivamente com outros surdos em escolas especiais, proibindo a criação de classes bilíngues em escolas comuns.


(__) A legislação prevê que a LIBRAS deve ser disciplina curricular obrigatória apenas nos cursos de Letras-LIBRAS, sendo facultativa nos cursos de formação de professores e Fonoaudiologia.


(__) O decreto garante o direito à presença de tradutor e intérprete de LIBRAS - Língua Portuguesa em sala de aula nos anos finais do ensino fundamental, médio e na educação superior.



Após análise, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta dos itens acima, de cima para baixo:

Alternativas
Q3895737 Pedagogia
A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (MEC/2008) estabelece que a educação especial é uma modalidade transversal. O que isso significa na prática?
Alternativas
Q3895736 Pedagogia
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) define, em seu Art. 3º, os princípios sob os quais o ensino será ministrado. Qual dos itens abaixo NÃO corresponde a um princípio listado no Art. 3º da LDBEN?
Alternativas
Q3895735 Direitos Humanos

A escolarização de pessoas com surdez, fundamentada nos direitos humanos e na cidadania, exige o rompimento com práticas históricas de segregação e a construção de ambientes educacionais verdadeiramente inclusivos. Acerca do assunto, registre V, para as afirmativas verdadeiras, e F, para as falsas:



(__) A perspectiva da cidadania e dos direitos humanos entende que a inclusão de alunos surdos se efetiva ao garantir o acesso à escola comum, desde que eles se adaptem à metodologia oralista vigente.


(__) A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU) reconhece o direito das pessoas surdas à sua identidade cultural e linguística, incluindo a aceitação e o uso de línguas de sinais na educação.


(__) A plena cidadania da pessoa surda na escola inclusiva está condicionada à sua capacidade de desenvolver a fala e a leitura labial, sendo a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) um recurso secundário e transitório.


(__) A garantia de direitos humanos na escolarização de surdos implica o reconhecimento da LIBRAS como língua de instrução e o ensino da Língua Portuguesa (modalidade escrita) como segunda língua.



Após análise, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta dos itens acima, de cima para baixo: 

Alternativas
Q3895734 Pedagogia
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece, em seu Título II (Dos Direitos Fundamentais), o direito à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer. Qual é o dever do Estado em relação à educação da criança e do adolescente com deficiência, conforme o Art. 54 do ECA?
Alternativas
Q3895733 Direitos Humanos

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU), ratificada pelo Brasil com status de emenda constitucional, estabelece princípios fundamentais que devem guiar as políticas públicas. Considerando os princípios gerais elencados no Artigo 3º da Convenção, analise as afirmativas a seguir.



I. O respeito pela dignidade inerente, a autonomia individual, inclusive a liberdade de fazer as próprias escolhas, e a independência das pessoas.


II. A não-discriminação e a igualdade de oportunidades.


III. A acessibilidade e a participação plena e efetiva na sociedade.



Está correto o que se afirma em:

Alternativas
Q3895732 Direito Constitucional

Os artigos 205 a 214 da Constituição Federal estabelecem os pilares da educação nacional. O Art. 206 define os princípios sob os quais o ensino deve ser ministrado. Acerca do assunto, registre V, para as afirmativas verdadeiras, e F, para as falsas:



(__) Um dos princípios do ensino é a "igualdade de condições para o acesso e permanência na escola".


(__) A Constituição garante a "gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais", sendo este um dos princípios listados no Art. 206.


(__) O Art. 206 prevê a "gestão democrática do ensino público, na forma da lei", como um princípio norteador.


(__) A Constituição define como princípio a "valorização dos profissionais de ensino", garantindo planos de carreira exclusivamente para o magistério público.



Após análise, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta dos itens acima, de cima para baixo:

Alternativas
Respostas
81: D
82: A
83: B
84: D
85: A
86: C
87: B
88: A
89: B
90: C
91: B
92: D
93: D
94: A
95: C
96: B
97: B
98: D
99: D
100: C