Questões de Concurso Comentadas para intérprete de libras

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Q3445457 Português

“UM APRENDIZADO, UM ABRAÇO, UM SOCO NA CARA”

 

No último mês, fiquei obcecada com o show da Madonna. Pensava: preciso ir, vou de qualquer jeito. Moro em São Paulo e me questionava: Onde me hospedar no Rio de Janeiro? Com quem ir? Tentei criar um grupo com meus amigos, mas a maior parte não acompanha o trabalho da Madonna. Ninguém estava tão animado. De toda forma, me organizei e fui com minha irmã gêmea, Estela May, para o Rio no dia 30 de abril. Ao mesmo tempo, crescia em mim o sentimento de que não queria estar no show sem a minha mãe.

Teve até um momento em que bateu uma vontade imensa de voltar para São Paulo na mesma hora. Não queria mais ir, não sem a minha mãe. Foi uma obsessão tão louca que só na véspera do aniversário dela [a escritora, roteirista, atriz e apresentadora Fernanda Young, que morreu em 2019 e faria 54 no último 1º de maio] percebi que sentia que deveria estar no show da Madonna por ela. Estava muito sensível. Minha mãe sempre dizia que sou muito sensível.

Desde que o evento foi anunciado, vi muitas pessoas contando histórias relacionadas a Madonna. Pensei: “Ah, quer saber? Vou tirar uma foto que prova que meu nome é Madonna como o dela.” Peguei o meu passaporte na mesa de cabeceira e tirei a foto. Foi. Achei que ia render umas cem curtidas e algumas risadas. Mas o post foi longe e as pessoas começaram a me ajudar. Aliás, sou muito grata a todo mundo que sentiu que eu deveria estar lá. Isso é uma das coisas que mais me emocionaram nesta história e fico com vontade de chorar só de falar. Achei lindo o fato de entenderem como esse show era importante pra mim.

No dia do aniversário da minha mãe, o quinto desde que ela morreu, eu não esperava nada. Estava no chuveiro, ouvindo What It Feels Like For A Girl, aquela música que ela traduziu no Saia Justa e viralizou no Twitter recentemente. Logo depois entrei no X [antigo Twitter] como se não quisesse nada e estava lá a mensagem do patrocinador disponibilizando os ingressos. Na hora minha irmã virou e falou: “Você sabe quem foi, né” A gente sempre fica procurando sinais da minha mãe. Não sei se peguei isso do meu pai. Meu pai sente muito sinal por música. Em dezembro do ano passado nós estávamos em um hotel aqui do Rio para pegar o meu livro [Tudo que eu posso te contar] impresso pela primeira vez e, do nada, começou a tocar Forever Young do Alphaville. Justo a música que minha mãe sempre falou que era a nossa família. Ela sempre escutava, era nosso hino.

Como cheguei no Rio com antecedência, consegui curtir um tempo na cidade, mas meus dias foram realmente Madonna, Madonna, Madonna, Madonna. Não conseguia pensar em outra coisa, não conseguia fazer nada. Fui ao Copacabana Palace tentar ver a Madonna. No dia do show, eu estava monotemática. Minha irmã foi à praia e eu fiquei dando voltas no quarto do hotel. Mandei fazer uma bolsa e uma saia cheia de correntes, crucifixos e enfeitezinhos. Passei o dia inteiro pulando e reparando que a saia fazia muito barulho. Tentei mexer nela enquanto ouvia a Madonna. Normalmente com outros shows, mesmo dos artistas que conheço só três ou quatro músicas, já fico ansiosa. Mas dessa vez a sensação triplicou. Mal consegui comer. Pedi um bule de café no serviço de quarto, que tomei loucamente. E continuei ouvindo Madonna. “Será que já devo ir?”, “Será que já posso ir?”, era o que eu pensava a todo momento. Mandei mensagem pra minha irmã falando: “Pelo amor de Deus, volta dessa praia agora” O espaço abria às 18h, e cheguei lá nessa hora, mas chegaria muito antes se fosse possível.

Antes de o show começar, já na área vip, eu e minha irmã ficamos desconfortáveis. Tinham muitas famílias tradicionais brasileiras. Escutamos comentários desnecessários e alguns homofóbicos. Pouco antes da apresentação começar, um dos convidados da área vip me reconheceu e me chamou para ficar mais próximo do palco. Neste momento, um outro rapaz que também estava ali disse que se tivesse com uma faca mataria. A primeira coisa que pensei foi que nem mesmo no show de Madonna ficamos seguros.

Fiquei preocupada e cogitei procurar outro lugar para acompanhar a apresentação. Mas, por mais que o caso tenha sido horrível, fiquei pensando que foi bom o agressor ter assistido ao show. Também me dei conta de que, afinal, é disto que a Madonna fala: de não deixar essas pessoas nos oprimirem. Decidi: vamos ficar aqui berrando e dançando, e, se eles se incomodarem, que se mexam.

Essa é a celebração da Madonna. Fiquei eufórica quando a Madonna entrou no palco. Chorei muito. Minha irmã, preocupada, perguntou se eu estava bem, se queria sentar ou beber água. Também por isso foi tão especial poder ir ao show com ela. Somos muito diferentes. A sensação que tenho é que desde pequenas fomos pegando o que cada uma gostava para si, mas com Madonna isso não ia funcionar, ninguém ia abrir mão de amar a Madonna. Então, subconscientemente, escolhemos dividir esse amor por períodos. Óbvio que amo músicas de todas as fases, mas prefiro as canções da década de 1980, do começo da carreira. A Estela elegeu os álbuns atuais. Apesar de não ter Madonna no nome, acho que ela é mais fã que eu. Viver esse momento com ela foi muito especial, porque na minha memória, éramos nós duas no carro com a minha mãe colocando o CD da Madonna para ouvir. Ela sabe que a primeira coisa que fiz depois que a minha mãe faleceu foi ir ao meu quarto escutar Ray of Light. Então, quando a Madonna começou a cantar essa música, e eu desabei em choro, a minha irmã reconheceu o que isso significava para nós duas. Estela sabe que essa era a música que a minha mãe mais gostava de escutar e o que aquele momento no show significaria para ela.

Já faz quase 5 anos que a minha mãe faleceu, mas o luto demora para acontecer. Você acha que superou e do nada cai uma ficha de “é, acho que não”. Maio é sempre um mês difícil pra gente, porque começa com o aniversário da minha mãe e logo vem o dia das mães. É uma dobradinha de datas não divertidas nesse processo, ou até divertidas e de celebração, mas que doem ao mesmo tempo. E o show da Madonna, bem no meio disso, é como um abraço, sabe? Foi um aprendizado, foi um abraço, foi um soco na cara. Ficou um sentimento de amor imenso e gratidão. Escrevi no meu diário que fiz isso por mim e pela minha mãe, e que de alguma maneira serviu para fechar algumas feridas que ainda estavam abertas em relação a tudo o que aconteceu. E foi mágico.

(...)

 

(Cecília Madonna, Revista Piauí, 11 maio 2024 08h59)

Símbolos gráficos, ou sinais de pontuação, são usados para organizar a escrita e ajudar na compreensão da mensagem. No texto a seguir, o sentido não é alterado em caso de substituição dos travessões por:


Fiquei eufórica quando a Madonna entrou no palco. Chorei muito. Minha irmã, preocupada, perguntou: - Você está bem? Quer sentar ou beber água? - Também por isso foi tão especial poder ir ao show com ela. Somos muito diferentes. A sensação que tenho é que desde pequenas fomos pegando o que cada uma gostava para si, mas com Madonna isso não ia funcionar, ninguém ia abrir mão de amar a Madonna. (adaptado) 

Alternativas
Q3445456 Português

“UM APRENDIZADO, UM ABRAÇO, UM SOCO NA CARA”

 

No último mês, fiquei obcecada com o show da Madonna. Pensava: preciso ir, vou de qualquer jeito. Moro em São Paulo e me questionava: Onde me hospedar no Rio de Janeiro? Com quem ir? Tentei criar um grupo com meus amigos, mas a maior parte não acompanha o trabalho da Madonna. Ninguém estava tão animado. De toda forma, me organizei e fui com minha irmã gêmea, Estela May, para o Rio no dia 30 de abril. Ao mesmo tempo, crescia em mim o sentimento de que não queria estar no show sem a minha mãe.

Teve até um momento em que bateu uma vontade imensa de voltar para São Paulo na mesma hora. Não queria mais ir, não sem a minha mãe. Foi uma obsessão tão louca que só na véspera do aniversário dela [a escritora, roteirista, atriz e apresentadora Fernanda Young, que morreu em 2019 e faria 54 no último 1º de maio] percebi que sentia que deveria estar no show da Madonna por ela. Estava muito sensível. Minha mãe sempre dizia que sou muito sensível.

Desde que o evento foi anunciado, vi muitas pessoas contando histórias relacionadas a Madonna. Pensei: “Ah, quer saber? Vou tirar uma foto que prova que meu nome é Madonna como o dela.” Peguei o meu passaporte na mesa de cabeceira e tirei a foto. Foi. Achei que ia render umas cem curtidas e algumas risadas. Mas o post foi longe e as pessoas começaram a me ajudar. Aliás, sou muito grata a todo mundo que sentiu que eu deveria estar lá. Isso é uma das coisas que mais me emocionaram nesta história e fico com vontade de chorar só de falar. Achei lindo o fato de entenderem como esse show era importante pra mim.

No dia do aniversário da minha mãe, o quinto desde que ela morreu, eu não esperava nada. Estava no chuveiro, ouvindo What It Feels Like For A Girl, aquela música que ela traduziu no Saia Justa e viralizou no Twitter recentemente. Logo depois entrei no X [antigo Twitter] como se não quisesse nada e estava lá a mensagem do patrocinador disponibilizando os ingressos. Na hora minha irmã virou e falou: “Você sabe quem foi, né” A gente sempre fica procurando sinais da minha mãe. Não sei se peguei isso do meu pai. Meu pai sente muito sinal por música. Em dezembro do ano passado nós estávamos em um hotel aqui do Rio para pegar o meu livro [Tudo que eu posso te contar] impresso pela primeira vez e, do nada, começou a tocar Forever Young do Alphaville. Justo a música que minha mãe sempre falou que era a nossa família. Ela sempre escutava, era nosso hino.

Como cheguei no Rio com antecedência, consegui curtir um tempo na cidade, mas meus dias foram realmente Madonna, Madonna, Madonna, Madonna. Não conseguia pensar em outra coisa, não conseguia fazer nada. Fui ao Copacabana Palace tentar ver a Madonna. No dia do show, eu estava monotemática. Minha irmã foi à praia e eu fiquei dando voltas no quarto do hotel. Mandei fazer uma bolsa e uma saia cheia de correntes, crucifixos e enfeitezinhos. Passei o dia inteiro pulando e reparando que a saia fazia muito barulho. Tentei mexer nela enquanto ouvia a Madonna. Normalmente com outros shows, mesmo dos artistas que conheço só três ou quatro músicas, já fico ansiosa. Mas dessa vez a sensação triplicou. Mal consegui comer. Pedi um bule de café no serviço de quarto, que tomei loucamente. E continuei ouvindo Madonna. “Será que já devo ir?”, “Será que já posso ir?”, era o que eu pensava a todo momento. Mandei mensagem pra minha irmã falando: “Pelo amor de Deus, volta dessa praia agora” O espaço abria às 18h, e cheguei lá nessa hora, mas chegaria muito antes se fosse possível.

Antes de o show começar, já na área vip, eu e minha irmã ficamos desconfortáveis. Tinham muitas famílias tradicionais brasileiras. Escutamos comentários desnecessários e alguns homofóbicos. Pouco antes da apresentação começar, um dos convidados da área vip me reconheceu e me chamou para ficar mais próximo do palco. Neste momento, um outro rapaz que também estava ali disse que se tivesse com uma faca mataria. A primeira coisa que pensei foi que nem mesmo no show de Madonna ficamos seguros.

Fiquei preocupada e cogitei procurar outro lugar para acompanhar a apresentação. Mas, por mais que o caso tenha sido horrível, fiquei pensando que foi bom o agressor ter assistido ao show. Também me dei conta de que, afinal, é disto que a Madonna fala: de não deixar essas pessoas nos oprimirem. Decidi: vamos ficar aqui berrando e dançando, e, se eles se incomodarem, que se mexam.

Essa é a celebração da Madonna. Fiquei eufórica quando a Madonna entrou no palco. Chorei muito. Minha irmã, preocupada, perguntou se eu estava bem, se queria sentar ou beber água. Também por isso foi tão especial poder ir ao show com ela. Somos muito diferentes. A sensação que tenho é que desde pequenas fomos pegando o que cada uma gostava para si, mas com Madonna isso não ia funcionar, ninguém ia abrir mão de amar a Madonna. Então, subconscientemente, escolhemos dividir esse amor por períodos. Óbvio que amo músicas de todas as fases, mas prefiro as canções da década de 1980, do começo da carreira. A Estela elegeu os álbuns atuais. Apesar de não ter Madonna no nome, acho que ela é mais fã que eu. Viver esse momento com ela foi muito especial, porque na minha memória, éramos nós duas no carro com a minha mãe colocando o CD da Madonna para ouvir. Ela sabe que a primeira coisa que fiz depois que a minha mãe faleceu foi ir ao meu quarto escutar Ray of Light. Então, quando a Madonna começou a cantar essa música, e eu desabei em choro, a minha irmã reconheceu o que isso significava para nós duas. Estela sabe que essa era a música que a minha mãe mais gostava de escutar e o que aquele momento no show significaria para ela.

Já faz quase 5 anos que a minha mãe faleceu, mas o luto demora para acontecer. Você acha que superou e do nada cai uma ficha de “é, acho que não”. Maio é sempre um mês difícil pra gente, porque começa com o aniversário da minha mãe e logo vem o dia das mães. É uma dobradinha de datas não divertidas nesse processo, ou até divertidas e de celebração, mas que doem ao mesmo tempo. E o show da Madonna, bem no meio disso, é como um abraço, sabe? Foi um aprendizado, foi um abraço, foi um soco na cara. Ficou um sentimento de amor imenso e gratidão. Escrevi no meu diário que fiz isso por mim e pela minha mãe, e que de alguma maneira serviu para fechar algumas feridas que ainda estavam abertas em relação a tudo o que aconteceu. E foi mágico.

(...)

 

(Cecília Madonna, Revista Piauí, 11 maio 2024 08h59)

“É uma dobradinha de datas não divertidas nesse processo, ou até divertidas e de celebração, mas que doem ao mesmo tempo”


Das opções a seguir, marque a palavra que não segue a mesma regra de acentuação básica da palavra destacada:

Alternativas
Q3445455 Português

“UM APRENDIZADO, UM ABRAÇO, UM SOCO NA CARA”

 

No último mês, fiquei obcecada com o show da Madonna. Pensava: preciso ir, vou de qualquer jeito. Moro em São Paulo e me questionava: Onde me hospedar no Rio de Janeiro? Com quem ir? Tentei criar um grupo com meus amigos, mas a maior parte não acompanha o trabalho da Madonna. Ninguém estava tão animado. De toda forma, me organizei e fui com minha irmã gêmea, Estela May, para o Rio no dia 30 de abril. Ao mesmo tempo, crescia em mim o sentimento de que não queria estar no show sem a minha mãe.

Teve até um momento em que bateu uma vontade imensa de voltar para São Paulo na mesma hora. Não queria mais ir, não sem a minha mãe. Foi uma obsessão tão louca que só na véspera do aniversário dela [a escritora, roteirista, atriz e apresentadora Fernanda Young, que morreu em 2019 e faria 54 no último 1º de maio] percebi que sentia que deveria estar no show da Madonna por ela. Estava muito sensível. Minha mãe sempre dizia que sou muito sensível.

Desde que o evento foi anunciado, vi muitas pessoas contando histórias relacionadas a Madonna. Pensei: “Ah, quer saber? Vou tirar uma foto que prova que meu nome é Madonna como o dela.” Peguei o meu passaporte na mesa de cabeceira e tirei a foto. Foi. Achei que ia render umas cem curtidas e algumas risadas. Mas o post foi longe e as pessoas começaram a me ajudar. Aliás, sou muito grata a todo mundo que sentiu que eu deveria estar lá. Isso é uma das coisas que mais me emocionaram nesta história e fico com vontade de chorar só de falar. Achei lindo o fato de entenderem como esse show era importante pra mim.

No dia do aniversário da minha mãe, o quinto desde que ela morreu, eu não esperava nada. Estava no chuveiro, ouvindo What It Feels Like For A Girl, aquela música que ela traduziu no Saia Justa e viralizou no Twitter recentemente. Logo depois entrei no X [antigo Twitter] como se não quisesse nada e estava lá a mensagem do patrocinador disponibilizando os ingressos. Na hora minha irmã virou e falou: “Você sabe quem foi, né” A gente sempre fica procurando sinais da minha mãe. Não sei se peguei isso do meu pai. Meu pai sente muito sinal por música. Em dezembro do ano passado nós estávamos em um hotel aqui do Rio para pegar o meu livro [Tudo que eu posso te contar] impresso pela primeira vez e, do nada, começou a tocar Forever Young do Alphaville. Justo a música que minha mãe sempre falou que era a nossa família. Ela sempre escutava, era nosso hino.

Como cheguei no Rio com antecedência, consegui curtir um tempo na cidade, mas meus dias foram realmente Madonna, Madonna, Madonna, Madonna. Não conseguia pensar em outra coisa, não conseguia fazer nada. Fui ao Copacabana Palace tentar ver a Madonna. No dia do show, eu estava monotemática. Minha irmã foi à praia e eu fiquei dando voltas no quarto do hotel. Mandei fazer uma bolsa e uma saia cheia de correntes, crucifixos e enfeitezinhos. Passei o dia inteiro pulando e reparando que a saia fazia muito barulho. Tentei mexer nela enquanto ouvia a Madonna. Normalmente com outros shows, mesmo dos artistas que conheço só três ou quatro músicas, já fico ansiosa. Mas dessa vez a sensação triplicou. Mal consegui comer. Pedi um bule de café no serviço de quarto, que tomei loucamente. E continuei ouvindo Madonna. “Será que já devo ir?”, “Será que já posso ir?”, era o que eu pensava a todo momento. Mandei mensagem pra minha irmã falando: “Pelo amor de Deus, volta dessa praia agora” O espaço abria às 18h, e cheguei lá nessa hora, mas chegaria muito antes se fosse possível.

Antes de o show começar, já na área vip, eu e minha irmã ficamos desconfortáveis. Tinham muitas famílias tradicionais brasileiras. Escutamos comentários desnecessários e alguns homofóbicos. Pouco antes da apresentação começar, um dos convidados da área vip me reconheceu e me chamou para ficar mais próximo do palco. Neste momento, um outro rapaz que também estava ali disse que se tivesse com uma faca mataria. A primeira coisa que pensei foi que nem mesmo no show de Madonna ficamos seguros.

Fiquei preocupada e cogitei procurar outro lugar para acompanhar a apresentação. Mas, por mais que o caso tenha sido horrível, fiquei pensando que foi bom o agressor ter assistido ao show. Também me dei conta de que, afinal, é disto que a Madonna fala: de não deixar essas pessoas nos oprimirem. Decidi: vamos ficar aqui berrando e dançando, e, se eles se incomodarem, que se mexam.

Essa é a celebração da Madonna. Fiquei eufórica quando a Madonna entrou no palco. Chorei muito. Minha irmã, preocupada, perguntou se eu estava bem, se queria sentar ou beber água. Também por isso foi tão especial poder ir ao show com ela. Somos muito diferentes. A sensação que tenho é que desde pequenas fomos pegando o que cada uma gostava para si, mas com Madonna isso não ia funcionar, ninguém ia abrir mão de amar a Madonna. Então, subconscientemente, escolhemos dividir esse amor por períodos. Óbvio que amo músicas de todas as fases, mas prefiro as canções da década de 1980, do começo da carreira. A Estela elegeu os álbuns atuais. Apesar de não ter Madonna no nome, acho que ela é mais fã que eu. Viver esse momento com ela foi muito especial, porque na minha memória, éramos nós duas no carro com a minha mãe colocando o CD da Madonna para ouvir. Ela sabe que a primeira coisa que fiz depois que a minha mãe faleceu foi ir ao meu quarto escutar Ray of Light. Então, quando a Madonna começou a cantar essa música, e eu desabei em choro, a minha irmã reconheceu o que isso significava para nós duas. Estela sabe que essa era a música que a minha mãe mais gostava de escutar e o que aquele momento no show significaria para ela.

Já faz quase 5 anos que a minha mãe faleceu, mas o luto demora para acontecer. Você acha que superou e do nada cai uma ficha de “é, acho que não”. Maio é sempre um mês difícil pra gente, porque começa com o aniversário da minha mãe e logo vem o dia das mães. É uma dobradinha de datas não divertidas nesse processo, ou até divertidas e de celebração, mas que doem ao mesmo tempo. E o show da Madonna, bem no meio disso, é como um abraço, sabe? Foi um aprendizado, foi um abraço, foi um soco na cara. Ficou um sentimento de amor imenso e gratidão. Escrevi no meu diário que fiz isso por mim e pela minha mãe, e que de alguma maneira serviu para fechar algumas feridas que ainda estavam abertas em relação a tudo o que aconteceu. E foi mágico.

(...)

 

(Cecília Madonna, Revista Piauí, 11 maio 2024 08h59)

“Mandei fazer uma bolsa e uma saia cheia de correntes, crucifixos e enfeitezinhos:” .


Marque a alternativa em que a palavra esteja em desacordo com as regras ortográficas:

Alternativas
Q3445454 Português

“UM APRENDIZADO, UM ABRAÇO, UM SOCO NA CARA”

 

No último mês, fiquei obcecada com o show da Madonna. Pensava: preciso ir, vou de qualquer jeito. Moro em São Paulo e me questionava: Onde me hospedar no Rio de Janeiro? Com quem ir? Tentei criar um grupo com meus amigos, mas a maior parte não acompanha o trabalho da Madonna. Ninguém estava tão animado. De toda forma, me organizei e fui com minha irmã gêmea, Estela May, para o Rio no dia 30 de abril. Ao mesmo tempo, crescia em mim o sentimento de que não queria estar no show sem a minha mãe.

Teve até um momento em que bateu uma vontade imensa de voltar para São Paulo na mesma hora. Não queria mais ir, não sem a minha mãe. Foi uma obsessão tão louca que só na véspera do aniversário dela [a escritora, roteirista, atriz e apresentadora Fernanda Young, que morreu em 2019 e faria 54 no último 1º de maio] percebi que sentia que deveria estar no show da Madonna por ela. Estava muito sensível. Minha mãe sempre dizia que sou muito sensível.

Desde que o evento foi anunciado, vi muitas pessoas contando histórias relacionadas a Madonna. Pensei: “Ah, quer saber? Vou tirar uma foto que prova que meu nome é Madonna como o dela.” Peguei o meu passaporte na mesa de cabeceira e tirei a foto. Foi. Achei que ia render umas cem curtidas e algumas risadas. Mas o post foi longe e as pessoas começaram a me ajudar. Aliás, sou muito grata a todo mundo que sentiu que eu deveria estar lá. Isso é uma das coisas que mais me emocionaram nesta história e fico com vontade de chorar só de falar. Achei lindo o fato de entenderem como esse show era importante pra mim.

No dia do aniversário da minha mãe, o quinto desde que ela morreu, eu não esperava nada. Estava no chuveiro, ouvindo What It Feels Like For A Girl, aquela música que ela traduziu no Saia Justa e viralizou no Twitter recentemente. Logo depois entrei no X [antigo Twitter] como se não quisesse nada e estava lá a mensagem do patrocinador disponibilizando os ingressos. Na hora minha irmã virou e falou: “Você sabe quem foi, né” A gente sempre fica procurando sinais da minha mãe. Não sei se peguei isso do meu pai. Meu pai sente muito sinal por música. Em dezembro do ano passado nós estávamos em um hotel aqui do Rio para pegar o meu livro [Tudo que eu posso te contar] impresso pela primeira vez e, do nada, começou a tocar Forever Young do Alphaville. Justo a música que minha mãe sempre falou que era a nossa família. Ela sempre escutava, era nosso hino.

Como cheguei no Rio com antecedência, consegui curtir um tempo na cidade, mas meus dias foram realmente Madonna, Madonna, Madonna, Madonna. Não conseguia pensar em outra coisa, não conseguia fazer nada. Fui ao Copacabana Palace tentar ver a Madonna. No dia do show, eu estava monotemática. Minha irmã foi à praia e eu fiquei dando voltas no quarto do hotel. Mandei fazer uma bolsa e uma saia cheia de correntes, crucifixos e enfeitezinhos. Passei o dia inteiro pulando e reparando que a saia fazia muito barulho. Tentei mexer nela enquanto ouvia a Madonna. Normalmente com outros shows, mesmo dos artistas que conheço só três ou quatro músicas, já fico ansiosa. Mas dessa vez a sensação triplicou. Mal consegui comer. Pedi um bule de café no serviço de quarto, que tomei loucamente. E continuei ouvindo Madonna. “Será que já devo ir?”, “Será que já posso ir?”, era o que eu pensava a todo momento. Mandei mensagem pra minha irmã falando: “Pelo amor de Deus, volta dessa praia agora” O espaço abria às 18h, e cheguei lá nessa hora, mas chegaria muito antes se fosse possível.

Antes de o show começar, já na área vip, eu e minha irmã ficamos desconfortáveis. Tinham muitas famílias tradicionais brasileiras. Escutamos comentários desnecessários e alguns homofóbicos. Pouco antes da apresentação começar, um dos convidados da área vip me reconheceu e me chamou para ficar mais próximo do palco. Neste momento, um outro rapaz que também estava ali disse que se tivesse com uma faca mataria. A primeira coisa que pensei foi que nem mesmo no show de Madonna ficamos seguros.

Fiquei preocupada e cogitei procurar outro lugar para acompanhar a apresentação. Mas, por mais que o caso tenha sido horrível, fiquei pensando que foi bom o agressor ter assistido ao show. Também me dei conta de que, afinal, é disto que a Madonna fala: de não deixar essas pessoas nos oprimirem. Decidi: vamos ficar aqui berrando e dançando, e, se eles se incomodarem, que se mexam.

Essa é a celebração da Madonna. Fiquei eufórica quando a Madonna entrou no palco. Chorei muito. Minha irmã, preocupada, perguntou se eu estava bem, se queria sentar ou beber água. Também por isso foi tão especial poder ir ao show com ela. Somos muito diferentes. A sensação que tenho é que desde pequenas fomos pegando o que cada uma gostava para si, mas com Madonna isso não ia funcionar, ninguém ia abrir mão de amar a Madonna. Então, subconscientemente, escolhemos dividir esse amor por períodos. Óbvio que amo músicas de todas as fases, mas prefiro as canções da década de 1980, do começo da carreira. A Estela elegeu os álbuns atuais. Apesar de não ter Madonna no nome, acho que ela é mais fã que eu. Viver esse momento com ela foi muito especial, porque na minha memória, éramos nós duas no carro com a minha mãe colocando o CD da Madonna para ouvir. Ela sabe que a primeira coisa que fiz depois que a minha mãe faleceu foi ir ao meu quarto escutar Ray of Light. Então, quando a Madonna começou a cantar essa música, e eu desabei em choro, a minha irmã reconheceu o que isso significava para nós duas. Estela sabe que essa era a música que a minha mãe mais gostava de escutar e o que aquele momento no show significaria para ela.

Já faz quase 5 anos que a minha mãe faleceu, mas o luto demora para acontecer. Você acha que superou e do nada cai uma ficha de “é, acho que não”. Maio é sempre um mês difícil pra gente, porque começa com o aniversário da minha mãe e logo vem o dia das mães. É uma dobradinha de datas não divertidas nesse processo, ou até divertidas e de celebração, mas que doem ao mesmo tempo. E o show da Madonna, bem no meio disso, é como um abraço, sabe? Foi um aprendizado, foi um abraço, foi um soco na cara. Ficou um sentimento de amor imenso e gratidão. Escrevi no meu diário que fiz isso por mim e pela minha mãe, e que de alguma maneira serviu para fechar algumas feridas que ainda estavam abertas em relação a tudo o que aconteceu. E foi mágico.

(...)

 

(Cecília Madonna, Revista Piauí, 11 maio 2024 08h59)

Observe a palavra em destaque e marque a opção em que aparece desvio ortográfico segundo a norma culta.


“Foi uma obsessão tão louca que só na véspera do aniversário dela [a escritora, roteirista, atriz e apresentadora Fernanda Young, que morreu em 2019 e faria 54 no último 1º de maio] percebi que sentia que deveria estar no show da Madonna por ela” 

Alternativas
Q3445453 Português

“UM APRENDIZADO, UM ABRAÇO, UM SOCO NA CARA”

 

No último mês, fiquei obcecada com o show da Madonna. Pensava: preciso ir, vou de qualquer jeito. Moro em São Paulo e me questionava: Onde me hospedar no Rio de Janeiro? Com quem ir? Tentei criar um grupo com meus amigos, mas a maior parte não acompanha o trabalho da Madonna. Ninguém estava tão animado. De toda forma, me organizei e fui com minha irmã gêmea, Estela May, para o Rio no dia 30 de abril. Ao mesmo tempo, crescia em mim o sentimento de que não queria estar no show sem a minha mãe.

Teve até um momento em que bateu uma vontade imensa de voltar para São Paulo na mesma hora. Não queria mais ir, não sem a minha mãe. Foi uma obsessão tão louca que só na véspera do aniversário dela [a escritora, roteirista, atriz e apresentadora Fernanda Young, que morreu em 2019 e faria 54 no último 1º de maio] percebi que sentia que deveria estar no show da Madonna por ela. Estava muito sensível. Minha mãe sempre dizia que sou muito sensível.

Desde que o evento foi anunciado, vi muitas pessoas contando histórias relacionadas a Madonna. Pensei: “Ah, quer saber? Vou tirar uma foto que prova que meu nome é Madonna como o dela.” Peguei o meu passaporte na mesa de cabeceira e tirei a foto. Foi. Achei que ia render umas cem curtidas e algumas risadas. Mas o post foi longe e as pessoas começaram a me ajudar. Aliás, sou muito grata a todo mundo que sentiu que eu deveria estar lá. Isso é uma das coisas que mais me emocionaram nesta história e fico com vontade de chorar só de falar. Achei lindo o fato de entenderem como esse show era importante pra mim.

No dia do aniversário da minha mãe, o quinto desde que ela morreu, eu não esperava nada. Estava no chuveiro, ouvindo What It Feels Like For A Girl, aquela música que ela traduziu no Saia Justa e viralizou no Twitter recentemente. Logo depois entrei no X [antigo Twitter] como se não quisesse nada e estava lá a mensagem do patrocinador disponibilizando os ingressos. Na hora minha irmã virou e falou: “Você sabe quem foi, né” A gente sempre fica procurando sinais da minha mãe. Não sei se peguei isso do meu pai. Meu pai sente muito sinal por música. Em dezembro do ano passado nós estávamos em um hotel aqui do Rio para pegar o meu livro [Tudo que eu posso te contar] impresso pela primeira vez e, do nada, começou a tocar Forever Young do Alphaville. Justo a música que minha mãe sempre falou que era a nossa família. Ela sempre escutava, era nosso hino.

Como cheguei no Rio com antecedência, consegui curtir um tempo na cidade, mas meus dias foram realmente Madonna, Madonna, Madonna, Madonna. Não conseguia pensar em outra coisa, não conseguia fazer nada. Fui ao Copacabana Palace tentar ver a Madonna. No dia do show, eu estava monotemática. Minha irmã foi à praia e eu fiquei dando voltas no quarto do hotel. Mandei fazer uma bolsa e uma saia cheia de correntes, crucifixos e enfeitezinhos. Passei o dia inteiro pulando e reparando que a saia fazia muito barulho. Tentei mexer nela enquanto ouvia a Madonna. Normalmente com outros shows, mesmo dos artistas que conheço só três ou quatro músicas, já fico ansiosa. Mas dessa vez a sensação triplicou. Mal consegui comer. Pedi um bule de café no serviço de quarto, que tomei loucamente. E continuei ouvindo Madonna. “Será que já devo ir?”, “Será que já posso ir?”, era o que eu pensava a todo momento. Mandei mensagem pra minha irmã falando: “Pelo amor de Deus, volta dessa praia agora” O espaço abria às 18h, e cheguei lá nessa hora, mas chegaria muito antes se fosse possível.

Antes de o show começar, já na área vip, eu e minha irmã ficamos desconfortáveis. Tinham muitas famílias tradicionais brasileiras. Escutamos comentários desnecessários e alguns homofóbicos. Pouco antes da apresentação começar, um dos convidados da área vip me reconheceu e me chamou para ficar mais próximo do palco. Neste momento, um outro rapaz que também estava ali disse que se tivesse com uma faca mataria. A primeira coisa que pensei foi que nem mesmo no show de Madonna ficamos seguros.

Fiquei preocupada e cogitei procurar outro lugar para acompanhar a apresentação. Mas, por mais que o caso tenha sido horrível, fiquei pensando que foi bom o agressor ter assistido ao show. Também me dei conta de que, afinal, é disto que a Madonna fala: de não deixar essas pessoas nos oprimirem. Decidi: vamos ficar aqui berrando e dançando, e, se eles se incomodarem, que se mexam.

Essa é a celebração da Madonna. Fiquei eufórica quando a Madonna entrou no palco. Chorei muito. Minha irmã, preocupada, perguntou se eu estava bem, se queria sentar ou beber água. Também por isso foi tão especial poder ir ao show com ela. Somos muito diferentes. A sensação que tenho é que desde pequenas fomos pegando o que cada uma gostava para si, mas com Madonna isso não ia funcionar, ninguém ia abrir mão de amar a Madonna. Então, subconscientemente, escolhemos dividir esse amor por períodos. Óbvio que amo músicas de todas as fases, mas prefiro as canções da década de 1980, do começo da carreira. A Estela elegeu os álbuns atuais. Apesar de não ter Madonna no nome, acho que ela é mais fã que eu. Viver esse momento com ela foi muito especial, porque na minha memória, éramos nós duas no carro com a minha mãe colocando o CD da Madonna para ouvir. Ela sabe que a primeira coisa que fiz depois que a minha mãe faleceu foi ir ao meu quarto escutar Ray of Light. Então, quando a Madonna começou a cantar essa música, e eu desabei em choro, a minha irmã reconheceu o que isso significava para nós duas. Estela sabe que essa era a música que a minha mãe mais gostava de escutar e o que aquele momento no show significaria para ela.

Já faz quase 5 anos que a minha mãe faleceu, mas o luto demora para acontecer. Você acha que superou e do nada cai uma ficha de “é, acho que não”. Maio é sempre um mês difícil pra gente, porque começa com o aniversário da minha mãe e logo vem o dia das mães. É uma dobradinha de datas não divertidas nesse processo, ou até divertidas e de celebração, mas que doem ao mesmo tempo. E o show da Madonna, bem no meio disso, é como um abraço, sabe? Foi um aprendizado, foi um abraço, foi um soco na cara. Ficou um sentimento de amor imenso e gratidão. Escrevi no meu diário que fiz isso por mim e pela minha mãe, e que de alguma maneira serviu para fechar algumas feridas que ainda estavam abertas em relação a tudo o que aconteceu. E foi mágico.

(...)

 

(Cecília Madonna, Revista Piauí, 11 maio 2024 08h59)

O texto pode ser predominantemente compreendido como:
Alternativas
Q3445452 Português

“UM APRENDIZADO, UM ABRAÇO, UM SOCO NA CARA”

 

No último mês, fiquei obcecada com o show da Madonna. Pensava: preciso ir, vou de qualquer jeito. Moro em São Paulo e me questionava: Onde me hospedar no Rio de Janeiro? Com quem ir? Tentei criar um grupo com meus amigos, mas a maior parte não acompanha o trabalho da Madonna. Ninguém estava tão animado. De toda forma, me organizei e fui com minha irmã gêmea, Estela May, para o Rio no dia 30 de abril. Ao mesmo tempo, crescia em mim o sentimento de que não queria estar no show sem a minha mãe.

Teve até um momento em que bateu uma vontade imensa de voltar para São Paulo na mesma hora. Não queria mais ir, não sem a minha mãe. Foi uma obsessão tão louca que só na véspera do aniversário dela [a escritora, roteirista, atriz e apresentadora Fernanda Young, que morreu em 2019 e faria 54 no último 1º de maio] percebi que sentia que deveria estar no show da Madonna por ela. Estava muito sensível. Minha mãe sempre dizia que sou muito sensível.

Desde que o evento foi anunciado, vi muitas pessoas contando histórias relacionadas a Madonna. Pensei: “Ah, quer saber? Vou tirar uma foto que prova que meu nome é Madonna como o dela.” Peguei o meu passaporte na mesa de cabeceira e tirei a foto. Foi. Achei que ia render umas cem curtidas e algumas risadas. Mas o post foi longe e as pessoas começaram a me ajudar. Aliás, sou muito grata a todo mundo que sentiu que eu deveria estar lá. Isso é uma das coisas que mais me emocionaram nesta história e fico com vontade de chorar só de falar. Achei lindo o fato de entenderem como esse show era importante pra mim.

No dia do aniversário da minha mãe, o quinto desde que ela morreu, eu não esperava nada. Estava no chuveiro, ouvindo What It Feels Like For A Girl, aquela música que ela traduziu no Saia Justa e viralizou no Twitter recentemente. Logo depois entrei no X [antigo Twitter] como se não quisesse nada e estava lá a mensagem do patrocinador disponibilizando os ingressos. Na hora minha irmã virou e falou: “Você sabe quem foi, né” A gente sempre fica procurando sinais da minha mãe. Não sei se peguei isso do meu pai. Meu pai sente muito sinal por música. Em dezembro do ano passado nós estávamos em um hotel aqui do Rio para pegar o meu livro [Tudo que eu posso te contar] impresso pela primeira vez e, do nada, começou a tocar Forever Young do Alphaville. Justo a música que minha mãe sempre falou que era a nossa família. Ela sempre escutava, era nosso hino.

Como cheguei no Rio com antecedência, consegui curtir um tempo na cidade, mas meus dias foram realmente Madonna, Madonna, Madonna, Madonna. Não conseguia pensar em outra coisa, não conseguia fazer nada. Fui ao Copacabana Palace tentar ver a Madonna. No dia do show, eu estava monotemática. Minha irmã foi à praia e eu fiquei dando voltas no quarto do hotel. Mandei fazer uma bolsa e uma saia cheia de correntes, crucifixos e enfeitezinhos. Passei o dia inteiro pulando e reparando que a saia fazia muito barulho. Tentei mexer nela enquanto ouvia a Madonna. Normalmente com outros shows, mesmo dos artistas que conheço só três ou quatro músicas, já fico ansiosa. Mas dessa vez a sensação triplicou. Mal consegui comer. Pedi um bule de café no serviço de quarto, que tomei loucamente. E continuei ouvindo Madonna. “Será que já devo ir?”, “Será que já posso ir?”, era o que eu pensava a todo momento. Mandei mensagem pra minha irmã falando: “Pelo amor de Deus, volta dessa praia agora” O espaço abria às 18h, e cheguei lá nessa hora, mas chegaria muito antes se fosse possível.

Antes de o show começar, já na área vip, eu e minha irmã ficamos desconfortáveis. Tinham muitas famílias tradicionais brasileiras. Escutamos comentários desnecessários e alguns homofóbicos. Pouco antes da apresentação começar, um dos convidados da área vip me reconheceu e me chamou para ficar mais próximo do palco. Neste momento, um outro rapaz que também estava ali disse que se tivesse com uma faca mataria. A primeira coisa que pensei foi que nem mesmo no show de Madonna ficamos seguros.

Fiquei preocupada e cogitei procurar outro lugar para acompanhar a apresentação. Mas, por mais que o caso tenha sido horrível, fiquei pensando que foi bom o agressor ter assistido ao show. Também me dei conta de que, afinal, é disto que a Madonna fala: de não deixar essas pessoas nos oprimirem. Decidi: vamos ficar aqui berrando e dançando, e, se eles se incomodarem, que se mexam.

Essa é a celebração da Madonna. Fiquei eufórica quando a Madonna entrou no palco. Chorei muito. Minha irmã, preocupada, perguntou se eu estava bem, se queria sentar ou beber água. Também por isso foi tão especial poder ir ao show com ela. Somos muito diferentes. A sensação que tenho é que desde pequenas fomos pegando o que cada uma gostava para si, mas com Madonna isso não ia funcionar, ninguém ia abrir mão de amar a Madonna. Então, subconscientemente, escolhemos dividir esse amor por períodos. Óbvio que amo músicas de todas as fases, mas prefiro as canções da década de 1980, do começo da carreira. A Estela elegeu os álbuns atuais. Apesar de não ter Madonna no nome, acho que ela é mais fã que eu. Viver esse momento com ela foi muito especial, porque na minha memória, éramos nós duas no carro com a minha mãe colocando o CD da Madonna para ouvir. Ela sabe que a primeira coisa que fiz depois que a minha mãe faleceu foi ir ao meu quarto escutar Ray of Light. Então, quando a Madonna começou a cantar essa música, e eu desabei em choro, a minha irmã reconheceu o que isso significava para nós duas. Estela sabe que essa era a música que a minha mãe mais gostava de escutar e o que aquele momento no show significaria para ela.

Já faz quase 5 anos que a minha mãe faleceu, mas o luto demora para acontecer. Você acha que superou e do nada cai uma ficha de “é, acho que não”. Maio é sempre um mês difícil pra gente, porque começa com o aniversário da minha mãe e logo vem o dia das mães. É uma dobradinha de datas não divertidas nesse processo, ou até divertidas e de celebração, mas que doem ao mesmo tempo. E o show da Madonna, bem no meio disso, é como um abraço, sabe? Foi um aprendizado, foi um abraço, foi um soco na cara. Ficou um sentimento de amor imenso e gratidão. Escrevi no meu diário que fiz isso por mim e pela minha mãe, e que de alguma maneira serviu para fechar algumas feridas que ainda estavam abertas em relação a tudo o que aconteceu. E foi mágico.

(...)

 

(Cecília Madonna, Revista Piauí, 11 maio 2024 08h59)

Observe atentamente as proposições a seguir e depois responda o que se pede:



I. O texto apresenta um caráter intimista, expresso em linguagem bem próxima à fala e, portanto, apresenta, vez ou outra, detalhes em desacordo com a língua culta. Tais pontos servem para dar ênfase à subjetividade e aproximar os interlocutores.


II. O enredo principal do texto cede espaço para digressões que, além de familiarizar o interlocutor, servem como fio condutor que organiza e transforma sentimentos e emoções em linguagem.


III. O fato de encontrar na área várias representações das tradicionais famílias brasileiras fez com que a narradora ficasse segura para enfrentar comentários maldosos e ameaças.


IV. De acordo com o título e a história relatada, pode-se dizer que a experiência foi exitosa, não só por saciar o desejo de um fã, mas pela catarse experienciada.

Alternativas
Q3378674 Libras
O conhecimento sobre as características da surdez permite àqueles que se relacionam ou que pretendem desenvolver algum tipo de trabalho pedagógico com pessoas surdas a compreensão desse fenômeno, aumentando as possibilidades de atender às necessidades especiais constatadas. No que se refere à localização da lesão, a alteração auditiva pode ser:
Alternativas
Q3378673 Libras
Segundo Luria (1986), os processos de desenvolvimento do pensamento e da linguagem incluem o conjunto de interações entre a criança e o ambiente, podendo fatores externos afetar esses processos, positiva ou negativamente. As pessoas surdas adquirirem linguagem, assim como as ouvintes, dentre outros objetivos, para transmitir conceitos e sentimentos, além desta fornecer elementos para expandir o conhecimento. O sistema empregado pelo surdo para produção e reconhecimento da linguagem é:
Alternativas
Q3378672 Libras

De acordo com Quadros (2004), na Língua Portuguesa e na Libras, a formação de palavras/sinais é realizada por meio de processos que são basicamente os mesmos. Assinale a alternativa em que os pares foram formados pelo processo de derivação.

Alternativas
Q3378671 Libras
As Tecnologias De Informação e Comunicação (TIC) potencializaram a comunicação e o aprendizado das pessoas surdas, pois possibilitaram mais acessibilidade, bem como melhor entendimento sobre assuntos estudados em sala e tópicos veiculados na sociedade, além de ofertarem soluções para tornar tarefas do cotidiano mais fáceis e com resultados eficientes. São exemplos de tecnologias da informação especificamente voltadas para o surdo, EXCETO:
Alternativas
Q3378670 Libras
De acordo com Callow (1974), existem diversificados tipos de discurso com os quais o intérprete de Libras está constantemente em contato. Quando o profissional está atuando para interpretar uma receita culinária, por exemplo, o tipo de discurso a que ele está exposto é:
Alternativas
Q3378669 Libras
Roberts (1992) propõe várias categorias para analisar o processo de interpretação/tradução, as quais remetem ao domínio de habilidades inerentes às práticas desse profissional, ou seja, quando acionar as habilidades de: usar diferentes modos de interpretação (simultâneo, consecutivo etc); escolher o modo apropriado diante das circunstâncias; retransmitir a interpretação; encontrar o item lexical e a terminologia adequada, avaliando-os e usando-os com bom senso; recordar itens lexicais e terminologias para uso no futuro, serão aplicadas habilidades constitutivas da competência: 
Alternativas
Q3378668 Pedagogia
Tendo em vista o disposto na Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e incluído pela Lei nº 14.191/2021, marque V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas.

( ) O público-alvo da educação bilíngue é o educando surdo, surdo cego, com deficiência auditiva sinalizante, surdos com altas habilidades ou superdotação ou com outras deficiências associadas.
( ) A educação bilíngue de surdos será oferecida em Língua Brasileira de Sinais (Libras), como primeira língua, e em português escrito e oral, como segunda língua.
( ) A oferta de educação bilíngue de surdos terá início ao zero ano, na educação infantil, e se estenderá até a conclusão do ensino fundamental.
( ) Os surdos oralizados não terão direito de acesso a tecnologias assistivas e deverão obrigatoriamente matricular-se em escolas e classes regulares.
( ) Serviços de apoio educacional especializado, como o atendimento educacional especializado bilíngue, para atender às especificidades linguísticas dos estudantes surdos, serão ofertados.

A sequência está correta em
Alternativas
Q3378666 Pedagogia
A família é a primeira instituição social responsável pela efetivação dos direitos básicos das crianças. Cabe, portanto, às instituições educacionais estabelecerem um diálogo com as famílias, porque
Alternativas
Q3377122 Libras

Leia o texto a seguir.



As expressões ___________ na Libras são elementos ___________ que auxiliam na intensificação do discurso, na marcação da ___________ (negativa, afirmativa, exclamativa, interrogativa), além de, com os ___________, algumas vezes incorporados a uma unidade lexical ou à sentença completa, poder marcar o período de ocorrência de determinado fato, isto é, se o enunciado está relacionado ao passado ou ao presente.



A sequência que preenche corretamente as lacunas do texto é:

Alternativas
Q3377121 Libras

Em relação aos classificadores em Libras, assinale a alternativa incorreta.

Alternativas
Q3377120 Linguística

Analise as afirmativas a seguir relativas às variações linguísticas da Libras, sendo esta uma língua natural e que apresenta a distinção de variantes entre seus falantes.



I. As variações linguísticas distinguem-se em quatros grupos, sendo eles sociais (diastráticas), regionais (diatópicas), históricas (diacrônicas), estilísticas (diafásicas).


II. As variações linguísticas acontecem de forma natural, quando seus usuários entram em contato com outras formas de sinalização, trazendo modificações na forma e no repertório de seus sinais / léxicos.


III. As variações linguísticas possuem influência de vários fatores, como o estilo discursivo ou as práticas culturais de determinado grupo, o período histórico-temporal, as marcas linguísticas, a caracterização social dos sujeitos, a classe social.


IV. As variações linguísticas estão atreladas diretamente aos níveis fonológicos, morfológicos, sintáticos, e aos fatores sociais, como idade, nível de escolaridade e situação geográfica.



Estão corretas as afirmativas

Alternativas
Q3377119 Libras

Sobre os classificadores em Libras, assinale com V as afirmativas verdadeiras e com F as falsas.



(   ) Os classificadores podem representar formas e tamanho dos referentes, assim como o seu movimento e a localização.


(   ) Os classificadores são morfemas existentes somente nas línguas de sinais, afixados ao sistema pragmático verbal, pertencendo a várias classes gramaticais.


(   ) Os classificadores na Libras são marcadores de concordância para pessoas, animais ou coisas, sendo importantes pois auxiliam na construção da estrutura sintática da oração.


(   ) Os classificadores na Libras se dividem em descritivos, locativos, semânticos ou instrumentais.



Assinale a sequência correta.

Alternativas
Q3377118 Libras

Analise as afirmativas a seguir relativas à competência tradutória.



I. A competência tradutória é um conhecimento especializado, integrado por um conjunto de conhecimentos e habilidades, que singulariza o tradutor e o diferencia de outros falantes bilíngues não tradutores.


II. A competência tradutória é um sistema subjacente de conhecimentos, declarativos e, em maior proporção, operacionais, necessários para saber traduzir.


III. A competência tradutória é composta de cinco subcompetências: bilíngue, extralinguística, conhecimentos sobre tradução, instrumental e estratégica e de componentes psicofisiológicos.



Estão corretas as afirmativas

Alternativas
Q3377117 Libras

A respeito da Cultura Surda, numere a COLUNA II de acordo com a COLUNA I, relacionando as terminologias às suas respectivas especificidades.



COLUNA I



1. Cultura Surda


2. Povo Surdo


3. Ouvintismo


4. Comunidade Surda



COLUNA II



(   ) Conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo está obrigado a olhar-se e narrar-se como se fosse ouvinte.


(   ) Conjunto de surdos que não necessariamente vive no mesmo local, mas que compartilha traços em comum, como pontos de vista, tradições e valores que definem a cultura surda.


(   ) O modo de viver do surdo, que gira em torno de sua perspectiva visuoespacial. Só acontece quando o surdo se aceita como tal e se liberta do ouvintismo, adquirindo sua identidade surda.


(   ) Não é só constituído(a) de sujeitos surdos, há também ouvintes que participam, compartilham e lutam pelos interesses em comum.



Assinale a sequência correta.

Alternativas
Respostas
621: A
622: B
623: B
624: B
625: A
626: C
627: D
628: B
629: B
630: A
631: B
632: C
633: B
634: C
635: A
636: C
637: D
638: C
639: D
640: C