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Q3970339 Português

Texto para responder à questão.


Para que a existência valha a pena



    Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos – para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.


    Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.


    Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.


    Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui.


    Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”.


    O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador.


    Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação. Sem ter programado, a gente para pra pensar.


    Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas.


    Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.


    Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.


    Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas.


    Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.


    Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.


    Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.


    Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.


    Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.


    Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada.


    Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.


    Parece fácil: “escrever a respeito das coisas é fácil”, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.


    Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.


    Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.


    Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for. 


    E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.


 (LUFT, L. Pensar é transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2004.)

No trecho “[...] viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos – para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.” (1º§), a oração em destaque estabelece com a oração principal uma relação de:

 

Alternativas
Q3970338 Português

Texto para responder à questão.


Para que a existência valha a pena



    Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos – para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.


    Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.


    Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.


    Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui.


    Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”.


    O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador.


    Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação. Sem ter programado, a gente para pra pensar.


    Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas.


    Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.


    Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.


    Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas.


    Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.


    Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.


    Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.


    Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.


    Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.


    Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada.


    Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.


    Parece fácil: “escrever a respeito das coisas é fácil”, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.


    Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.


    Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.


    Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for. 


    E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.


 (LUFT, L. Pensar é transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2004.)

Analise o trecho a seguir: “Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.” (13º§). No trecho, a autora utiliza um recurso de linguagem para expressar a necessidade de protagonismo e profundidade na existência humana. A figura de linguagem predominante nesse recorte é: 
Alternativas
Q3970337 Português

Texto para responder à questão.


Para que a existência valha a pena



    Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos – para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.


    Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.


    Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.


    Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui.


    Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”.


    O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador.


    Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação. Sem ter programado, a gente para pra pensar.


    Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas.


    Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.


    Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.


    Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas.


    Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.


    Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.


    Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.


    Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.


    Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.


    Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada.


    Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.


    Parece fácil: “escrever a respeito das coisas é fácil”, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.


    Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.


    Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.


    Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for. 


    E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.


 (LUFT, L. Pensar é transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2004.)

No trecho “Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, [...]” (11º§), o vocábulo em destaque, considerando o contexto, assume o sentido de: 
Alternativas
Q3970336 Português

Texto para responder à questão.


Para que a existência valha a pena



    Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos – para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.


    Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.


    Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.


    Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui.


    Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”.


    O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador.


    Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação. Sem ter programado, a gente para pra pensar.


    Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas.


    Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.


    Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.


    Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas.


    Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.


    Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.


    Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.


    Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.


    Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.


    Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada.


    Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.


    Parece fácil: “escrever a respeito das coisas é fácil”, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.


    Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.


    Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.


    Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for. 


    E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.


 (LUFT, L. Pensar é transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2004.)

Releia o trecho a seguir: “Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos [...]” (1º§). A partir da leitura integral do texto e da análise da postura da autora frente ao tema, é correto inferir que essa “reinvenção”:


Alternativas
Q3970335 Português

Texto para responder à questão.


Para que a existência valha a pena



    Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos – para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.


    Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.


    Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.


    Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui.


    Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”.


    O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador.


    Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação. Sem ter programado, a gente para pra pensar.


    Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas.


    Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.


    Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.


    Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas.


    Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.


    Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.


    Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.


    Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.


    Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.


    Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada.


    Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.


    Parece fácil: “escrever a respeito das coisas é fácil”, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.


    Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.


    Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.


    Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for. 


    E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.


 (LUFT, L. Pensar é transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2004.)

No texto, a autora defende a ideia de que a existência humana não é um estado estático, mas um processo de construção contínua. De acordo com a argumentação de Lya Luft, para que a vida “valha a pena”, o indivíduo deve: 
Alternativas
Ano: 2026 Banca: COPEVE - UFMG Órgão: UFMG Prova: COPEVE - UFMG - 2026 - UFMG - Contador |
Q3969315 Administração Financeira e Orçamentária
Quanto à transparência pública, assinale com (V), diante das afirmativas verdadeiras, e (F), diante das falsas.

( ) Entre outros, os planos, orçamentos e as leis de diretrizes orçamentárias são instrumentos de transparência da gestão fiscal, aos quais será dada ampla divulgação, inclusive em meios eletrônicos de acesso público.
( ) As contas apresentadas pelo Chefe do Poder Executivo ficarão disponíveis, durante 6 metade do exercício, no respectivo Poder Legislativo e no órgão técnico responsável pela sua elaboração, para consulta e apreciação pelos cidadãos e instituições da sociedade.
( ) A prestação de contas da União conterá demonstrativos do Tesouro Nacional e das agências financeiras oficiais de fomento, excluindo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
( ) A transparência será assegurada também mediante incentivo à participação popular e realização de audiências públicas, durante os processos de elaboração e discussão dos planos, lei de diretrizes orçamentárias e orçamentos.

Assinale a sequência correta.
Alternativas
Ano: 2026 Banca: COPEVE - UFMG Órgão: UFMG Prova: COPEVE - UFMG - 2026 - UFMG - Contador |
Q3969314 Direito Financeiro
Assinale a alternativa incorreta de acordo com o que preconiza a Lei Complementar nº 101/2000, em relação às Operações de Crédito por Antecipação de Receita Orçamentária.
Alternativas
Ano: 2026 Banca: COPEVE - UFMG Órgão: UFMG Prova: COPEVE - UFMG - 2026 - UFMG - Contador |
Q3969310 Direito Financeiro
Com relação ao orçamento público, assinale a alternativa correta. 
Alternativas
Q3967450 Legislação Federal
Em relação às disposições da Lei nº 11.091/2005, que dispõe sobre a estruturação do Plano de Carreira dos Cargos Técnico-Administrativos em Educação, no âmbito das Instituições Federais de Ensino vinculadas ao Ministério da Educação, e dá outras providências, assinale a assertiva incorreta.
Alternativas
Q3967449 Direito Administrativo
Em relação ao processo administrativo disciplinar conforme os preceitos da Lei nº 8.112/1990, que dispõe sobre o regime jurídico dos servidores públicos civis da União, das autarquias e das fundações públicas federais, assinale (V) verdadeiro ou (F) falso, diante de cada afirmativa a seguir.

( ) A autoridade que tiver ciência de irregularidade no serviço público é obrigada a promover a sua apuração imediata, mediante sindicância ou processo administrativo disciplinar, assegurada ao acusado ampla defesa.

( ) Poderá participar de comissão de sindicância ou de inquérito, cônjuge, companheiro ou parente do acusado, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, desde que aprovado pela autoridade máxima do órgão ou entidade de lotação.

( ) Como medida cautelar e a fim de que o servidor não venha a influir na apuração da irregularidade, a autoridade instauradora do processo disciplinar poderá determinar o seu afastamento do exercício do cargo, pelo prazo de até 60 (sessenta) dias, com prejuízo da remuneração.

( ) O processo disciplinar será conduzido por comissão composta de três servidores estáveis designados pela autoridade competente, que indicará, dentre eles, o seu presidente, que deverá ser ocupante de cargo efetivo superior ou de mesmo nível, ou ter nível de escolaridade igual ou superior ao do indiciado.


A sequência correta é:
Alternativas
Q3967448 Direito Administrativo
Considerando as disposições da Resolução nº 04/1999, que aprova o Estatuto da Universidade Federal de Minas Gerais, assinale a assertiva incorreta.
Alternativas
Q3967447 Direito Administrativo
Considerando as disposições do Regime jurídico dos servidores públicos civis da União, das autarquias e das fundações públicas federais, Lei nº 8.112/1990, analise as seguintes informações sobre o Estágio Probatório.

I. Caso o servidor não seja aprovado no estágio probatório será exonerado ou, se estável, reconduzido ao cargo anteriormente ocupado.

II. Durante o período de estágio probatório, o servidor será avaliado para o desempenho do cargo e serão avaliados os seguintes fatores: assiduidade, disciplina, capacidade de iniciativa, produtividade e responsabilidade.

III. Ao servidor em estágio probatório poderá ser concedida, a critério da Administração, licença para tratar de interesses particulares.

IV. O servidor em estágio probatório não poderá exercer funções de direção, chefia ou assessoramento no órgão ou entidade de lotação.


Estão corretas as afirmações 
Alternativas
Q3967446 Português
Texto I


Rumo a um turboconsumidor


    Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada, desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes, podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.

    A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se, não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.

    O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”? É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas: ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.

    Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos, mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.

    A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram, sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado, observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de  

1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.

vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.

    O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade, a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que, reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.



LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)






Texto II


O Natal e o Ano Novo que a mídia vende


    Todos os anos, entre novembro e janeiro, o mesmo ritual se repete: vitrines decoradas com neve artificial em um país tropical, trilhas sonoras natalinas ecoando em shopping centers, seguidas por contagens regressivas e promessas de recomeço. Uma avalanche de campanhas publicitárias promete transformar a compra do presente perfeito em prova irrefutável de amor, enquanto o réveillon surge como palco obrigatório para demonstrar sucesso, alegria e otimismo. A imprensa, entrelaçada a esse mecanismo, atua simultaneamente como vitrine, termômetro e promotora de um fenômeno que movimenta bilhões de reais e, paradoxalmente, endivida milhões de famílias. O Natal e o Ano Novo contemporâneos, tais como nos são apresentados pelos meios de comunicação, revelam menos sobre a celebração de valores transcendentes ou sobre renovação genuína do que sobre as contradições de uma sociedade que aprendeu a confundir afeto com capacidade de consumo e esperança com poder de compra.

     A questão não é recente, mas merece ser revisitada a cada ciclo, sobretudo quando se observa o papel central que a mídia desempenha na construção e manutenção desse modelo. Não se trata apenas de publicidade explícita, aquela que reconhecemos como tal e da qual podemos, ao menos teoricamente, manter distância crítica. O incentivo ao consumo nessa temporada opera em planos mais sutis e, por isso mesmo, mais eficazes: matérias jornalísticas sobre tendências de presentes, pesquisas que revelam quanto os brasileiros pretendem gastar (criando um parâmetro de normalidade), guias de compras apresentados como serviço ao leitor, reportagens sobre destinos de réveillon e o que vestir na virada do ano, coberturas sobre a movimentação do comércio que naturalizam a equação festividades-igual-consumo. A fronteira entre conteúdo editorial e publicitário se dilui estrategicamente, e o resultado é uma narrativa coesa que transforma o ato de comprar em imperativo moral e social.

    Problematizar essa dinâmica não significa demonizar o comércio, condenar quem compra presentes  ou vai à praia na virada do ano, ou propor a extinção dessas datas como celebrações coletivas. Significa, isto sim, criar espaço para que a sociedade possa refletir criticamente sobre os significados e as práticas que construiu em torno delas. Significa reconhecer que o modelo atual serve a determinados interesses econômicos, mas não necessariamente ao bem-estar coletivo ou individual. E significa, para a imprensa em particular, assumir que seu papel não pode se limitar a ser correia de transmissão de uma lógica econômica que ela mesma, em momentos de autocrítica episódica, reconhece como problemática. Uma imprensa que naturaliza a mercantilização de todas as dimensões da vida, inclusive as mais íntimas, afetivas e relacionadas à esperança e ao futuro, contribui para a perpetuação de um modelo insustentável em múltiplas dimensões.


ALBERTONI, Ramsés. O Natal e o Ano Novo que a mídia vende. In: Observatório da Imprensa, edição 1369, 18 de dezembro de 2025. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/consumo/o-natal-e-o-ano-novo-que-a-midiavende/. Acesso em: 28 dez. 2025. (Fragmento)
A partir da relação entre os textos I e II, é correto afirmar que ambos desenvolvem uma crítica às
Alternativas
Q3967445 Português
Texto II


O Natal e o Ano Novo que a mídia vende


    Todos os anos, entre novembro e janeiro, o mesmo ritual se repete: vitrines decoradas com neve artificial em um país tropical, trilhas sonoras natalinas ecoando em shopping centers, seguidas por contagens regressivas e promessas de recomeço. Uma avalanche de campanhas publicitárias promete transformar a compra do presente perfeito em prova irrefutável de amor, enquanto o réveillon surge como palco obrigatório para demonstrar sucesso, alegria e otimismo. A imprensa, entrelaçada a esse mecanismo, atua simultaneamente como vitrine, termômetro e promotora de um fenômeno que movimenta bilhões de reais e, paradoxalmente, endivida milhões de famílias. O Natal e o Ano Novo contemporâneos, tais como nos são apresentados pelos meios de comunicação, revelam menos sobre a celebração de valores transcendentes ou sobre renovação genuína do que sobre as contradições de uma sociedade que aprendeu a confundir afeto com capacidade de consumo e esperança com poder de compra.

     A questão não é recente, mas merece ser revisitada a cada ciclo, sobretudo quando se observa o papel central que a mídia desempenha na construção e manutenção desse modelo. Não se trata apenas de publicidade explícita, aquela que reconhecemos como tal e da qual podemos, ao menos teoricamente, manter distância crítica. O incentivo ao consumo nessa temporada opera em planos mais sutis e, por isso mesmo, mais eficazes: matérias jornalísticas sobre tendências de presentes, pesquisas que revelam quanto os brasileiros pretendem gastar (criando um parâmetro de normalidade), guias de compras apresentados como serviço ao leitor, reportagens sobre destinos de réveillon e o que vestir na virada do ano, coberturas sobre a movimentação do comércio que naturalizam a equação festividades-igual-consumo. A fronteira entre conteúdo editorial e publicitário se dilui estrategicamente, e o resultado é uma narrativa coesa que transforma o ato de comprar em imperativo moral e social.

    Problematizar essa dinâmica não significa demonizar o comércio, condenar quem compra presentes  ou vai à praia na virada do ano, ou propor a extinção dessas datas como celebrações coletivas. Significa, isto sim, criar espaço para que a sociedade possa refletir criticamente sobre os significados e as práticas que construiu em torno delas. Significa reconhecer que o modelo atual serve a determinados interesses econômicos, mas não necessariamente ao bem-estar coletivo ou individual. E significa, para a imprensa em particular, assumir que seu papel não pode se limitar a ser correia de transmissão de uma lógica econômica que ela mesma, em momentos de autocrítica episódica, reconhece como problemática. Uma imprensa que naturaliza a mercantilização de todas as dimensões da vida, inclusive as mais íntimas, afetivas e relacionadas à esperança e ao futuro, contribui para a perpetuação de um modelo insustentável em múltiplas dimensões.


ALBERTONI, Ramsés. O Natal e o Ano Novo que a mídia vende. In: Observatório da Imprensa, edição 1369, 18 de dezembro de 2025. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/consumo/o-natal-e-o-ano-novo-que-a-midiavende/. Acesso em: 28 dez. 2025. (Fragmento)
A palavra ‘que’ destacada foi utilizada para retomar um termo antecedente em:
Alternativas
Q3967444 Português
Texto II


O Natal e o Ano Novo que a mídia vende


    Todos os anos, entre novembro e janeiro, o mesmo ritual se repete: vitrines decoradas com neve artificial em um país tropical, trilhas sonoras natalinas ecoando em shopping centers, seguidas por contagens regressivas e promessas de recomeço. Uma avalanche de campanhas publicitárias promete transformar a compra do presente perfeito em prova irrefutável de amor, enquanto o réveillon surge como palco obrigatório para demonstrar sucesso, alegria e otimismo. A imprensa, entrelaçada a esse mecanismo, atua simultaneamente como vitrine, termômetro e promotora de um fenômeno que movimenta bilhões de reais e, paradoxalmente, endivida milhões de famílias. O Natal e o Ano Novo contemporâneos, tais como nos são apresentados pelos meios de comunicação, revelam menos sobre a celebração de valores transcendentes ou sobre renovação genuína do que sobre as contradições de uma sociedade que aprendeu a confundir afeto com capacidade de consumo e esperança com poder de compra.

     A questão não é recente, mas merece ser revisitada a cada ciclo, sobretudo quando se observa o papel central que a mídia desempenha na construção e manutenção desse modelo. Não se trata apenas de publicidade explícita, aquela que reconhecemos como tal e da qual podemos, ao menos teoricamente, manter distância crítica. O incentivo ao consumo nessa temporada opera em planos mais sutis e, por isso mesmo, mais eficazes: matérias jornalísticas sobre tendências de presentes, pesquisas que revelam quanto os brasileiros pretendem gastar (criando um parâmetro de normalidade), guias de compras apresentados como serviço ao leitor, reportagens sobre destinos de réveillon e o que vestir na virada do ano, coberturas sobre a movimentação do comércio que naturalizam a equação festividades-igual-consumo. A fronteira entre conteúdo editorial e publicitário se dilui estrategicamente, e o resultado é uma narrativa coesa que transforma o ato de comprar em imperativo moral e social.

    Problematizar essa dinâmica não significa demonizar o comércio, condenar quem compra presentes  ou vai à praia na virada do ano, ou propor a extinção dessas datas como celebrações coletivas. Significa, isto sim, criar espaço para que a sociedade possa refletir criticamente sobre os significados e as práticas que construiu em torno delas. Significa reconhecer que o modelo atual serve a determinados interesses econômicos, mas não necessariamente ao bem-estar coletivo ou individual. E significa, para a imprensa em particular, assumir que seu papel não pode se limitar a ser correia de transmissão de uma lógica econômica que ela mesma, em momentos de autocrítica episódica, reconhece como problemática. Uma imprensa que naturaliza a mercantilização de todas as dimensões da vida, inclusive as mais íntimas, afetivas e relacionadas à esperança e ao futuro, contribui para a perpetuação de um modelo insustentável em múltiplas dimensões.


ALBERTONI, Ramsés. O Natal e o Ano Novo que a mídia vende. In: Observatório da Imprensa, edição 1369, 18 de dezembro de 2025. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/consumo/o-natal-e-o-ano-novo-que-a-midiavende/. Acesso em: 28 dez. 2025. (Fragmento)
De acordo com o texto II, qual é a função primordial da imprensa?
Alternativas
Q3967443 Português
Texto II


O Natal e o Ano Novo que a mídia vende


    Todos os anos, entre novembro e janeiro, o mesmo ritual se repete: vitrines decoradas com neve artificial em um país tropical, trilhas sonoras natalinas ecoando em shopping centers, seguidas por contagens regressivas e promessas de recomeço. Uma avalanche de campanhas publicitárias promete transformar a compra do presente perfeito em prova irrefutável de amor, enquanto o réveillon surge como palco obrigatório para demonstrar sucesso, alegria e otimismo. A imprensa, entrelaçada a esse mecanismo, atua simultaneamente como vitrine, termômetro e promotora de um fenômeno que movimenta bilhões de reais e, paradoxalmente, endivida milhões de famílias. O Natal e o Ano Novo contemporâneos, tais como nos são apresentados pelos meios de comunicação, revelam menos sobre a celebração de valores transcendentes ou sobre renovação genuína do que sobre as contradições de uma sociedade que aprendeu a confundir afeto com capacidade de consumo e esperança com poder de compra.

     A questão não é recente, mas merece ser revisitada a cada ciclo, sobretudo quando se observa o papel central que a mídia desempenha na construção e manutenção desse modelo. Não se trata apenas de publicidade explícita, aquela que reconhecemos como tal e da qual podemos, ao menos teoricamente, manter distância crítica. O incentivo ao consumo nessa temporada opera em planos mais sutis e, por isso mesmo, mais eficazes: matérias jornalísticas sobre tendências de presentes, pesquisas que revelam quanto os brasileiros pretendem gastar (criando um parâmetro de normalidade), guias de compras apresentados como serviço ao leitor, reportagens sobre destinos de réveillon e o que vestir na virada do ano, coberturas sobre a movimentação do comércio que naturalizam a equação festividades-igual-consumo. A fronteira entre conteúdo editorial e publicitário se dilui estrategicamente, e o resultado é uma narrativa coesa que transforma o ato de comprar em imperativo moral e social.

    Problematizar essa dinâmica não significa demonizar o comércio, condenar quem compra presentes  ou vai à praia na virada do ano, ou propor a extinção dessas datas como celebrações coletivas. Significa, isto sim, criar espaço para que a sociedade possa refletir criticamente sobre os significados e as práticas que construiu em torno delas. Significa reconhecer que o modelo atual serve a determinados interesses econômicos, mas não necessariamente ao bem-estar coletivo ou individual. E significa, para a imprensa em particular, assumir que seu papel não pode se limitar a ser correia de transmissão de uma lógica econômica que ela mesma, em momentos de autocrítica episódica, reconhece como problemática. Uma imprensa que naturaliza a mercantilização de todas as dimensões da vida, inclusive as mais íntimas, afetivas e relacionadas à esperança e ao futuro, contribui para a perpetuação de um modelo insustentável em múltiplas dimensões.


ALBERTONI, Ramsés. O Natal e o Ano Novo que a mídia vende. In: Observatório da Imprensa, edição 1369, 18 de dezembro de 2025. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/consumo/o-natal-e-o-ano-novo-que-a-midiavende/. Acesso em: 28 dez. 2025. (Fragmento)
Leia as seguintes assertivas:

I. A imprensa apresenta um exercício paradoxal.
II. Dissemina o superconsumo, ao mesmo tempo em que estimula o endividamento de milhões de famílias.


Considerando-se o ponto de vista defendido no texto II, o conector que estabelece relação correta entre as assertivas é: 
Alternativas
Q3967442 Português
Texto II


O Natal e o Ano Novo que a mídia vende


    Todos os anos, entre novembro e janeiro, o mesmo ritual se repete: vitrines decoradas com neve artificial em um país tropical, trilhas sonoras natalinas ecoando em shopping centers, seguidas por contagens regressivas e promessas de recomeço. Uma avalanche de campanhas publicitárias promete transformar a compra do presente perfeito em prova irrefutável de amor, enquanto o réveillon surge como palco obrigatório para demonstrar sucesso, alegria e otimismo. A imprensa, entrelaçada a esse mecanismo, atua simultaneamente como vitrine, termômetro e promotora de um fenômeno que movimenta bilhões de reais e, paradoxalmente, endivida milhões de famílias. O Natal e o Ano Novo contemporâneos, tais como nos são apresentados pelos meios de comunicação, revelam menos sobre a celebração de valores transcendentes ou sobre renovação genuína do que sobre as contradições de uma sociedade que aprendeu a confundir afeto com capacidade de consumo e esperança com poder de compra.

     A questão não é recente, mas merece ser revisitada a cada ciclo, sobretudo quando se observa o papel central que a mídia desempenha na construção e manutenção desse modelo. Não se trata apenas de publicidade explícita, aquela que reconhecemos como tal e da qual podemos, ao menos teoricamente, manter distância crítica. O incentivo ao consumo nessa temporada opera em planos mais sutis e, por isso mesmo, mais eficazes: matérias jornalísticas sobre tendências de presentes, pesquisas que revelam quanto os brasileiros pretendem gastar (criando um parâmetro de normalidade), guias de compras apresentados como serviço ao leitor, reportagens sobre destinos de réveillon e o que vestir na virada do ano, coberturas sobre a movimentação do comércio que naturalizam a equação festividades-igual-consumo. A fronteira entre conteúdo editorial e publicitário se dilui estrategicamente, e o resultado é uma narrativa coesa que transforma o ato de comprar em imperativo moral e social.

    Problematizar essa dinâmica não significa demonizar o comércio, condenar quem compra presentes  ou vai à praia na virada do ano, ou propor a extinção dessas datas como celebrações coletivas. Significa, isto sim, criar espaço para que a sociedade possa refletir criticamente sobre os significados e as práticas que construiu em torno delas. Significa reconhecer que o modelo atual serve a determinados interesses econômicos, mas não necessariamente ao bem-estar coletivo ou individual. E significa, para a imprensa em particular, assumir que seu papel não pode se limitar a ser correia de transmissão de uma lógica econômica que ela mesma, em momentos de autocrítica episódica, reconhece como problemática. Uma imprensa que naturaliza a mercantilização de todas as dimensões da vida, inclusive as mais íntimas, afetivas e relacionadas à esperança e ao futuro, contribui para a perpetuação de um modelo insustentável em múltiplas dimensões.


ALBERTONI, Ramsés. O Natal e o Ano Novo que a mídia vende. In: Observatório da Imprensa, edição 1369, 18 de dezembro de 2025. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/consumo/o-natal-e-o-ano-novo-que-a-midiavende/. Acesso em: 28 dez. 2025. (Fragmento)
A alternativa em que a palavra entre colchetes substitui a palavra destacada, sem alteração do sentido do trecho, é: 
Alternativas
Q3967441 Português
Texto I


Rumo a um turboconsumidor


    Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada, desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes, podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.

    A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se, não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.

    O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”? É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas: ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.

    Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos, mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.

    A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram, sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado, observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de  

1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.

vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.

    O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade, a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que, reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.



LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
Em relação às interpretações relativas ao último parágrafo do texto I, assinale (V), diante das verdadeiras, ou (F), diante das falsas.


( ) Quanto mais socialmente autônomo for o indivíduo, menor será sua dependência da esfera mercantil para suprir suas necessidades.

( ) A dissolução das normas coletivas e a valorização do individualismo resultaram em um indivíduo isolado, hedonista e vulnerável, frequentemente incapaz de lidar com pressões externas e impulsos internos.

( ) Observa-se uma disseminação de comportamentos desestruturados e consumos compulsivos, uma vez que a tendência ao desregramento acompanha a cultura contemporânea, marcada pela livre escolha individual nos diversos estilos de vida.

( ) Se o indivíduo possui o controle sobre a própria vida, ele não convive com as sensações de dependência e de impotência pessoal.


A sequência correta é:
Alternativas
Q3967440 Português
Texto I


Rumo a um turboconsumidor


    Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada, desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes, podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.

    A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se, não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.

    O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”? É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas: ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.

    Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos, mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.

    A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram, sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado, observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de  

1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.

vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.

    O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade, a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que, reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.



LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
Leia o seguinte trecho:

Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes, podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo.

Assinale a alternativa cuja reescrita mantém o mesmo sentido do trecho destacado.
Alternativas
Q3967439 Português
Texto I


Rumo a um turboconsumidor


    Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada, desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes, podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.

    A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se, não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.

    O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”? É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas: ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.

    Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos, mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.

    A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram, sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado, observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de  

1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.

vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.

    O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade, a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que, reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.



LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
Assinale a alternativa em que o uso de dois-pontos apresenta a síntese de um pensamento.
Alternativas
Respostas
301: D
302: A
303: B
304: D
305: E
306: C
307: D
308: A
309: D
310: C
311: C
312: A
313: D
314: C
315: D
316: A
317: B
318: B
319: C
320: C