Questões de Concurso Comentadas para furb

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Q3183479 Pedagogia
"A consciência coletiva é, por conseguinte, o conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade, formando um sistema determinado que tem vida própria. Ela é, por definição, difusa em toda a extensão da sociedade; consequentemente, não é suscetível de ser localizada" (Durkheim, 1999, p. 50). Partindo do excerto da obra Da divisão do Trabalho Social , escrita por Émile Durkheim, em 1893, podemos entender que o fundador da sociologia francesa defende a tese de que, em determinados tipos de sociedade, a consciência coletiva é o elemento fundamental para a coesão social dos indivíduos. Ora, com base no excerto e no conceito de consciência coletiva, assinale a alternativa correta que indique o fator de influência para a manutenção da consciência coletiva em diferentes tipos de sociedades:
Alternativas
Q3183478 Pedagogia
No desenvolvimento da modernidade iluminista ocidental, alguns processos sociais, ideológicos e políticos foram protagonistas do projeto civilizacional e cultural que buscou estruturar a fundação de uma nova ordem social baseada em valores seculares e humanistas.

Fonte: RANQUETAT JR, Cesar. Laicidade, laicismo e secularização: definindo e esclarecendo conceitos. Revista Sociais e Humanas, v. 21, n. 1, p. 67-75, 2008.

Como base nesta afirmação e nas concepções contidas na obra O Dossel Sagrado (1971), de autoria de Peter Berger, qual conceito se refere ao fenômeno histórico-social pelo qual setores da sociedade e da cultura são subtraídos da dominação das instituições e símbolos religiosos, caracterizando-se pelo declínio da religião e pela perda de sua posição central na vida social e institucional? 
Alternativas
Q3183477 Pedagogia
Leia os conceitos de alteridade e identidade a seguir:

A alteridade, derivada do latim "alter " (o outro), é um conceito central na BNCC. Segundo esse documento, a alteridade refere-se à qualidade do que é diferente de 'eu' ou do 'nós' e enfatiza a importância do reconhecimento e respeito às diversidades. O filósofo Emmanuel Levinas (1905-1995) destaca que a subjetividade é originariamente a abertura para o outro, constituindo-se na relação com a alteridade. Para Levinas, o outro é essencial na formação da identidade, pois é por meio do encontro com o outro que o indivíduo se reconhece e se define. A BNCC adota essa perspectiva, promovendo a alteridade como uma fonte de enriquecimento e não como uma ameaça à identidade. A identidade, por sua vez, oriunda do termo latino 'idem ' (o mesmo), é entendida na BNCC como uma construção dinâmica que inclui tanto um núcleo permanente quanto uma face flutuante. O filósofo Georg Hegel (1770-1831), em A fenomenologia do Espírito, argumenta que a consciência de si é adquirida na relação com o outro, destacando a dialética entre identidade e alteridade. Segundo Hegel, é na interação com o diferente que o indivíduo desenvolve a consciência de sua própria identidade. Com base nos conceitos citados anteriormente, à luz do contexto da BNCC, analise as seguintes afirmações:

I.A alteridade, segundo a BNCC, destaca-se como um fundamento teórico e pedagógico do Ensino Religioso, promovendo o respeito e o reconhecimento das diversidades.
II.A identidade é descrita na BNCC como uma construção fixa e inalterável, baseada exclusivamente nas tradições e costumes de origem de um grupo ou indivíduo.
III.Alteridade e identidade são categorias interligadas na BNCC, na qual a experiência da alteridade é vista como essencial para a formação de uma identidade própria.
IV.A BNCC trata a identidade como uma dimensão dinâmica que inclui tanto características permanentes quanto aspectos flutuantes, refletindo mudanças e aspirações.
V.A concepção de alteridade na BNCC sugere que a diversidade é uma ameaça à identidade, devendo ser abordada com cautela para evitar conflitos culturais e religiosos.

É correto que se afirma em:
Alternativas
Q3183455 Português
Escrever as emoções: o sentido de dar palavras à
ebulição interior

Julián Fuks


Às vezes sinto que minha filha tem escrito mais do que eu, ou tem sido mais verdadeira no que escreve. Mais imediata, talvez, no desembaraço de seus sete anos de idade. Criou agora seu caderno de sentimentos, algo como um diário ilustrado onde ela registra cada emoção forte que a acomete. Eu olho a urgência com que ela corre para o caderno, o vigor com que empunha o lápis, a concentração com que passa a ignorar tudo o que a cerca. Nada mais lhe importa nesse momento, a escrita toma toda a sua existência, e assim cada emoção turbulenta de origem se faz satisfação e leveza. Escreveu algo de essencial, traçou em linhas exatas seu sentimento, deu a uma vaga abstração sua forma concreta. Quisera eu escrever dessa maneira.

Seu caderno se inicia com a mais simples e expressiva das páginas. Tutu triste, vê-se em letras pequenas, e embaixo seu autorretrato de olhos pesados e duas lágrimas gordas sobre as bochechas. Segue ainda por afetos límpidos: Tutu animada, raivosa, impaciente, sonolenta, Tutu sem acreditar no que está acontecendo, neste caso um desenho de si boquiaberta e de olhos vidrados. Depois disso ela parece ter percebido a necessidade de explorar as causas subjacentes aos sentimentos, como Balzac alguma vez decidiu dar as raízes ocultas de cada fato. Passou a anotar coisas como "Tutu empolgada com o acampamento", e "Tutu aliviada porque um homem horrível não ganhou as eleições".

"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador". Leio essa frase em Clarice Lispector e acredito entender algo sobre minha filha, e algo sobre mim. Clarice emenda que talvez por isso tome tantos anos entre um verdadeiro escrever e outro, ainda que se empunhe o lápis todos os dias por uma vida inteira. Para mim dá-se o mesmo, alinhavo palavras sempre que me visita o caderno de sentimentos. Ali, se o tivesse, talvez me fosse mais sincero dizer: "Julián embevecido de admiração por sua filha."

Não posso, no entanto, encerrar meu comentário sobre o caso nesse ponto, porque há um acontecimento recente muito mais digno de nota do que tudo isso que contei. Lê-se numa das páginas do caderno: "Tutu infeliz porque a Peps não está sendo uma boa pessoa". Não sei qual conflito a levou a registrar palavras tão acerbas contra a irmã, decerto alguma dessas pequenezas que diariamente trovejam na relação entre as duas, precedidas e sucedidas de risos desabridos e abraços enérgicos.

Penélope não deixou passar sem vingança a acusação insolente. Enquanto folheava o caderno da irmã e tentava decifrar as palavras escritas com que já começa a se familiarizar — começa a se irmanar, eu poderia dizer — acabou calhando de rasgar uma folha, digamos sem querer. Foi tal a indignação da irmã com o gesto destrutivo que me pareceu razoável mostrar a ela a página em que Tulipa descrevera sua decepção primeira e indagar com veemência: é isso o que você deseja? Essa é a emoção que você quer provocar na sua irmã, a infelicidade? Não seria preferível criar nela uma impressão mais positiva, e constar numa página que falasse de entusiasmo, carinho, alegria?

Penélope então me encarou com olhos indecifráveis, ainda um tanto severos, e respondeu com segurança e presteza: claro que sim, dou um jeito nisso. Correu até seu quarto, fechou-se ali por alguns minutos, criou entre os que a esperávamos um momento palpável de apreensão e suspense. Retornou com o semblante desanuviado, plena de satisfação e leveza. Numa folha avulsa ela desenhara a irmã com seu inseparável caderninho nas mãos, com um largo sorriso a lhe cruzar o rosto inteiro, e delineara na ortografia atrevida de seus quatro anos: "Tutu feliz porque a Peps se comportou bem."

Não pude senão me espantar com sua intrepidez, com sua decisão de se fazer autora da página que gostaria de ver. Sua sagacidade buscara um atalho: não era preciso suscitar na irmã o devido sentimento, a ficção poderia suprir bem esse seu desejo, e ainda expor o ridículo da bronca que o pai lhe dera. Ela é uma escritora diferente de nós, foi o que pensei, talvez mais inventiva, mais livre, menos submissa às insignificâncias da realidade e às suas emoções correspondentes. E ao pensá-lo entendi que, se tivesse afinal meu próprio caderno de sentimentos, também anotaria em página nova minha profunda admiração por ela.

Um último ato encerra a história, mostrando as intrincadas relações entre ficção e realidade, ou o modo como a escrita das emoções pode alterar nossa existência no mundo, cuidando estranhamente de nos aproximar dos outros. Tulipa viu a página que a irmã depositara sobre a mesa, e sentiu que um sorriso largo lhe cruzava o rosto inteiro, sentiu uma comoção que lhe dominava o peito. Correu nesse mesmo instante para registrar o sentimento novo em seu caderno, para criar com suas mãos a exata correspondência com o desenho da irmã. Deu assim testemunho de uma ficção que se fez emoção tão verdadeira que foi capaz de coincidir com a vida. Também assim eu desejaria a minha escrita.


Disponível em:
https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-fuks/2024/10/12/escrever-as
-emocoes-o-sentido-de-dar-palavras-a-ebulicao-interior.htm. Acesso
em 18 out. 2024.
A respeito do uso da crase, analise os trechos que seguem e marque a alternativa em que seu uso é facultativo:
Alternativas
Q3182671 Pedagogia
A Cultura Digital, segundo Brackmann (2023), refere-se "à compreensão dos impactos da revolução digital e dos avanços do mundo digital na sociedade contemporânea, à construção de atitude crítica, ética e responsável em relação à multiplicidade de ofertas midiáticas e digitais". Sobre essa temática, registre V, para verdadeiras, e F, para falsas:
(__) O Letramento Digital refere-se aos diferentes modos de ler, escrever e interpretar informações, códigos e sinais, verbais e não verbais, com o uso do computador e demais dispositivos digitais.
(__) Remete às relações humanas fortemente mediadas por tecnologias e comunicações por meio digital, aproximando-se de outros conceitos como sociedade da informação, cibercultura e revolução digital.
(__) A cultura digital ensina que a utilização de dispositivos digitais em sala de aula e no cotidiano deve ser restrita, pois pode distrair os alunos e prejudicar o foco nas atividades.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
Alternativas
Q3182670 Pedagogia
Um professor de matemática deseja implementar o pensamento computacional em sua sala de aula para melhorar a compreensão de conceitos matemáticos complexos entre os alunos. Ele decide utilizar um projeto em que os alunos devem criar um algoritmo para resolver um problema de otimização envolvendo a distribuição de materiais em uma construção civil. Qual das seguintes abordagens melhor exemplifica a aplicação do pensamento computacional no contexto educacional descrito?
Alternativas
Q3182669 Pedagogia
De acordo com o Currículo de Referência em Tecnologia e Computação (CIEB) (2018, p. 17), "O termo tecnologia educacional remete a recursos tecnológicos para apoiar e aprimorar o ensino e a aprendizagem, promovendo desenvolvimento socioeducativo dos alunos e acesso à informação." Sobre tecnologias educacionais, analise as afirmativas seguintes:
I. Lápis, computador e escrita são consideradas tecnologias educacionais por serem utilizados como apoio à construção de conhecimento.
II. O uso de computador, smartphone e jogos computacionais possibilita aos estudantes experimentar alternativas variadas de aprendizagem que trabalham a capacidade de raciocínio lógico, formulação de problemas e construção de argumentações.
III. O ensino híbrido é uma abordagem pedagógica que combina atividades realizadas por meio das tecnologias digitais de informação e comunicação com atividades tradicionais de ensino, podendo ainda ter uma parte de forma remota e outra presencial.
É correto o que se afirma em:
Alternativas
Q3182668 Pedagogia
O Pensamento Computacional consiste em resolver problemas complexos utilizando conceitos fundamentais da computação, como a divisão do problema em partes menores para facilitar sua resolução. É correto afirmar que:
Alternativas
Q3182667 Pedagogia
Segundo o Currículo da Educação Básica do Sistema Municipal de Ensino de Blumenau, "o objetivo da Robótica Aplicada à Educação é instigar o estudante na identificação de situações-problema encontradas nos diversos contextos da realidade, utilizando-se do seu uso para desenvolver, junto ao professor, soluções que estimulem a curiosidade, a capacidade criativa na construção tecnológica.". Nesse contexto, analise as afirmações apresentadas a seguir:
I. A robótica educacional é limitada apenas ao ensino de programação, não proporcionando benefícios em outras áreas do conhecimento.
II. O uso de kits de robótica em sala de aula pode promover a interdisciplinaridade, pois permite a integração de conteúdos de Matemática, Ciências e Tecnologia em projetos práticos.
III. A implementação de atividades de robótica educacional exige uma formação técnica específica dos professores, sendo inviável em contextos onde os educadores não possuem essa formação.
É correto o que se afirma em:
Alternativas
Q3182666 Pedagogia
O uso das tecnologias da informação pode apoiar e enriquecer o processo de ensino-aprendizagem. Ao encontro disso, analise as afirmativas a seguir:
I. O uso das tecnologias da informação em sala de aula é exclusivamente voltado para o ensino de habilidades técnicas em informática, como programação e design gráfico.
II. A utilização de recursos digitais, como vídeos educacionais e plataformas de aprendizado online, pode facilitar a personalização do ensino, atendendo às necessidades individuais dos alunos.
III. A formação continuada dos professores em tecnologias educacionais é fundamental para que eles consigam integrar efetivamente a informática pedagógica em suas práticas de ensino.
É correto o que se afirma em:
Alternativas
Q3182665 Pedagogia
Associe a segunda coluna de acordo com a primeira, relacionando os pilares com suas respectivas definições:
Primeira coluna: pilar
1. Reconhecimento de Padrões, Decomposição, Algoritmos, Abstração
2. Letramento Digital, Cidadania Digital, Tecnologia e Sociedade
3. Representação de Dados, Hardware e Software, Comunicação e Redes

Segunda coluna: definição
(__) Cultura Digital
(__) Pensamento Computacional
(__) Tecnologia Digital
Assinale a alternativa que apresenta a correta associação entre as colunas:
Alternativas
Q3182664 Pedagogia
A Base Nacional Comum Curricular enfatiza a importância do desenvolvimento do Pensamento Computacional desde a Educação Básica. Nesse contexto, é correto afirmar que o Pensamento Computacional permite aos estudantes:
I. Aplicar métodos computacionais para resolver problemas;
II. Expandir a capacidade de abstrair, criar e lidar com problemas variados e complexos;
III. Aprender a resolver problemas de forma automatizada utilizando somente o computador.
É correto o que se afirma em:
Alternativas
Q3182663 Pedagogia
Considere as afirmativas relacionadas ao Pensamento Computacional apresentadas a seguir. Registre V para verdadeiras e F para falsas:
(__) O Pensamento Computacional pode ser utilizado dentro de outros componentes curriculares, como da Matemática e Língua Portuguesa.
(__) Para trabalhar com os componentes curriculares relacionados ao Pensamento Computacional é necessário utilizar um computador, tablet ou celular.
(__) O Pensamento Computacional compreende o ensino dos algoritmos, contas aritméticas e funções de primeiro grau.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
Alternativas
Q3182662 Pedagogia
O Pensamento Computacional está presente no Currículo da Educação Básica do Sistema Municipal de Ensino de Blumenau desde 2021 e está presente em diversos componentes curriculares, assim como é apresentado de forma isolada. No Currículo, o Pensamento Computacional é indicado como uma estratégia de ensino da Matemática, pois pode abordar diferentes objetos de conhecimento da sua matriz curricular. Nesse contexto, é correto afirmar que:
Alternativas
Q3182661 Pedagogia
Considerando a avaliação do processo educativo na perspectiva Histórico-Cultural adotada pelo Currículo de Blumenau, analise as afirmativas a seguir:
I. A avaliação tem a função de classificar e selecionar os estudantes de acordo com seu desempenho.
II. Os instrumentos de avaliação devem responder aos objetivos de aprendizagem e desenvolvimento dos objetos de conhecimento avaliados.
III. A avaliação do processo educativo orienta o planejamento do ensino, focando no progresso contínuo do aluno.
É correto o que se afiram em:
Alternativas
Q3182647 Pedagogia
O avanço da Inteligência Artificial (IA) tem provocado intensos debates sobre seus impactos na sociedade contemporânea, especialmente na educação. Em relação a este tema, analise as afirmativas:
I. A implementação de tecnologias de IA nas escolas tem evidenciado a necessidade de desenvolver novas competências digitais tanto em professores quanto em alunos.
II. O debate sobre ética e IA na educação inclui questões sobre privacidade de dados, vieses algorítmicos e equidade no acesso às tecnologias.
III. O uso de IA na educação restringe-se à automatização de tarefas administrativas, não tendo impacto direto nos processos pedagógicos.
É correto o que se afirma em:
Alternativas
Q3182642 Português

O texto a seguir servirá de base para responder à questão.



Escrever as emoções: o sentido de dar palavras à ebulição interior


Julián Fuks



Às vezes sinto que minha filha tem escrito mais do que eu, ou tem sido mais verdadeira no que escreve. Mais imediata, talvez, no desembaraço de seus sete anos de idade. Criou agora seu caderno de sentimentos, algo como um diário ilustrado onde ela registra cada emoção forte que a acomete. Eu olho a urgência com que ela corre para o caderno, o vigor com que empunha o lápis, a concentração com que passa a ignorar tudo o que a cerca. Nada mais lhe importa nesse momento, a escrita toma toda a sua existência, e assim cada emoção turbulenta de origem se faz satisfação e leveza. Escreveu algo de essencial, traçou em linhas exatas seu sentimento, deu a uma vaga abstração sua forma concreta. Quisera eu escrever dessa maneira.


Seu caderno se inicia com a mais simples e expressiva das páginas. Tutu triste, vê-se em letras pequenas, e embaixo seu autorretrato de olhos pesados e duas lágrimas gordas sobre as bochechas. Segue ainda por afetos límpidos: Tutu animada, raivosa, impaciente, sonolenta, Tutu sem acreditar no que está acontecendo, neste caso um desenho de si boquiaberta e de olhos vidrados. Depois disso ela parece ter percebido a necessidade de explorar as causas subjacentes aos sentimentos, como Balzac alguma vez decidiu dar as raízes ocultas de cada fato. Passou a anotar coisas como "Tutu empolgada com o acampamento", e "Tutu aliviada porque um homem horrível não ganhou as eleições".


"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador". Leio essa frase em Clarice Lispector e acredito entender algo sobre minha filha, e algo sobre mim. Clarice emenda que talvez por isso tome tantos anos entre um verdadeiro escrever e outro, ainda que se empunhe o lápis todos os dias por uma vida inteira. Para mim dá-se o mesmo, alinhavo palavras sempre que me visita o caderno de sentimentos. Ali, se o tivesse, talvez me fosse mais sincero dizer: "Julián embevecido de admiração por sua filha."


Não posso, no entanto, encerrar meu comentário sobre o caso nesse ponto, porque há um acontecimento recente muito mais digno de nota do que tudo isso que contei. Lê-se numa das páginas do caderno: "Tutu infeliz porque a Peps não está sendo uma boa pessoa". Não sei qual conflito a levou a registrar palavras tão acerbas contra a irmã, decerto alguma dessas pequenezas que diariamente trovejam na relação entre as duas, precedidas e sucedidas de risos desabridos e abraços enérgicos.


Penélope não deixou passar sem vingança a acusação insolente. Enquanto folheava o caderno da irmã e tentava decifrar as palavras escritas com que já começa a se familiarizar — começa a se irmanar, eu poderia dizer — acabou calhando de rasgar uma folha, digamos sem querer. Foi tal a indignação da irmã com o gesto destrutivo que me pareceu razoável mostrar a ela a página em que Tulipa descrevera sua decepção primeira e indagar com veemência: é isso o que você deseja? Essa é a emoção que você quer provocar na sua irmã, a infelicidade? Não seria preferível criar nela uma impressão mais positiva, e constar numa página que falasse de entusiasmo, carinho, alegria?


Penélope então me encarou com olhos indecifráveis, ainda um tanto severos, e respondeu com segurança e presteza: claro que sim, dou um jeito nisso. Correu até seu quarto, fechou-se ali por alguns minutos, criou entre os que a esperávamos um momento palpável de apreensão e suspense. Retornou com o semblante desanuviado, plena de satisfação e leveza. Numa folha avulsa ela desenhara a irmã com seu inseparável caderninho nas mãos, com um largo sorriso a lhe cruzar o rosto inteiro, e delineara na ortografia atrevida de seus quatro anos: "Tutu feliz porque a Peps se comportou bem."


Não pude senão me espantar com sua intrepidez, com sua decisão de se fazer autora da página que gostaria de ver. Sua sagacidade buscara um atalho: não era preciso suscitar na irmã o devido sentimento, a ficção poderia suprir bem esse seu desejo, e ainda expor o ridículo da bronca que o pai lhe dera. Ela é uma escritora diferente de nós, foi o que pensei, talvez mais inventiva, mais livre, menos submissa às insignificâncias da realidade e às suas emoções correspondentes. E ao pensá-lo entendi que, se tivesse afinal meu próprio caderno de sentimentos, também anotaria em página nova minha profunda admiração por ela.


Um último ato encerra a história, mostrando as intrincadas relações entre ficção e realidade, ou o modo como a escrita das emoções pode alterar nossa existência no mundo, cuidando estranhamente de nos aproximar dos outros. Tulipa viu a página que a irmã depositara sobre a mesa, e sentiu que um sorriso largo lhe cruzava o rosto inteiro, sentiu uma comoção que lhe dominava o peito. Correu nesse mesmo instante para registrar o sentimento novo em seu caderno, para criar com suas mãos a exata correspondência com o desenho da irmã. Deu assim testemunho de uma ficção que se fez emoção tão verdadeira que foi capaz de coincidir com a vida. Também assim eu desejaria a minha escrita.


Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-fuks/2024/10/12/escrever-as-emocoes-o-sentido-de-dar-palavras-a-ebulicao-interior.htm. Acesso em 18 out. 2024.

A respeito do uso da crase, analise os trechos que seguem e marque a alternativa em que seu uso é facultativo: 
Alternativas
Q3182639 Português

O texto a seguir servirá de base para responder à questão.



Escrever as emoções: o sentido de dar palavras à ebulição interior


Julián Fuks



Às vezes sinto que minha filha tem escrito mais do que eu, ou tem sido mais verdadeira no que escreve. Mais imediata, talvez, no desembaraço de seus sete anos de idade. Criou agora seu caderno de sentimentos, algo como um diário ilustrado onde ela registra cada emoção forte que a acomete. Eu olho a urgência com que ela corre para o caderno, o vigor com que empunha o lápis, a concentração com que passa a ignorar tudo o que a cerca. Nada mais lhe importa nesse momento, a escrita toma toda a sua existência, e assim cada emoção turbulenta de origem se faz satisfação e leveza. Escreveu algo de essencial, traçou em linhas exatas seu sentimento, deu a uma vaga abstração sua forma concreta. Quisera eu escrever dessa maneira.


Seu caderno se inicia com a mais simples e expressiva das páginas. Tutu triste, vê-se em letras pequenas, e embaixo seu autorretrato de olhos pesados e duas lágrimas gordas sobre as bochechas. Segue ainda por afetos límpidos: Tutu animada, raivosa, impaciente, sonolenta, Tutu sem acreditar no que está acontecendo, neste caso um desenho de si boquiaberta e de olhos vidrados. Depois disso ela parece ter percebido a necessidade de explorar as causas subjacentes aos sentimentos, como Balzac alguma vez decidiu dar as raízes ocultas de cada fato. Passou a anotar coisas como "Tutu empolgada com o acampamento", e "Tutu aliviada porque um homem horrível não ganhou as eleições".


"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador". Leio essa frase em Clarice Lispector e acredito entender algo sobre minha filha, e algo sobre mim. Clarice emenda que talvez por isso tome tantos anos entre um verdadeiro escrever e outro, ainda que se empunhe o lápis todos os dias por uma vida inteira. Para mim dá-se o mesmo, alinhavo palavras sempre que me visita o caderno de sentimentos. Ali, se o tivesse, talvez me fosse mais sincero dizer: "Julián embevecido de admiração por sua filha."


Não posso, no entanto, encerrar meu comentário sobre o caso nesse ponto, porque há um acontecimento recente muito mais digno de nota do que tudo isso que contei. Lê-se numa das páginas do caderno: "Tutu infeliz porque a Peps não está sendo uma boa pessoa". Não sei qual conflito a levou a registrar palavras tão acerbas contra a irmã, decerto alguma dessas pequenezas que diariamente trovejam na relação entre as duas, precedidas e sucedidas de risos desabridos e abraços enérgicos.


Penélope não deixou passar sem vingança a acusação insolente. Enquanto folheava o caderno da irmã e tentava decifrar as palavras escritas com que já começa a se familiarizar — começa a se irmanar, eu poderia dizer — acabou calhando de rasgar uma folha, digamos sem querer. Foi tal a indignação da irmã com o gesto destrutivo que me pareceu razoável mostrar a ela a página em que Tulipa descrevera sua decepção primeira e indagar com veemência: é isso o que você deseja? Essa é a emoção que você quer provocar na sua irmã, a infelicidade? Não seria preferível criar nela uma impressão mais positiva, e constar numa página que falasse de entusiasmo, carinho, alegria?


Penélope então me encarou com olhos indecifráveis, ainda um tanto severos, e respondeu com segurança e presteza: claro que sim, dou um jeito nisso. Correu até seu quarto, fechou-se ali por alguns minutos, criou entre os que a esperávamos um momento palpável de apreensão e suspense. Retornou com o semblante desanuviado, plena de satisfação e leveza. Numa folha avulsa ela desenhara a irmã com seu inseparável caderninho nas mãos, com um largo sorriso a lhe cruzar o rosto inteiro, e delineara na ortografia atrevida de seus quatro anos: "Tutu feliz porque a Peps se comportou bem."


Não pude senão me espantar com sua intrepidez, com sua decisão de se fazer autora da página que gostaria de ver. Sua sagacidade buscara um atalho: não era preciso suscitar na irmã o devido sentimento, a ficção poderia suprir bem esse seu desejo, e ainda expor o ridículo da bronca que o pai lhe dera. Ela é uma escritora diferente de nós, foi o que pensei, talvez mais inventiva, mais livre, menos submissa às insignificâncias da realidade e às suas emoções correspondentes. E ao pensá-lo entendi que, se tivesse afinal meu próprio caderno de sentimentos, também anotaria em página nova minha profunda admiração por ela.


Um último ato encerra a história, mostrando as intrincadas relações entre ficção e realidade, ou o modo como a escrita das emoções pode alterar nossa existência no mundo, cuidando estranhamente de nos aproximar dos outros. Tulipa viu a página que a irmã depositara sobre a mesa, e sentiu que um sorriso largo lhe cruzava o rosto inteiro, sentiu uma comoção que lhe dominava o peito. Correu nesse mesmo instante para registrar o sentimento novo em seu caderno, para criar com suas mãos a exata correspondência com o desenho da irmã. Deu assim testemunho de uma ficção que se fez emoção tão verdadeira que foi capaz de coincidir com a vida. Também assim eu desejaria a minha escrita.


Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-fuks/2024/10/12/escrever-as-emocoes-o-sentido-de-dar-palavras-a-ebulicao-interior.htm. Acesso em 18 out. 2024.

Leia o trecho que segue:
"Retornou com o semblante desanuviado, plena de satisfação e leveza. Numa folha avulsa ela desenhara a irmã com seu inseparável caderninho nas mãos, com um largo sorriso a lhe cruzar o rosto inteiro, e delineara na ortografia atrevida de seus quatro anos: 'Tutu feliz porque a Peps se comportou bem.'"
A respeito dos verbos em destaque:
Alternativas
Q3182601 Pedagogia
Considere as afirmativas relacionadas ao Currículo da Educação Infantil apresentadas a seguir. Registre V, para verdadeiras, e F, para falsas:


(__)O currículo da Educação Infantil é concebido como um conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a promover o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos.

(__)O currículo para a Educação Infantil envolve a indissociabilidade no cuidar e educar os bebês, as crianças bem pequenas e as crianças pequenas, respeitando suas especificidades e singularidades, seus direitos de experiências e vivências significativas, junto a outras crianças, profissionais, familiares e comunidade.

(__)A Educação Infantil é uma etapa preparatória para o Ensino Fundamental, nesse sentido o currículo deve ser organizado promovendo a aprendizagem, contribuindo para a construção de bases sólidas que apoiarão o percurso educativo nas etapas seguintes.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
Alternativas
Q3182600 Pedagogia
De acordo com Barbosa, em Por amor e por força: rotinas na educação infantil (2006), a rotina está presente nos horários, nas organizações do trabalho, nas escolhas de materiais, nas ações "reguladas por costumes e desenvolvidas em um espaço e tempo social definidos e próximos, como a casa, a comunidade ou o local de trabalho". Nesse sentido, é correto afirmar que: 
Alternativas
Respostas
14281: E
14282: A
14283: B
14284: D
14285: C
14286: E
14287: B
14288: E
14289: B
14290: B
14291: D
14292: D
14293: C
14294: A
14295: D
14296: E
14297: B
14298: A
14299: A
14300: E