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Q4443511 Literatura

Poema da minha idade


Eu carrego dentro de mim

o peso de uma idade morta, 

de uma idade sem definições e sem porquês.

Na minha face extinta,

marcada pelo tempo, 

eu trago impressos os instantes envelhecidos,

os momentos mortos, 

das coisas belas que me deslumbraram na vida.

Eu trago no meu corpo já sem formas 

vestígios da minha adolescência perdida,

Quando eu era dona dos caminhos,

soberana do tempo e dos astros. 

Nos meus olhos já sem brilho

se reflete o cansaço das viagens longas,

de roteiros intermináveis 

e sem pouso certo.

E as pegadas que vou deixando ficar pelo caminho 

vão marcando os dias, as horas, os minutos,

dos momentos que vivi no meu passado,

dentro da minha infância longínqua,

quando eu sabia conversar com as estrelas...  


Anilda Leão. Chão de pedras. Maceió: Edições Caeté, 1961.



Julgue o item a seguir, que se refere ao poema da escritora alagoana Anilda Leão. 

O enjambement (cavalgamento), identificado, por exemplo, na construção dos primeiro e segundo versos do poema, favorece o fluxo contínuo das ideias, ao mesmo tempo em que o término do primeiro verso produz uma pausa ou suspensão momentânea, contribuindo para o ritmo e para a expressividade do texto.  
Alternativas
Q4443510 Português

Poema da minha idade


Eu carrego dentro de mim

o peso de uma idade morta, 

de uma idade sem definições e sem porquês.

Na minha face extinta,

marcada pelo tempo, 

eu trago impressos os instantes envelhecidos,

os momentos mortos, 

das coisas belas que me deslumbraram na vida.

Eu trago no meu corpo já sem formas 

vestígios da minha adolescência perdida,

Quando eu era dona dos caminhos,

soberana do tempo e dos astros. 

Nos meus olhos já sem brilho

se reflete o cansaço das viagens longas,

de roteiros intermináveis 

e sem pouso certo.

E as pegadas que vou deixando ficar pelo caminho 

vão marcando os dias, as horas, os minutos,

dos momentos que vivi no meu passado,

dentro da minha infância longínqua,

quando eu sabia conversar com as estrelas...  


Anilda Leão. Chão de pedras. Maceió: Edições Caeté, 1961.



Julgue o item a seguir, que se refere ao poema da escritora alagoana Anilda Leão. 

O emprego reiterado do pronome pessoal do caso reto de primeira pessoa contribui para a construção da progressão temática do poema, em seu aspecto temporal, na medida em que destaca a presença do sujeito lírico em uma sequência de diferentes momentos de sua vida. 
Alternativas
Q4443509 Português

Poema da minha idade


Eu carrego dentro de mim

o peso de uma idade morta, 

de uma idade sem definições e sem porquês.

Na minha face extinta,

marcada pelo tempo, 

eu trago impressos os instantes envelhecidos,

os momentos mortos, 

das coisas belas que me deslumbraram na vida.

Eu trago no meu corpo já sem formas 

vestígios da minha adolescência perdida,

Quando eu era dona dos caminhos,

soberana do tempo e dos astros. 

Nos meus olhos já sem brilho

se reflete o cansaço das viagens longas,

de roteiros intermináveis 

e sem pouso certo.

E as pegadas que vou deixando ficar pelo caminho 

vão marcando os dias, as horas, os minutos,

dos momentos que vivi no meu passado,

dentro da minha infância longínqua,

quando eu sabia conversar com as estrelas...  


Anilda Leão. Chão de pedras. Maceió: Edições Caeté, 1961.



Julgue o item a seguir, que se refere ao poema da escritora alagoana Anilda Leão. 

A função poética da linguagem se sobressai, no poema, à função emotiva.
Alternativas
Q4443508 Português

Poema da minha idade


Eu carrego dentro de mim

o peso de uma idade morta, 

de uma idade sem definições e sem porquês.

Na minha face extinta,

marcada pelo tempo, 

eu trago impressos os instantes envelhecidos,

os momentos mortos, 

das coisas belas que me deslumbraram na vida.

Eu trago no meu corpo já sem formas 

vestígios da minha adolescência perdida,

Quando eu era dona dos caminhos,

soberana do tempo e dos astros. 

Nos meus olhos já sem brilho

se reflete o cansaço das viagens longas,

de roteiros intermináveis 

e sem pouso certo.

E as pegadas que vou deixando ficar pelo caminho 

vão marcando os dias, as horas, os minutos,

dos momentos que vivi no meu passado,

dentro da minha infância longínqua,

quando eu sabia conversar com as estrelas...  


Anilda Leão. Chão de pedras. Maceió: Edições Caeté, 1961.



Julgue o item a seguir, que se refere ao poema da escritora alagoana Anilda Leão. 

A recorrência, no poema, de termos que remetem a diferentes dimensões do tempo, como "instantes", "momentos", "dias", "horas" e "minutos", produz um efeito estilístico que remete à ideia de condensação da experiência de vida do sujeito lírico. 
Alternativas
Q4443507 Português

Poema da minha idade


Eu carrego dentro de mim

o peso de uma idade morta, 

de uma idade sem definições e sem porquês.

Na minha face extinta,

marcada pelo tempo, 

eu trago impressos os instantes envelhecidos,

os momentos mortos, 

das coisas belas que me deslumbraram na vida.

Eu trago no meu corpo já sem formas 

vestígios da minha adolescência perdida,

Quando eu era dona dos caminhos,

soberana do tempo e dos astros. 

Nos meus olhos já sem brilho

se reflete o cansaço das viagens longas,

de roteiros intermináveis 

e sem pouso certo.

E as pegadas que vou deixando ficar pelo caminho 

vão marcando os dias, as horas, os minutos,

dos momentos que vivi no meu passado,

dentro da minha infância longínqua,

quando eu sabia conversar com as estrelas...  


Anilda Leão. Chão de pedras. Maceió: Edições Caeté, 1961.



Julgue o item a seguir, que se refere ao poema da escritora alagoana Anilda Leão. 

No poema, os vocábulos "morta", em "idade morta", e "extinta", em "face extinta", empregados em linguagem conotativa, remetem a tempos passados da vida do sujeito lírico.
Alternativas
Q4443506 Português
    Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

    E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

    Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel. 

    Emoções indefiníveis me agitam inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração. 

    Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão. 

    (...)

    Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.  

    Repito que tudo isso continua a azucrinar-me.

    O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me. 

Graciliano Ramos. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 117-120.



Julgue o item a seguir, relativo ao excerto da obra literária São Bernardo, do alagoano Graciliano Ramos.  
No trecho "sou forçado a escrever" (segundo parágrafo), a palavra "forçado" é empregada com o mesmo sentido do vocábulo compelido. 
Alternativas
Q4443505 Português
    Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

    E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

    Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel. 

    Emoções indefiníveis me agitam inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração. 

    Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão. 

    (...)

    Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.  

    Repito que tudo isso continua a azucrinar-me.

    O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me. 

Graciliano Ramos. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 117-120.



Julgue o item a seguir, relativo ao excerto da obra literária São Bernardo, do alagoano Graciliano Ramos.  
No trecho "O nordeste não sopra" (sexto parágrafo), identifica-se o emprego de metonímia. 
Alternativas
Q4443504 Português
    Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

    E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

    Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel. 

    Emoções indefiníveis me agitam inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração. 

    Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão. 

    (...)

    Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.  

    Repito que tudo isso continua a azucrinar-me.

    O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me. 

Graciliano Ramos. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 117-120.



Julgue o item a seguir, relativo ao excerto da obra literária São Bernardo, do alagoano Graciliano Ramos.  
No trecho "um peso enorme no coração" (final do quarto parágrafo), o autor faz uso da figura de linguagem denominada sinestesia. 
Alternativas
Q4443503 Português
    Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

    E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

    Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel. 

    Emoções indefiníveis me agitam inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração. 

    Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão. 

    (...)

    Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.  

    Repito que tudo isso continua a azucrinar-me.

    O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me. 

Graciliano Ramos. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 117-120.



Julgue o item a seguir, relativo ao excerto da obra literária São Bernardo, do alagoano Graciliano Ramos.  
É possível interpretar o excerto "os sapos dormem" (sexto parágrafo) tanto em sentido denotativo quanto em sentido conotativo. 
Alternativas
Q4443502 Literatura
    Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

    E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

    Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel. 

    Emoções indefiníveis me agitam inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração. 

    Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão. 

    (...)

    Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.  

    Repito que tudo isso continua a azucrinar-me.

    O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me. 

Graciliano Ramos. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 117-120.



Julgue o item a seguir, relativo ao excerto da obra literária São Bernardo, do alagoano Graciliano Ramos.  
Predomina no quarto parágrafo a linguagem coloquial, evidenciada, principalmente, no emprego dos termos "doido" e "tagarelar".
Alternativas
Q4443501 Português
    Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

    E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

    Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel. 

    Emoções indefiníveis me agitam inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração. 

    Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão. 

    (...)

    Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.  

    Repito que tudo isso continua a azucrinar-me.

    O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me. 

Graciliano Ramos. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 117-120.



Julgue o item a seguir, relativo ao excerto da obra literária São Bernardo, do alagoano Graciliano Ramos.  
Do emprego conotativo do termo "agreste", em "a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste" (primeiro parágrafo), conclui-se que o narrador é um homem rude, rústico, sem instrução formal. 
Alternativas
Q4443500 Português
    Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

    E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

    Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel. 

    Emoções indefiníveis me agitam inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração. 

    Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão. 

    (...)

    Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.  

    Repito que tudo isso continua a azucrinar-me.

    O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me. 

Graciliano Ramos. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 117-120.



Julgue o item a seguir, relativo ao excerto da obra literária São Bernardo, do alagoano Graciliano Ramos.  
No texto, predomina a função conativa da linguagem, o que se evidencia pelo objetivo do narrador de conduzir o leitor a determinada interpretação dos fatos por meio das experiências que ele vivenciou. 
Alternativas
Q4443499 Português
    Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

    E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

    Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel. 

    Emoções indefiníveis me agitam inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração. 

    Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão. 

    (...)

    Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.  

    Repito que tudo isso continua a azucrinar-me.

    O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me. 

Graciliano Ramos. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 117-120.



Julgue o item a seguir, relativo ao excerto da obra literária São Bernardo, do alagoano Graciliano Ramos.  
Da predominância de descrições do ambiente e dos estados emocionais do personagem conclui-se que o texto, quanto à tipologia, é essencialmente descritivo e pertence ao gênero carta pessoal. 
Alternativas
Q4443498 Literatura
    Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

    E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

    Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel. 

    Emoções indefiníveis me agitam inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração. 

    Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão. 

    (...)

    Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.  

    Repito que tudo isso continua a azucrinar-me.

    O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me. 

Graciliano Ramos. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 117-120.



Julgue o item a seguir, relativo ao excerto da obra literária São Bernardo, do alagoano Graciliano Ramos.  
No trecho "Saudade? Não, não é isto: é desespero" (quarto parágrafo), verifica-se sentido antitético na relação estabelecida entre "Saudade" e "desespero".
Alternativas
Q4443497 Literatura
    Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

    E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

    Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel. 

    Emoções indefiníveis me agitam inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração. 

    Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão. 

    (...)

    Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.  

    Repito que tudo isso continua a azucrinar-me.

    O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me. 

Graciliano Ramos. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 117-120.



Julgue o item a seguir, relativo ao excerto da obra literária São Bernardo, do alagoano Graciliano Ramos.  
No sexto parágrafo, o personagem-narrador emprega a linguagem conotativa para descrever o ambiente silencioso em que refletia, tal como se observa no período "E foram tapados os buracos de grilos.". 
Alternativas
Q4443496 Português
    Conhecer o funcionamento da escrita alfabética para ler e escrever significa, principalmente, perceber as relações bastante complexas que se estabelecem entre os sons da fala (fonemas) e as letras da escrita (grafemas), o que envolve o despertar de uma consciência fonológica da linguagem. Ocorre que essas relações não são tão simples quanto as cartilhas as fazem parecer. Não há regularidades nessas relações, e elas são construídas por convenção. 

    De certa maneira, a história da escrita ilustra isso. Podemos datar as primeiras escritas da época das cavernas, quando os povos nômades deixavam pictogramas em suas paredes, que, enquanto desenhos, representavam, com suas propriedades concretas, animais, ações, perigos existentes no entorno. 

    Com o desenvolvimento do comércio, foi preciso simplificar esses desenhos. Mesmo ainda representando os objetos, esses pictogramas simplificados — os ideogramas, até hoje utilizados na escrita chinesa e japonesa, por exemplo — vão perdendo sua relação de representação icônica do objeto, tornando-se mais e mais convencionais.

    Por volta de 3.000 a. C., tanto pictogramas quanto ideogramas passaram a ser utilizados com valor fonético, cada signo representando uma sílaba. A passagem do signo-imagem ao signo-som (silabário) e o formato cuneiforme simplificado facilitaram sua expansão, e a escrita passou a cumprir funções mais ambiciosas.

    A humanidade levou milênios para inventar a relação entre um grafismo e um som, deslocando-se da representação do significado das palavras para o isolamento de um som do significante das mesmas. Também para a criança, esse não é um processo simples e breve de associação som-grafia. É um processo mais ou menos longo e bastante complexo de construção de conhecimento sobre essas convenções.  

Roxane Rojo. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social.
São Paulo: Parábola Editorial, 2009, p. 61-62 (com adaptações). 


Julgue o item seguinte, relativo a aspectos gramaticais do texto apresentado. 
Na oração introduzida pela forma verbal "deslocando-se" (último parágrafo), o sujeito é referencialmente vinculado à expressão "A humanidade", na oração principal do período.  
Alternativas
Q4443495 Português
    Conhecer o funcionamento da escrita alfabética para ler e escrever significa, principalmente, perceber as relações bastante complexas que se estabelecem entre os sons da fala (fonemas) e as letras da escrita (grafemas), o que envolve o despertar de uma consciência fonológica da linguagem. Ocorre que essas relações não são tão simples quanto as cartilhas as fazem parecer. Não há regularidades nessas relações, e elas são construídas por convenção. 

    De certa maneira, a história da escrita ilustra isso. Podemos datar as primeiras escritas da época das cavernas, quando os povos nômades deixavam pictogramas em suas paredes, que, enquanto desenhos, representavam, com suas propriedades concretas, animais, ações, perigos existentes no entorno. 

    Com o desenvolvimento do comércio, foi preciso simplificar esses desenhos. Mesmo ainda representando os objetos, esses pictogramas simplificados — os ideogramas, até hoje utilizados na escrita chinesa e japonesa, por exemplo — vão perdendo sua relação de representação icônica do objeto, tornando-se mais e mais convencionais.

    Por volta de 3.000 a. C., tanto pictogramas quanto ideogramas passaram a ser utilizados com valor fonético, cada signo representando uma sílaba. A passagem do signo-imagem ao signo-som (silabário) e o formato cuneiforme simplificado facilitaram sua expansão, e a escrita passou a cumprir funções mais ambiciosas.

    A humanidade levou milênios para inventar a relação entre um grafismo e um som, deslocando-se da representação do significado das palavras para o isolamento de um som do significante das mesmas. Também para a criança, esse não é um processo simples e breve de associação som-grafia. É um processo mais ou menos longo e bastante complexo de construção de conhecimento sobre essas convenções.  

Roxane Rojo. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social.
São Paulo: Parábola Editorial, 2009, p. 61-62 (com adaptações). 


Julgue o item seguinte, relativo a aspectos gramaticais do texto apresentado. 
Classifica-se como composto o sujeito da primeira oração do quarto parágrafo. 
Alternativas
Q4443494 Português
    Conhecer o funcionamento da escrita alfabética para ler e escrever significa, principalmente, perceber as relações bastante complexas que se estabelecem entre os sons da fala (fonemas) e as letras da escrita (grafemas), o que envolve o despertar de uma consciência fonológica da linguagem. Ocorre que essas relações não são tão simples quanto as cartilhas as fazem parecer. Não há regularidades nessas relações, e elas são construídas por convenção. 

    De certa maneira, a história da escrita ilustra isso. Podemos datar as primeiras escritas da época das cavernas, quando os povos nômades deixavam pictogramas em suas paredes, que, enquanto desenhos, representavam, com suas propriedades concretas, animais, ações, perigos existentes no entorno. 

    Com o desenvolvimento do comércio, foi preciso simplificar esses desenhos. Mesmo ainda representando os objetos, esses pictogramas simplificados — os ideogramas, até hoje utilizados na escrita chinesa e japonesa, por exemplo — vão perdendo sua relação de representação icônica do objeto, tornando-se mais e mais convencionais.

    Por volta de 3.000 a. C., tanto pictogramas quanto ideogramas passaram a ser utilizados com valor fonético, cada signo representando uma sílaba. A passagem do signo-imagem ao signo-som (silabário) e o formato cuneiforme simplificado facilitaram sua expansão, e a escrita passou a cumprir funções mais ambiciosas.

    A humanidade levou milênios para inventar a relação entre um grafismo e um som, deslocando-se da representação do significado das palavras para o isolamento de um som do significante das mesmas. Também para a criança, esse não é um processo simples e breve de associação som-grafia. É um processo mais ou menos longo e bastante complexo de construção de conhecimento sobre essas convenções.  

Roxane Rojo. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social.
São Paulo: Parábola Editorial, 2009, p. 61-62 (com adaptações). 


Julgue o item seguinte, relativo a aspectos gramaticais do texto apresentado. 
A última oração do quarto parágrafo vincula-se à anterior por coordenação assindética. 
Alternativas
Q4443493 Português
    Conhecer o funcionamento da escrita alfabética para ler e escrever significa, principalmente, perceber as relações bastante complexas que se estabelecem entre os sons da fala (fonemas) e as letras da escrita (grafemas), o que envolve o despertar de uma consciência fonológica da linguagem. Ocorre que essas relações não são tão simples quanto as cartilhas as fazem parecer. Não há regularidades nessas relações, e elas são construídas por convenção. 

    De certa maneira, a história da escrita ilustra isso. Podemos datar as primeiras escritas da época das cavernas, quando os povos nômades deixavam pictogramas em suas paredes, que, enquanto desenhos, representavam, com suas propriedades concretas, animais, ações, perigos existentes no entorno. 

    Com o desenvolvimento do comércio, foi preciso simplificar esses desenhos. Mesmo ainda representando os objetos, esses pictogramas simplificados — os ideogramas, até hoje utilizados na escrita chinesa e japonesa, por exemplo — vão perdendo sua relação de representação icônica do objeto, tornando-se mais e mais convencionais.

    Por volta de 3.000 a. C., tanto pictogramas quanto ideogramas passaram a ser utilizados com valor fonético, cada signo representando uma sílaba. A passagem do signo-imagem ao signo-som (silabário) e o formato cuneiforme simplificado facilitaram sua expansão, e a escrita passou a cumprir funções mais ambiciosas.

    A humanidade levou milênios para inventar a relação entre um grafismo e um som, deslocando-se da representação do significado das palavras para o isolamento de um som do significante das mesmas. Também para a criança, esse não é um processo simples e breve de associação som-grafia. É um processo mais ou menos longo e bastante complexo de construção de conhecimento sobre essas convenções.  

Roxane Rojo. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social.
São Paulo: Parábola Editorial, 2009, p. 61-62 (com adaptações). 


Julgue o item seguinte, relativo a aspectos gramaticais do texto apresentado. 
No terceiro parágrafo, as formas verbais "representando", "vão perdendo" e "tornando-se" integram orações reduzidas de gerúndio. 
Alternativas
Q4443492 Português
    Conhecer o funcionamento da escrita alfabética para ler e escrever significa, principalmente, perceber as relações bastante complexas que se estabelecem entre os sons da fala (fonemas) e as letras da escrita (grafemas), o que envolve o despertar de uma consciência fonológica da linguagem. Ocorre que essas relações não são tão simples quanto as cartilhas as fazem parecer. Não há regularidades nessas relações, e elas são construídas por convenção. 

    De certa maneira, a história da escrita ilustra isso. Podemos datar as primeiras escritas da época das cavernas, quando os povos nômades deixavam pictogramas em suas paredes, que, enquanto desenhos, representavam, com suas propriedades concretas, animais, ações, perigos existentes no entorno. 

    Com o desenvolvimento do comércio, foi preciso simplificar esses desenhos. Mesmo ainda representando os objetos, esses pictogramas simplificados — os ideogramas, até hoje utilizados na escrita chinesa e japonesa, por exemplo — vão perdendo sua relação de representação icônica do objeto, tornando-se mais e mais convencionais.

    Por volta de 3.000 a. C., tanto pictogramas quanto ideogramas passaram a ser utilizados com valor fonético, cada signo representando uma sílaba. A passagem do signo-imagem ao signo-som (silabário) e o formato cuneiforme simplificado facilitaram sua expansão, e a escrita passou a cumprir funções mais ambiciosas.

    A humanidade levou milênios para inventar a relação entre um grafismo e um som, deslocando-se da representação do significado das palavras para o isolamento de um som do significante das mesmas. Também para a criança, esse não é um processo simples e breve de associação som-grafia. É um processo mais ou menos longo e bastante complexo de construção de conhecimento sobre essas convenções.  

Roxane Rojo. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social.
São Paulo: Parábola Editorial, 2009, p. 61-62 (com adaptações). 


Julgue o item seguinte, relativo a aspectos gramaticais do texto apresentado. 
Na oração "simplificar esses desenhos" (terceiro parágrafo), o sujeito está posposto ao verbo. 
Alternativas
Respostas
21: C
22: E
23: E
24: C
25: C
26: C
27: C
28: E
29: C
30: E
31: E
32: E
33: E
34: E
35: E
36: C
37: C
38: E
39: E
40: E