De acordo como texto, assinale a alternativa que correspond...
LOUCURA MANSA
Para mim é difícil falar simplesmente de gosto pelos livros, porque em matéria de livros meu caso é muito mais grave: é um amor que vem desde a infância, que me tem proporcionado a vida inteira e, ainda acima disso, é incurável. Não se trata por isso de um interesse periférico, e o prazer que me tem acompanhado em todo este longo percurso faz com que tenha procurado, permanentemente, desejar que muito mais pessoas possam também desfrutá-lo. Daí eu aproveitar qualquer oportunidade que me surja (e esta espero que seja uma delas) para inocular o vírus do amor ao livro em todos os possíveis leitores que já não o tenham adquirido anteriormente.
O prazer que o livro pode trazer tem múltiplos aspetos. O primeiro, fundamental, que é óbvio, mas muita gente não se dá conta disso, é o da leitura, através da qual se estabelece um contato com o mundo exterior que abre, para o leitor, horizontes ilimitados. O livro informa, distrai, enriquece o espírito, põe a imaginação em movimento, provoca tanto reflexão como emoção; é, enfim, um grande companheiro. Companheiro ideal, aliás, pois está sempre à disposição, não cria problemas, não se ofende quando é esquecido, e se deixa retomar sem histórias, a qualquer hora do dia ou da noite que o leitor deseja.
Brincadeira à parte, creio que a utilidade do livro é indiscutível, pois dá permanência ao pensamento humano. Sem o livro, não teríamos chegado a conhecer a obra dos filósofos, dramaturgos e cientistas da Antiguidade e da Idade Média. A invenção dos tipos móveis por Gutenberg no século XV, permitindo o surgimento do livro impresso, foi uma revolução comparável, e diria mesmo até superior, à que resultou da informática, pelo menos até agora.
De lá para cá, foram se formando as grandes bibliotecas, e aí surge o segundo prazer: possuir o livro, que, além do conteúdo, também pode ser apreciado como objeto de arte, pela ilustração, diagramação, papel, tipografia ou encadernação. O primeiro que se adquire provoca a busca de outros, e, em pouco tempo, começa a formar-se a biblioteca, em que por sua vez se formam as mais variadas coleções: autores, assuntos, edições, raridades, manuscritos, e muitos et ceteras.
Há o prazer intelectual da leitura, e o prazer físico do contato com o livro. Falo sempre de loucura mansa, e posso assegurar que não é só mansa: é também prazerosa. Sugiro a quem ainda não a tenha que procure contraí-la.
(José Mindlin. In: Júlio Silveira e Martha Ribas, Org. A paixão pelos livros. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2004. P. 15-6.)
Gabarito comentado
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Gabarito: C
Tema central: Interpretação de Texto. Essa competência exige perceber tanto ideias explícitas quanto sentimentos subentendidos, além de analisar coerência, coesão e semântica, conforme explicitam gramáticas como a de Celso Cunha & Lindley Cintra.
Justificativa da alternativa correta (C):
O texto afirma: “é um amor que vem desde a infância, que me tem proporcionado a vida inteira e, ainda acima disso, é incurável”. O autor utiliza metáforas — "loucura mansa" e "incurável" — para reforçar o sentimento intenso, prazeroso e permanente em relação aos livros, desde sua infância. Esta construção, claramente, demonstra amor profundo e duradouro, indo além de mero interesse ou momentos passageiros. A resposta correta, portanto, é a alternativa C.
Análise das alternativas incorretas:
A) Errada. O texto nega um simples interesse: “difícil falar simplesmente de gosto pelos livros”. Sentimento muito mais intenso.
B) Errada. O autor diz ser “incurável”, logo, não é temporário.
D) Errada. “Companheiro ideal” revela vínculo emocional, não apenas entretenimento.
E) Errada. O texto fala em prazer na leitura, jamais como obrigação.
Estratégia de Interpretação:
Fique atento a expressões-chave que revelam sentimentos (“amor desde a infância”, “incurável”, “prazer”), a adjetivos intensificadores e ao que o autor nega ou enfatiza no texto ao construir seu ponto de vista. Pegadinhas comuns: palavras como “simples”, “temporário”, “obrigação”, quando o texto claramente indica o oposto.
Coesão e coerência estão bem estabelecidas: o texto articula de modo sólido os motivos pelos quais o autor valoriza os livros, unindo argumentos afetivos, intelectuais e até físicos, garantindo lógica interna em toda a argumentação.
Referência: Em "Ler e Compreender" (Koch & Elias), entende-se que identificar sentimentos principais exige observar marcações explícitas e implícitas no texto, além de analisar o campo semântico em torno das principais palavras.
Em resumo: o autor tem um amor profundo e incurável pelos livros. Resposta: C.
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