“Quanto ao poder, ele navega para longe da rua e do mercado...
Em novembro de 2025, em Belém (PA), a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) reuniu Estados-membros, atores da sociedade civil, povos indígenas, comunidade científica e representantes do setor produtivo para avaliar e redefinir compromissos relacionados ao enfrentamento das mudanças climáticas. Entre os temas discutidos no contexto da Conferência, esteve a “pegada ambiental” da indústria tecnológica, especialmente aquela associada às Big Techs, cujo impacto ambiental se expressa no consumo intensivo de energia e de recursos naturais locais, impulsionado pela expansão da infraestrutura digital e da Inteligência Artificial (IA).
À luz dos argumentos desenvolvidos por Zygmunt Bauman acerca das transformações do poder na contemporaneidade, avalie o que se afirma.
I- O poder exercido pelas Big Techs exemplifica a extraterritorialidade característica da modernidade líquida, tal como descrita por Bauman, na medida em que seus fluxos de capital, dados e decisões operam em redes globais, escapando às jurisdições territoriais dos Estados-nação e dificultando a atribuição de responsabilidades ambientais diretas.
II- A estratégia de fuga e evitação própria do poder líquido, segundo Bauman, mostra-se limitada, pois os Estados-Nação – apoiados em agências reguladoras territorialmente estáveis – preservariam a capacidade decisiva de controlar, fiscalizar e sancionar as Big Techs por seus impactos ambientais.
III- A crescente dependência da IA em relação a recursos energéticos e minerais tende a fortalecer a solidez das instituições ambientais globais, na medida em que os acordos multilaterais têm conseguido submeter o poder corporativo global das Big Techs a regras estáveis e coercitivas.
IV- O impacto ambiental das Big Techs evidencia uma contradição central da modernidade líquida: a exaltação da liberdade, da mobilidade e da conectividade ilimitadas colide com a incapacidade política de controlar as consequências materiais, sociais e ecológicas dessa expansão.
V- Fóruns multilaterais como a COP30 podem ser compreendidos, à luz de Bauman, como instrumentos capazes de recompor a solidez perdida da política moderna, ao converter o poder fluido das redes digitais globais em compromissos jurídicos estáveis, passíveis de fiscalização efetiva pelos Estados-Nação.
Está correto apenas o que se afirma em
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Gabarito: A
Fundamento decisivo: O núcleo decisivo está no trecho de Bauman: o poder desloca-se para a extraterritorialidade, age por fuga, evitação e descompromisso e fica fora do alcance do controle cidadão. No enunciado, isso é aplicado às Big Techs e à governança climática; por isso, são compatíveis as assertivas que reconhecem esse poder fluido e a dificuldade de controle político efetivo, como I e IV.
- Quando o texto-base de Bauman destacar extraterritorialidade, fuga e evitação, descarte assertivas que falem em controle político territorial pleno ou preservado.
- Se a alternativa transformar fóruns multilaterais em solução suficiente para recompor a solidez da política, ela excede o diagnóstico baumaniano dado na base.
- Em questões aplicadas, use o caso concreto apenas para reconhecer o conceito central; aqui, Big Techs e impactos ambientais servem para ilustrar a dissociação entre poder global e política territorial.
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