“Quanto ao poder, ele navega para longe da rua e do mercado...

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Q3879880 Sociologia
“Quanto ao poder, ele navega para longe da rua e do mercado, das assembleias e dos parlamentos, dos governos locais e nacionais, para além do alcance do controle dos cidadãos, para a extraterritorialidade das redes eletrônicas. Os princípios estratégicos favoritos dos poderes existentes hoje em dia são fuga, evitação e descompromisso, e sua condição ideal é a invisibilidade. Tentativas de prever seus movimentos e as consequências não previstas de seus movimentos (…) têm uma eficácia prática semelhante à da ‘Liga para Impedir Mudanças Meteorológicas’” (Bauman, 2001, p. 50).
Em novembro de 2025, em Belém (PA), a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) reuniu Estados-membros, atores da sociedade civil, povos indígenas, comunidade científica e representantes do setor produtivo para avaliar e redefinir compromissos relacionados ao enfrentamento das mudanças climáticas. Entre os temas discutidos no contexto da Conferência, esteve a “pegada ambiental” da indústria tecnológica, especialmente aquela associada às Big Techs, cujo impacto ambiental se expressa no consumo intensivo de energia e de recursos naturais locais, impulsionado pela expansão da infraestrutura digital e da Inteligência Artificial (IA).
À luz dos argumentos desenvolvidos por Zygmunt Bauman acerca das transformações do poder na contemporaneidade, avalie o que se afirma.

I- O poder exercido pelas Big Techs exemplifica a extraterritorialidade característica da modernidade líquida, tal como descrita por Bauman, na medida em que seus fluxos de capital, dados e decisões operam em redes globais, escapando às jurisdições territoriais dos Estados-nação e dificultando a atribuição de responsabilidades ambientais diretas.
II- A estratégia de fuga e evitação própria do poder líquido, segundo Bauman, mostra-se limitada, pois os Estados-Nação – apoiados em agências reguladoras territorialmente estáveis – preservariam a capacidade decisiva de controlar, fiscalizar e sancionar as Big Techs por seus impactos ambientais.
III- A crescente dependência da IA em relação a recursos energéticos e minerais tende a fortalecer a solidez das instituições ambientais globais, na medida em que os acordos multilaterais têm conseguido submeter o poder corporativo global das Big Techs a regras estáveis e coercitivas.
IV- O impacto ambiental das Big Techs evidencia uma contradição central da modernidade líquida: a exaltação da liberdade, da mobilidade e da conectividade ilimitadas colide com a incapacidade política de controlar as consequências materiais, sociais e ecológicas dessa expansão.
V- Fóruns multilaterais como a COP30 podem ser compreendidos, à luz de Bauman, como instrumentos capazes de recompor a solidez perdida da política moderna, ao converter o poder fluido das redes digitais globais em compromissos jurídicos estáveis, passíveis de fiscalização efetiva pelos Estados-Nação.

Está correto apenas o que se afirma em
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O núcleo decisivo está no trecho de Bauman: o poder desloca-se para a extraterritorialidade, age por fuga, evitação e descompromisso e fica fora do alcance do controle cidadão. No enunciado, isso é aplicado às Big Techs e à governança climática; por isso, são compatíveis as assertivas que reconhecem esse poder fluido e a dificuldade de controle político efetivo, como I e IV.

Tema central: Poder extraterritorial
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está certa porque reúne as duas assertivas compatíveis com o diagnóstico baumaniano. Em I, a atuação das Big Techs por fluxos globais de capital, dados e decisões corresponde à extraterritorialidade do poder e à dificuldade de responsabilização direta, exatamente no sentido de um poder que escapa às jurisdições territoriais clássicas. Em IV, aparece a consequência desse mesmo quadro: a expansão da mobilidade, da conectividade e da liberdade de circulação colide com a incapacidade política de controlar seus efeitos materiais, sociais e ecológicos. O critério que sustenta as duas é a dissociação entre poder global fluido e política territorialmente limitada.
B
Errada
Está errada porque depende de II e V. A II contraria Bauman ao afirmar que os Estados-nação, apoiados em agências reguladoras estáveis, preservariam capacidade decisiva de controlar, fiscalizar e sancionar as Big Techs; o trecho-base aponta justamente o esvaziamento desse alcance diante de um poder extraterritorial. A V também erra ao atribuir a fóruns multilaterais como a COP30 a capacidade de recompor a solidez perdida da política moderna e converter poder fluido em compromissos efetivamente estáveis e fiscalizáveis pelos Estados, conclusão que a base afasta.
C
Errada
Está errada porque tanto II quanto III são incompatíveis com o núcleo conceitual do texto. A II superestima a capacidade estatal territorial de conter um poder que, em Bauman, opera por fuga e evitação. A III erra ao dizer que acordos multilaterais têm conseguido submeter o poder corporativo global das Big Techs a regras estáveis e coercitivas, o que contraria a ideia de fluidez, evasão e dificuldade de controle político efetivo.
D
Errada
Está errada porque, embora I e IV estejam corretas, a presença de III invalida a alternativa. O problema específico de III é presumir fortalecimento da solidez das instituições ambientais globais e submissão bem-sucedida do poder corporativo global a regras estáveis e coercitivas, leitura oposta ao diagnóstico baumaniano adotado na questão.
E
Errada
Está errada porque II, III e V caminham na mesma direção contrária à base. II presume preservação decisiva do controle estatal territorial; III presume contenção estável e coercitiva do poder corporativo global por acordos multilaterais; V presume que fóruns como a COP30 recompõem a solidez da política moderna. Todas essas formulações negam o ponto central de Bauman: o poder tornou-se extraterritorial, fluido e evasivo em relação ao controle político clássico.
Pegadinha da questão
A confusão explorada foi tomar a existência de regulação, agências estatais e conferências multilaterais como prova de controle efetivo, estável e coercitivo sobre um poder global que, em Bauman, justamente escapa desse enquadramento.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o texto-base de Bauman destacar extraterritorialidade, fuga e evitação, descarte assertivas que falem em controle político territorial pleno ou preservado.
  • Se a alternativa transformar fóruns multilaterais em solução suficiente para recompor a solidez da política, ela excede o diagnóstico baumaniano dado na base.
  • Em questões aplicadas, use o caso concreto apenas para reconhecer o conceito central; aqui, Big Techs e impactos ambientais servem para ilustrar a dissociação entre poder global e política territorial.

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