A fé dos digitais, de acordo com De Masi: 

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Q4326905 Português
O texto a seguir é referência para a questão.

    Os digitais não acreditam no crescimento infinito da economia ocidental; entre eles se espalhou a notícia de que existem limites para o desenvolvimento. Têm uma atitude bastante positiva em relação à vida e ao destino do planeta e da humanidade. Sabem que em algum lugar – talvez em Boston, em Tóquio ou em Cupertino – o progresso da tecnologia, da farmacologia, da cirurgia, da biotecnologia, da nanotecnologia e da inteligência artificial está preparando medicamentos e próteses prodigiosas com os quais se pode prolongar e melhorar a própria saúde. Tendem a acreditar, em suma, que, graças ao progresso científico e à criatividade, os instintos vitais, no fim, prevalecerão sobre os autodestrutivos. Até porque, sendo jovens, diferentemente de seus pais e avós, não experimentaram diretamente nem o fascismo nem a guerra. Têm quase a ideia e a ilusão de que não pode surgir outro fascismo ou estourar outra guerra: você pode fechar os portos aos migrantes, pode fazer o que quiser, mas, no fim, chega-se a um acordo. A guerra e a ditadura, para eles, são algo que está em outro lugar, num Terceiro Mundo ou num Oriente de qualquer modo distante. Talvez, quem sabe, sejam só fake news.
    São predominantemente jovens e já estão em toda parte. A maior concentração é no Ocidente, mas, com o crescimento da população jovem, cresce o número de digitais na Índia, na China, na África do Sul, aonde quer que a internet chegue.
    Os digitais têm uma familiaridade com a informática e com a virtualidade que torna as relações interpessoais cada vez mais abstratas, mas ao mesmo tempo enriquece os sentidos com novas dimensões, ainda que a visão e a audição sejam estimuladas muito mais que o paladar e o olfato. Apreciam e vivem como algo completamente normal a onipresença permitida pela informática e pelos novos meios de transporte cada vez mais rápidos e menos dispendiosos. A maioria dos digitais fala mais de um idioma, sendo um deles quase sempre o inglês, usado como se fosse uma metalinguagem para ouvir uma música, para abordar uma pessoa para fins comerciais ou por razões eróticas. Encaram com naturalidade a globalização: nem se perguntam de onde vem uma roupa. Além disso, estão acostumados a ir de um país a outro da Europa sem mostrar o passaporte e sem mudar de moeda. Adotam o controle de natalidade já desembaraçado de qualquer significado ético. Aceitam a igualdade de oportunidades: as mulheres, com entusiasmo, os homens, com resignação. Confiam na engenharia genética e nos novos medicamentos, que permitem vencer as doenças e modificar o corpo humano e seu destino biológico. Tendem a várias formas de secularização; não são mais tão influenciados pela fé em algo além: têm como pressuposto, em vez disso, que é aqui na Terra que o jogo acontece. Temem mais o aquecimento global que o fogo do inferno, por isso são sensíveis à ecologia e à sustentabilidade. Não fazem muita distinção entre dias úteis e feriados oficiais; se dependesse deles, o debate se as lojas devem abrir ou não aos domingos não existiria. Enquanto a sociedade industrial fez com que nós, analógicos, nos acostumássemos a distinguir claramente as oito horas de trabalho, as oito de tempo livre e as oito de cuidado pessoal e sono, os digitais não fazem muita distinção entre as atividades de estudo, de trabalho e de lazer. Praticam o que chamo de ócio criativo, isto é, um tipo de atividade no qual é difícil saber se a pessoa está trabalhando, estudando ou se divertindo. Diferentemente de seus pais e avós, não amam o trabalho incondicionalmente, não o consideram como o fator central da própria existência, não lhe atribuem significados carregados de sacrifício, dever, orgulho; dão a ele mais ou menos a mesma importância que reservam ao tempo livre. Frequentemente acostumados com o trabalho precário, habituaram-se a combinar períodos de trabalho ocasional com fases de estudo, viagem, tempo com a família e com os amigos.


De Masi, Domenico. O mundo ainda é jovem. Conversas sobre o futuro próximo. São Paulo: Vestígio, 2019.  
A fé dos digitais, de acordo com De Masi: 
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: “Tendem a várias formas de secularização; não são mais tão influenciados pela fé em algo além: têm como pressuposto, em vez disso, que é aqui na Terra que o jogo acontece.” A expressão comparativa “não são mais tão influenciados” indica redução, e “em vez disso” contrapõe transcendência e vida terrena; esse é o critério textual decisivo para a alternativa B.

Tema central: Redução da influência religiosa
Análise das alternativas
A
Errada
Confunde confiança no progresso científico com fé religiosa, caracterizada no trecho decisivo como “fé em algo além”. Além disso, os avanços científicos são associados à melhoria e ao prolongamento da saúde, não a uma fé baseada em privilégios.
B
Certa
A alternativa B reúne duas inferências autorizadas: a fé religiosa exerce menor influência sobre os digitais, e suas expectativas se concentram mais na existência terrena. Embora o texto não empregue literalmente os termos ceticismo e materialismo, eles expressam, nesse contexto, menor adesão à transcendência e maior orientação para a realidade concreta — não ateísmo absoluto, consumismo ou adesão explícita a doutrinas filosóficas.
C
Errada
O temor do aquecimento global explica a sensibilidade à ecologia e à sustentabilidade. Essa preocupação com ameaças terrenas não permite concluir que o meio ambiente e as mudanças climáticas tenham se tornado objetos de fé.
D
Errada
A menor influência da fé não comprova que a crença na existência divina continue profundamente arraigada. O texto também não caracteriza essa crença como menos radical: redução da influência religiosa e grau de radicalismo não são a mesma afirmação.
E
Errada
Transforma redução em extinção: “não são mais tão influenciados” não significa que a fé inexista. Também cria uma causa não estabelecida pelo texto, que não atribui à globalização a eliminação da fé.
Pegadinha da questão
Confundir fé religiosa com confiança na ciência ou preocupação ambiental e interpretar menor influência como ausência absoluta. Em B, ceticismo e materialismo têm alcance contextual limitado, não equivalem a ateísmo ou filiação filosófica.
Dica para questões semelhantes
  • Preserve a intensidade da afirmação textual: menor influência não autoriza concluir inexistência.
  • Diferencie fé religiosa, confiança científica e preocupação ambiental conforme o objeto de cada uma.
  • Quando a alternativa usar termos ausentes do texto, verifique se eles traduzem uma relação de sentido autorizada, sem acrescentar uma classificação mais forte.
  • Observe oposições como “em vez disso”: aqui, ela desloca a orientação da transcendência para a vida terrena.

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Comentários

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GAB B

"não são mais tão influenciados pela fé em algo além..."

A banca tomou a palavra "fé" na questão em seu sentido estrito (religião).

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