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Q1163985 Português

Estilos da vida


      Você se lembra daqueles personagens de quadrinhos que são impiedosamente seguidos por uma nuvem preta, que é uma espécie de guarda-chuva ao contrário? Eles não têm para onde fugir: deslocam-se, mas a chuva os persegue, mesmo debaixo do teto de sua casa.

      Claro, no outro extremo do leque há pessoas que são seguidas por um sol esplendoroso, mesmo quando estão no escuro ou no meio de um desastre que deveria empalidecer a luz do dia (se ela tivesse vergonha na cara).

      Em suma, cada um de nós parece estar sempre numa condição meteorológica que lhe é própria e não depende nem da estação nem dos acontecimentos do momento. [...]

      Talvez sejamos um pouco mais livres para escolher o estilo da vida que levaremos, seja qual for nosso pano de fundo.

      Geralmente, por estilo DE vida, entende-se um modelo que a gente imita para construir uma identidade e propô-la aos olhos dos outros. Mas o estilo DA vida, que é o que me interessa hoje, é outra coisa: é a forma literária na qual cada um narra sua própria vida, para si mesmo e para os outros. Um exemplo.

      Acabo de ler (e continuarei relendo por um bom tempo) “The Book of Dreams” (o livro dos sonhos), de Federico Fellini (ed. Rizzoli). São mais de 400 páginas, em grande formato, que reproduzem fotograficamente os cadernos nos quais o diretor italiano registrou seus sonhos, em palavras e desenhos, de 1960 a 1968 e de 1973 a 1990 (ele morreu em 1993). [...]

      Vários amigos que me viram ler o livro me perguntaram se, então, os sonhos de Fellini serviam de material para seus filmes. A questão não cabe. O que o livro revela é que, para Fellini, o sonho era, por assim dizer, o gênero literário no qual ele vivia (e portanto contava) sua vida – nos cadernos da mesa de cabeceira, nos filmes e no dia a dia.

      Cuidado. Fellini não especulava nem um pouco sobre, sei lá, a “precariedade” de nossa percepção, que pode confundir sonho com realidade. Ele nunca se perguntava se o que estava vivendo era sonho ou realidade, porque, para ele, o sonho era, propriamente, o estilo da realidade.

      Esse estilo era o que fazia com que seu olhar estivesse constantemente maravilhado ou atônito: graças a esse estilo, ele atravessava (e contava) a vida como “um mistério entre mistérios” (palavras dele). Pois bem, nós todos adotamos ou inventamos um estilo singular para a história de nossa vida – é o estilo graças ao qual nossa vida se transforma numa história.

      Cada um escolhe, provavelmente, o estilo narrativo que torna sua vida mais digna de ser vivida (e contada). Há estilos meditativos, investigativos, introspectivos, paranoicos ou, como no caso de Fellini, oníricos e mágicos.

      Quanto a mim, o estilo narrativo da minha vida é, sem dúvida, a aventura. Não só pelos livros que me seduziram na infância (“Coração das Trevas”, de Conrad, seria o primeiro da lista). Mas porque a narrativa aventurosa sempre foi o que fez que minha vida valesse a pena, ou seja, não fosse chata, mesmo quando tinha toda razão para ser.

      Quando meu filho, aos quatro ou cinco anos, parecia se entediar, eu sempre recorria a um truque, que ele reconhecia como truque, mas que funcionava. Eu me calava e me imobilizava de repente, como se estivesse ouvindo um barulho suspeito e inquietante; logo eu sussurrava: “Atenção! Os piratas!”.

      Nem ele nem eu acreditávamos na chegada dos piratas, mas ambos achávamos que a vida merecia um pouco de suspense.

(CALLIGARIS, Contardo. Folha de S. Paulo, 21 abr. 2001. Adaptado.)

Os estilos mencionados em “Cada um escolhe, provavelmente, o estilo narrativo que torna sua vida mais digna de ser vivida (e contada). Há estilos meditativos, investigativos, introspectivos, paranoicos ou, como no caso de Fellini, oníricos e mágicos.” (10º§) referem-se a:
Alternativas

Gabarito comentado

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TEMA CENTRAL: Interpretação de Texto

A questão avalia a compreensão do conceito de "estilo da vida" segundo o texto, solicitando que o candidato distinga entre subjetividade e aspectos objetivos ou ficcionais.

Justificativa da Alternativa Correta (A):

A alternativa A (“Formas subjetivas de estilos que envolvem escolhas particulares”) está correta porque, de acordo com o texto, cada pessoa adota um estilo narrativo para a própria existência, que é individual, subjetivo e resultado de escolha pessoal. O texto afirma: “Cada um escolhe, provavelmente, o estilo narrativo que torna sua vida mais digna de ser vivida (e contada)”. Assim, trata-se de um padrão não imposto externamente, mas internamente construído.

Análise das Alternativas Incorretas:

B) Aspectos objetivos e determinados para cada pessoa individualmente: Errada, porque o foco não é o objetivo, mas o modo particular e subjetivo como cada um narra a própria vida. Segundo Evanildo Bechara, subjetividade diz respeito ao universo interno do indivíduo, não a padrões objetivos externos.

C) Estilos ficcionais encontrados na composição dos personagens dos quadrinhos: Incorreta, pois, embora o texto use quadrinhos como metáfora, o cerne está no estilo narrativo real de cada pessoa, não em personagens fictícios.

D) Situações diversas vividas por uma única pessoa... Equivocada, porque não se trata das situações em si, mas da maneira (narrativa) de viver e contar essas situações — o "estilo da vida" é a forma, não o conteúdo das experiências.

Estratégia para provas: Busque sempre o sentido predominante nas palavras-chave do texto (“subjetividade”, “escolha”, “narrativa”). Cuidado com alternativas que trocam o foco do texto, como transformar subjetivo em objetivo ou confundir metáfora com sentido literal.

Resumo normativo: Como ensinam Cunha & Cintra, interpretar exige identificar aquilo que o autor de fato quer comunicar, distinguindo opiniões do narrador e nuances semânticas essenciais ao texto.

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GABARITO: LETRA A

Cada um escolhe, provavelmente, o estilo narrativo que torna sua vida mais digna de ser vivida (e contada). Há estilos meditativos, investigativos, introspectivos, paranoicos ou, como no caso de Fellini, oníricos e mágicos.” (10º§)

→ Ou seja, há caráter subjetivo (pessoal). O estilo narrativo de vida é pessoal (cada um faz a sua escolha).

☛ FORÇA, GUERREIROS(AS)!!

A questão aborda assunto interpretativo e é necessário prestar alusão à frase dada com as alternativas.

a) Correta.

Quando diz de forma subjetiva é de forma opinativa, cada um escolhe o que quiser de forma particular, por isso a alternativa está perfeita. 

b) Incorreta.

Sabendo que objetivo é algo imparcial, já eliminaria por aí, pois ninguém precisa ter necessariamente as características que o autor citou. Ele citou de forma geral. 

c) Incorreta.

Não tem a ver com os personagens dos quadrinhos. Vejam esse trecho do parágrafo 9: Pois bem, nós todos adotamos ou inventamos um estilo singular para a história de nossa vida. Por isso a alternativa se torna errada.

d) Incorreta.

Não é uma pessoa em particular a que se refere, ele fala "cada um" e no parágrafo anterior disse "todos nós".

GABARITO: A

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