Observe os trechos: “[...] toda arrumadinha no vestido pobre...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3616840 Português
A última crônica

        A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

        Ao fundo do botequim um casal acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma menininha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

        Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

        A menininha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

        São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “Parabéns pra você, parabéns pra você…”.

        Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A menininha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

        Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

(SABINO, Fernando. In: Para gostar de ler. São Paulo: Ática, 1979-1980. Adaptado.) 
Observe os trechos: “[...] toda arrumadinha no vestido pobre, [...]” (2º§); “[...] atenta como um animalzinho.” (4º§); “[...] a menininha repousa o queixo no mármore [...]” (5º§); “[...] ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, [...]” (6º§). Diante dos diminutivos destacados referentes à personagem do texto, é possível depreender que o sentimento do autor é de:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central da questão: Interpretação de texto. Além disso, trabalha semântica e morfologia ao explorar o efeito dos diminutivos usados pelo autor para caracterizar a personagem infantil e a cena descrita.

Justificativa para a alternativa correta (B – Comoção; piedade):

O uso dos diminutivos (“arrumadinha”, “animalzinho”, “menininha”, “fitinha”) vai além da indicação de tamanho reduzido, transmitindo claramente delicadeza, ternura e afetividade por parte do autor em relação à criança. De acordo com Evanildo Bechara em “Moderna Gramática Portuguesa”, os sufixos diminutivos em português frequentemente expressam valores afetivos e aproximação emocional. Isso mostra que o narrador se sensibiliza com a simplicidade e pureza da família, sentindo profunda empatia e comoção pela situação humilde, além de piedade diante da fragilidade da menina e sua realidade.

Análise das alternativas incorretas:

A) Revolta; repulsa: O texto não sugere em nenhum momento sentimentos negativos em relação à situação observada. O tom predominante é carinhoso e contemplativo.

C) Frustração; desilusão: Apesar de o narrador começar relatando certa dificuldade criativa, esse sentimento não é projetado sobre a família observada. Sua reação à cena é de valorização e ternura.

D) Consternação; desalento: Não há demonstração de sofrimento intenso, abalo ou desânimo diante do episódio, mas sim admiração pelo ritual afetuoso e respeito à emoção daquele aniversário.

Estratégia de prova: Atenção aos diminutivos! Eles nem sempre indicam apenas “pequeno”; muitas vezes, expressam carinho e envolvimento emocional. Ao identificar esse recurso, relacione-o ao tom e à intenção do autor.

Resumo da regra gramatical: Sufixos diminutivos “-inho/-inha”, “-zinho/-zinha” expressam valores afetivos, não apenas redução. Por exemplo: “casinha” pode sugerir carinho pelo lugar, não só que a casa é pequena.

Portanto, a alternativa B está correta: expressa os sentimentos humanos e positivos que perpassam todo o texto, sustentados morfologicamente pelos diminutivos e semanticamente pelo contexto de ternura.

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

A alternativa correta é:

B) Comoção; piedade.

Justificativa:

Os diminutivos usados pelo autor transmitem ternura e afeto em relação à criança, despertando no leitor sentimentos de comoção e cuidado, próximos de piedade no sentido de sensibilidade diante da delicadeza e inocência da menininha.

As outras alternativas (revolta, frustração, consternação) não correspondem ao tom afetuoso e acolhedor da narrativa.

Gab: B

O uso dos diminutivos na crônica ("arrumadinha", "animalzinho", "menininha", "fitinha") não serve apenas para indicar tamanho, mas carrega um forte valor afetivo e emotivo.

  • Comoção: O narrador demonstra estar profundamente tocado pela simplicidade e dignidade daquela celebração de aniversário em um ambiente tão humilde.
  • Piedade: Aqui, a piedade não deve ser vista como um sentimento de superioridade, mas como empatia e ternura diante da fragilidade e da pureza da criança e de sua família. O autor se humaniza ao observar o esforço dos pais para tornar aquele momento especial.

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo