TEXTO: Sobre simplicidade e sabedoria Pediram-me que escreve...

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Ano: 2010 Banca: CONSULPLAN Órgão: Prefeitura de Itabaiana - SE
Q1211708 Português
TEXTO: Sobre simplicidade e sabedoria 
Pediram-me que escrevesse sobre simplicidade e sabedoria. Aceitei alegremente o convite sabendo que, para que tal pedido me tivesse sido feito, era necessário que eu fosse velho.
Os jovens e os adultos pouco sabem sobre o sentido da simplicidade. Os jovens são aves que voam pela manhã: seus voos são flechas em todas as direções. Seus olhos estão fascinados por dez mil coisas. Querem todas, mas nenhuma lhes dá descanso. Estão sempre prontos a de novo voar. Seu mundo é o mundo da multiplicidade. Eles a amam porque, nas suas cabeças, a multiplicidade é um espaço de liberdade. Com os adultos acontece o contrário. Para eles, a multiplicidade é um feitiço que os aprisionou, uma arapuca na qual nunca caíram. Eles a odeiam, mas não sabem como se libertar. Se, para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos, a multiplicidade tem o nome de dever. Os adultos são pássaros presos nas gaiolas do dever. A cada manhã dez mil coisas os aguardam com as suas ordens (para isso existem as agendas, lugar onde as dez mil coisas escrevem as suas ordens!). Se não forem obedecidas haverá punições. 
No crepúsculo, quando a noite se aproxima, o voo dos pássaros fica diferente. Em nada se parece com o seu voo pela manhã. Já observaram o voo das pombas no fim do dia? Elas voam numa única direção. Voltam pra casa, o ninho. As aves, ao crepúsculo, são simples. Simplicidade é isso: quando o coração busca uma coisa só.  
(...)   Na multiplicidade nos perdemos: ignoramos o nosso desejo. Movemo-nos fascinados pela sedução das dez mil coisas. Acontece que, como diz o segundo poema do Tao-Te-Ching, “as dez mil coisas aparecem e desaparecem sem cessar”. O caminho da multiplicidade é um caminho sem descanso. Cada ponto de chegada é um ponto de partida. Cada reencontro é uma despedida. É um caminho onde não existe casa ou ninho. 
(...)   O caminho da ciência e dos saberes é o caminho da multiplicidade. (...) Não há fim para as coisas que podem ser conhecidas e sabidas. O mundo dos saberes é um mundo de somas sem fim. É um caminho sem descanso para a alma. Não há saber diante do qual o coração possa dizer: “Cheguei, finalmente, ao lar”. Saberes não são lar. 
(...)   Diz o Tao-Te-Ching: “Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se diminui uma coisa.” (...) Sabedoria é a arte de degustar. A arte de degustar, distinguir, discernir. O homem dos saberes, diante da multiplicidade, “precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço”. Mas o sábio está à procura das “coisas dignas de serem conhecidas”. (...). A sabedoria é a arte de reconhecer e degustar a alegria. Nascemos para a alegria. 
(...)   A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as expectativas que deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o resto da eternidade refletido no rio do tempo. 
Ando pelas cavernas da minha memória. Há muitas coisas maravilhosas. Mas essas memórias, a despeito do seu tamanho, não me fazem nada. Não sinto vontade de chorar. Não sinto vontade de voltar. 
Aí eu consulto o meu bolso da saudade. Lá se encontram pedaços do meu corpo, alegrias. Observo atentamente, e nada encontro que tenhas brilho no mundo da multiplicidade. São coisas pequenas, que nem foram notadas por outras pessoas. 
Diz Guimarães Rosa que “felicidade só em raros momentos de distração...” Certo. Ela vem quando não se espera, em lugares que não se imagina. Dito por Jesus: “É como o vento: sopra onde quer, não sabe donde vem nem para onde vai...” Sabedoria é arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas só dominam essa arte aqueles que têm a graça da simplicidade. Porque a alegria só mora nas coisas simples. (Adaptação, Rubem Alves, in Concerto para Corpo e Alma)
Está correta a seguinte afirmativa:
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o confronto direto com o trecho "A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as expectativas que deram alegria.", que define seletivamente o conteúdo do "bolso da saudade". Por isso, é correta apenas a alternativa que preserva esse sentido sem trocar referentes nem contrariar o texto.

Tema central: paráfrase fiel
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada por troca indevida de referente e por generalização absoluta. O texto não diz que o bolso da saudade guarda "todo conhecimento"; ao contrário, distingue o campo dos "saberes" do campo da saudade e da alegria. O trecho "O caminho da ciência e dos saberes é o caminho da multiplicidade." afasta essa associação entre conhecimento e bolso da saudade.
B
Certa
A alternativa B está correta porque reescreve fielmente a ideia central do trecho sobre a saudade: o "bolso da saudade" não guarda tudo, mas apenas aquilo que foi "provado e aprovado" pela alma, e o próprio texto explicita que "Aprovadas foram as expectativas que deram alegria". Assim, a alternativa mantém o critério seletivo estabelecido pelo texto.
C
Errada
Está errada porque substitui indevidamente um termo-chave do texto: troca "saudade" por "felicidade", equivalência não autorizada pelo texto. Além disso, introduz uma negação sem base textual. O texto afirma justamente uma relação positiva entre saudade e aquilo que valeu a pena: "A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou."
D
Errada
Está errada por contradição direta com enunciado explícito do texto: "Nascemos para a alegria." A alternativa nega literalmente essa proposição.
E
Errada
Está errada porque afirma previsibilidade onde o texto afirma imprevisibilidade. O texto diz: "Ela vem quando não se espera, em lugares que não se imagina. Dito por Jesus: “É como o vento: sopra onde quer, não sabe donde vem nem para onde vai..."" Portanto, não se pode afirmar que o homem sabe quando a felicidade vai chegar nem de onde ela vem.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre termos próximos no texto — "saudade", "memória", "sabedoria", "saberes" e "felicidade" — para induzir trocas de referente; além disso, pode levar o candidato a rejeitar a alternativa B por causa do "só", embora o próprio texto delimite o conteúdo do bolso ao que deu alegria.
Dica para questões semelhantes
  • Em questões de interpretação com metáfora, procure o trecho em que o próprio texto explica o valor dessa imagem e compare as alternativas com essa explicitação.
  • Elimine alternativas que trocam palavras centrais do texto por outras parecidas sem autorização textual, como "saudade" por "felicidade".
  • Desconfie de termos absolutos como "todo" quando o texto trabalha com seleção, recorte ou critério específico.
  • Quando a alternativa parecer resumir o texto, verifique se ela preserva o referente e o sentido exato, sem acrescentar negação, generalização ou previsibilidade inexistentes.

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A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as expectativas que deram alegria

(...) A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as expectativas que deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o resto da eternidade refletido no rio do tempo. 

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