A comparação entre tijolos e palavras leva à constatação de...

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Ano: 2013 Banca: FCC Órgão: MPE-AM Prova: FCC - 2013 - MPE-AM - Agente Técnico - Jurídico |
Q499204 Português
                                                 Sobre Poesia

      Não têm sido poucas as tentativas de definir o que é poesia. Desde Platão e Aristóteles até os semânticos e concretistas modernos, insistem filósofos, críticos e mesmo os próprios poetas em dar uma definição da arte de se exprimir em versos, velha como a humanidade.[...]
     Um operário parte de um monte de tijolos sem significação especial senão serem tijolos para -sob a orientação de um construtor que por sua vez segue os cálculos de um engenheiro obediente ao projeto de um arquiteto -levantar uma casa. Um monte de tijolos é um monte de tijolos. Não existe neles beleza específica. Mas uma casa pode ser bela, se o projeto de um bom arquiteto tiver a estruturá-lo os cálculos de um bom engenheiro e a vigilância de um bom construtor no sentido do bom acabamento, por um bom operário, do trabalho em execução.
     Troquem-se tijolos por palavras, ponha-se o poeta subjetivamente na quádrupla função de arquiteto, engenheiro, construtor e operário, e aí tendes o que é poesia. A comparação pode parecer orgulhosa, do ponto de vista do poeta, mas, muito pelo contrário, ela me parece colocar a poesia em sua real posição diante das outras artes: a de verdadeira humildade. O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos. [...]
     Mas para o poeta a vida é eterna. Ele vive no vórtice dessas contradições, no eixo desses contrários. Não viva ele assim, e transformar-se-á certamente, dentro de um mundo em carne viva, num jardinista, num floricultor de espécimes que, por mais belos sejam, pertencem antes a estufas que ao homem que vive nas ruas e nas casas. [...]

                                 (Vinicius de Moraes. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1974, v. único, p. 536 e 537)

A comparação entre tijolos e palavras leva à constatação de que
Alternativas

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a analogia explícita construída pelo texto entre tijolos e palavras: o elemento isolado não tem beleza própria, mas, quando submetido a projeto, cálculo, construção e acabamento, pode resultar em uma obra bela. Como o enunciado pede a conclusão decorrente dessa comparação, a alternativa correta é a E, por preservar essa relação sem extrapolação.

Tema central: analogia textual
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra ao afirmar superioridade intrínseca das palavras sobre os tijolos. O texto não cria hierarquia de valor entre os dois materiais; ao contrário, compara ambos como elementos simples cujo valor estético depende da organização na obra. Houve extrapolação semântica indevida.
B
Errada
A alternativa contradiz diretamente o texto ao dizer que o poeta se volta habitualmente aos aspectos grandiosos e belos da vida. O autor afirma que o material do poeta é “a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime”. Portanto, a poesia não é reduzida à exaltação do belo.
C
Errada
A alternativa falseia o critério da comparação ao falar em “disposição uniforme de tijolos”. O texto não atribui a beleza à uniformidade, mas a projeto, cálculos, construção e acabamento. Além disso, a formulação apresentada altera a relação causal do texto, que vincula a beleza à elaboração técnica, não a uma simples disposição material.
D
Errada
A alternativa introduz a ideia de “aparente inutilidade dos tijolos”, mas o texto não fala em inutilidade; fala em ausência de “significação especial” e de “beleza específica” no elemento isolado. Também acrescenta “harmonia de sons e de significados” e “reconhecido”, que não constituem o núcleo da analogia pedida. Há acréscimos sem apoio textual.
E
Certa
A alternativa E está correta porque traduz sem distorção a comparação central do texto: tijolos e palavras são elementos simples que, isoladamente, não trazem beleza própria; a beleza surge quando esses elementos são organizados com planejamento, técnica, execução e acabamento. É exatamente essa equivalência estrutural que o autor transfere da construção da casa para a criação poética.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre ausência de beleza intrínseca e inutilidade do material, além da tentação de ler a comparação como superioridade das palavras ou como exaltação exclusiva do belo, quando o texto trata da organização técnica do material para produzir a obra.
Dica para questões semelhantes
  • Em comparações textuais, identifique primeiro quais elementos estão sendo postos em equivalência e qual relação o autor transfere de um para o outro.
  • Diferencie o que o texto afirma expressamente do que a alternativa acrescenta: “sem significação especial” não autoriza concluir “inútil”.
  • Quando a questão cobrar inferência a partir de analogia, prefira a alternativa que preserve a estrutura de sentido do texto sem criar hierarquia, exclusividade ou efeitos não mencionados.

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Comentários

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Gab: E

Basta lermos os § 2° e o início do 3º para corroboramos o presente item.

Um operário parte de um monte de tijolos sem significação especial senão serem tijolos para - sob a orientação de um construtor que por sua vez segue os cálculos de um engenheiro obediente ao projeto de um arquiteto - levantar uma casa. Um monte de tijolos é um monte de tijolos. Não existe neles beleza específica. Mas uma casa pode ser bela, se o projeto de um bom arquiteto tiver a estruturá-lo os cálculos de um bom engenheiro e a vigilância de um bom construtor no sentido do bom acabamento, por um bom operário, do trabalho em execução.
     Troquem-se tijolos por palavras, ponha-se o poeta subjetivamente na quádrupla função de arquiteto, engenheiro, construtor e operário, e aí tendes o que é poesia. "

 

Espero ter ajudado, tenham um bom estudo! Caso eu esteja errado, por favor, corrijam-me! 

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