Considere as passagens do 4° parágrafo a seguir: •  “... vo...

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Q3576255 Português
Leia o texto a seguir para responder à questão:


O céu pode esperar


    Certa manhã acordei com uma rádio de Belo Horizonte noticiando que Humberto Werneck havia morrido. Para quem, como eu, chama-se Humberto Werneck, não há pior maneira de começar o dia. 

    Nem um minuto se passou e em nossa casa começaram a desabar dezenas de telefonemas, de amigos e parentes consternados com o meu falecimento. Não me ocorreu saborear aquelas manifestações póstumas de estima e consideração. Estava ressabiadíssimo.

    Pelo meio-dia, já mais à vontade, veio-me a ideia macabra de comparecer a meu próprio velório. Só não fui porque minha mãe me alertou para as imprevisíveis consequências de encontrar, à beira do caixão, alguém que ali chegasse para me velar.

    Durante anos, de fato, volta e meia topei com pessoas que me julgavam morto − um conhecido deixou cair uma garrafa de cerveja ao me ver entrar, vivinho, na Lanchonete Nacional. Mas não foi desse susto, felizmente, que meu amigo veio a morrer, pouco tempo mais tarde.

    Quanto a mim, acabei tropeçando um dia com o que poderia ser o meu túmulo, enquanto procurava o de meus avós no cemitério Bonfim. Não há como descrever a sensação de ler, numa lápide negra, o nosso nome e as datas de nascimento e morte.

    Fui à Administração e exumei a ficha: o inquilino da sepultura era um segundo-sargento da Polícia Militar mineira.

    Fosse apenas o sargento − mas não: tempos depois, me morre outro Humberto Werneck, no Rio de Janeiro. Nunca mais me livrei da impressão de que, já tendo morrido dois, a bola da vez, agora, sou eu.


(Humberto Werneck, “O céu pode esperar”, O espalhador de passarinhos, 2010. Adaptado)
Considere as passagens do 4° parágrafo a seguir:

•  “... volta e meia topei com pessoas que me julgavam morto...”
•  “... não foi desse susto, felizmente, que meu amigo veio a morrer...”

As expressões destacadas apresentam, correta e respectivamente, circunstâncias de
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A — tempo e causa

Tema da questão: reconhecimento de locuções adverbiais e das circunstâncias adverbiais que expressam (tempo, causa, modo, intensidade, meio).

Estratégia para resolver: para identificar a circunstância, pergunte mentalmente:
Quando? → tempo
Por quê?/De quê? → causa
Como? → modo
Quanto? → intensidade
Por meio de quê? → meio

Aplicação no enunciado:
• “volta e meia” responde a quando? (com que frequência?). Trata-se de uma locução adverbial de tempo (frequência habitual). Ex.: “Volta e meia, o ônibus atrasa.”
• “desse susto” ocorre em “não foi desse susto que...”, estrutura que indica causa (ainda que negada). É o padrão “morrer de + nome” com valor causal: “morreu de frio/medo/susto”. Ex.: “Ele empalideceu de susto.”

Norma culta (Gramática Normativa): Advérbios e locuções adverbiais funcionam como adjuntos adverbiais que especificam circunstâncias (tempo, causa, modo etc.). Cf. Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, e Cunha & Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo. A formação “de + substantivo” com valor causal é amplamente reconhecida (ex.: “chorar de alegria”, “tremer de medo”). A grafia das expressões citadas está conforme o VOLP.

Por que a alternativa A está correta:
• “volta e meia” = tempo (frequência).
• “desse susto” = causa (origem/motivo do evento, mesmo no escopo de negação).

Pegadinha: a presença de “felizmente” no trecho pode sugerir “modo”, mas ele não está destacado nem se relaciona às expressões pedidas. Foque nas locuções indicadas.

Análise das alternativas incorretas:
B — tempo e intensidade: “desse susto” não intensifica nada; indica causa. Intensidade seria “muito”, “demais”, “bastante” etc.
C — modo e intensidade: “volta e meia” não responde a “como?” (modo), e “desse susto” não indica intensidade.
D — meio e causa: “volta e meia” não indica meio/instrumento (como “por e-mail”, “de ônibus”); indica tempo.
E — modo e modo: nenhuma das duas expressões responde a “como?”. A primeira é tempo, a segunda é causa.

Exemplos para fixação:
• Tempo: “De vez em quando, reviso as questões.” (= quando?)
• Causa: “Ficou pálido de susto.” (= por quê?)

Dica para provas: identifique o núcleo da locução e teste com a pergunta adequada (quando, por quê, como, quanto, por meio de quê). Se a resposta couber, você achou a circunstância correta.

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Comentários

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não foi por causa desse susto

Gabarito A:

  • "volta e meia": Esta expressão indica a frequência com que algo acontece. Ela pode ser substituída por "de vez em quando" ou "ocasionalmente". Portanto, a circunstância que ela exprime é de tempo.
  • "desse susto": A frase "não foi desse susto, felizmente, que meu amigo veio a morrer" indica a causa da morte do amigo, que no caso, não foi o susto. A expressão "desse susto" responde à pergunta "por que ele morreu?". Portanto, a circunstância é de causa.

A

A locução adverbial "volta e meia" expressa uma circunstância de tempo, pois indica a frequência com que o narrador encontrava pessoas que o julgavam morto. Já o termo "desse susto" aponta o motivo pelo qual o amigo do cronista não morreu naquele momento, estabelecendo, portanto, uma relação de causa.

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