O cronista desistiu da ideia de ir ao velório porque

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Q3576250 Português
Leia o texto a seguir para responder à questão:


O céu pode esperar


    Certa manhã acordei com uma rádio de Belo Horizonte noticiando que Humberto Werneck havia morrido. Para quem, como eu, chama-se Humberto Werneck, não há pior maneira de começar o dia. 

    Nem um minuto se passou e em nossa casa começaram a desabar dezenas de telefonemas, de amigos e parentes consternados com o meu falecimento. Não me ocorreu saborear aquelas manifestações póstumas de estima e consideração. Estava ressabiadíssimo.

    Pelo meio-dia, já mais à vontade, veio-me a ideia macabra de comparecer a meu próprio velório. Só não fui porque minha mãe me alertou para as imprevisíveis consequências de encontrar, à beira do caixão, alguém que ali chegasse para me velar.

    Durante anos, de fato, volta e meia topei com pessoas que me julgavam morto − um conhecido deixou cair uma garrafa de cerveja ao me ver entrar, vivinho, na Lanchonete Nacional. Mas não foi desse susto, felizmente, que meu amigo veio a morrer, pouco tempo mais tarde.

    Quanto a mim, acabei tropeçando um dia com o que poderia ser o meu túmulo, enquanto procurava o de meus avós no cemitério Bonfim. Não há como descrever a sensação de ler, numa lápide negra, o nosso nome e as datas de nascimento e morte.

    Fui à Administração e exumei a ficha: o inquilino da sepultura era um segundo-sargento da Polícia Militar mineira.

    Fosse apenas o sargento − mas não: tempos depois, me morre outro Humberto Werneck, no Rio de Janeiro. Nunca mais me livrei da impressão de que, já tendo morrido dois, a bola da vez, agora, sou eu.


(Humberto Werneck, “O céu pode esperar”, O espalhador de passarinhos, 2010. Adaptado)
O cronista desistiu da ideia de ir ao velório porque
Alternativas

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Tema central: Interpretação de Texto

Esta questão exige do candidato a habilidade de interpretação, ou seja, a análise cuidadosa do texto para identificar o motivo real que levou o narrador a desistir de comparecer ao próprio velório. Para isso, é fundamental saber ler além do óbvio: distinguir o que está explícito (direto) e o que está implícito (sugerido) nas falas do narrador, utilizando a lógica interna do texto (coerência) e a relação entre as ideias (coesão).

Justificativa da alternativa correta – D:
"receou encontrar alguém que lá estivesse a fim de velá-lo." O texto apresenta claramente que, apesar do autor ter cogitado ir ao “próprio” velório, desistiu após a mãe alertá-lo sobre “as imprevisíveis consequências de encontrar, à beira do caixão, alguém que ali chegasse para me velar”. A construção deixa nítido que o receio desse encontro é o motivo determinante da decisão. Como ensina Marcuschi (Coesão e Coerência Textuais), a resposta correta exige atenção ao sentido exato das relações e ideias apresentadas.

Análise das alternativas incorretas:

A) Respeitou o fato de sua mãe julgar a ideia macabra: O texto cita a ideia como “macabra”, mas frisa que o impedimento foi a consequência sugerida pela mãe, e não o simples respeito à opinião dela.

B) Desconfiou que a notícia fosse falsa: Em momento algum há desconfiança do autor sobre a veracidade da notícia. Pelo contrário, ele reage com surpresa, mas não põe a notícia em questão.

C) Precisou atender telefonemas: Embora o autor cite as ligações, isso ocorre antes da ideia de ir ao velório, não sendo a causa de sua desistência.

E) Temor de estar à beira do próprio caixão: Não há no texto qualquer temor de encontrar seu próprio corpo ou caixão, mas sim preocupação com o encontro com pessoas vivas na cerimônia.

Estratégia importante: Sempre busque no texto o motivo explicitamente apresentado e desconfie de alternativas que desviam do foco principal, trocando causa por efeito ou antecipando justificativas não afirmadas claramente (pegadinhas comuns em provas).

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Comentários

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d) receou encontrar alguém que lá estivesse a fim de velá-lo.

GABARITO - D

Justificativa: 3º §

"[...] Só não fui porque minha mãe me alertou para as imprevisíveis consequências de encontrar, à beira do caixão, alguém que ali chegasse para me velar."

Ia ser engraçado mesmo kkkkk

A pessoa que fosse lá para velá-lo ia morrer do coração ao dar de cara com ele.

Alternativa D.

O cronista desistiu de comparecer ao próprio velório porque sua mãe o alertou sobre as consequências imprevisíveis de encontrar alguém que estivesse ali para velá-lo. O receio da reação de um conhecido que o julgava morto o fez abandonar o plano macabro, temendo o susto ou o constrangimento que a situação poderia causar.

Siga-me @rexconcurseiro

é raro ver um texto interessante em concurso kkk esse me prendeu a atenção

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