“Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato ...

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Ano: 2022 Banca: FGV Órgão: TJ-GO Prova: FGV - 2022 - TJ-GO - Juiz Leigo |
Q1951261 Português

Literatura e justiça


Clarice Lispector



Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?). Aproveitei a crista da onda, para me pôr em dia com o perdão. Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo “literário” (isto é, transformado na veemência da arte) da “coisa social”. Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, ainda que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar. O sentimento de justiça nunca foi procura em mim, nunca chegou a ser descoberta, e o que me espanta é que ele não seja igualmente óbvio em todos. Tenho consciência de estar simplificando primariamente o problema. Mas, por tolerância hoje para comigo, não estou me envergonhando totalmente de não contribuir para algo humano e social por meio do escrever. É que não se trata de querer, é questão de não poder. Do que me envergonho, sim, é de não “fazer”, de não contribuir com ações. (Se bem que a luta pela justiça leva à política, e eu ignorantemente me perderia nos meandros dela.) Disso me envergonharei sempre. E nem sequer pretendo me penitenciar. Não quero, por meios indiretos e escusos, conseguir de mim a minha absolvição. Disso quero continuar envergonhada. Mas, de escrever o que escrevo, não me envergonho: sinto que, se eu me envergonhasse, estaria pecando por orgulho.

Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria ‘fazer’ alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, ainda que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever.”
Nesse segmento do texto foram sublinhados cinco conectores; o conector cujo significado está corretamente indicado, é: 
Alternativas

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Na questão apresentada, o objetivo é identificar o conector cujo significado está corretamente associado ao seu uso no texto. Vamos analisar cada alternativa à luz da sintaxe e semântica do texto.

Tema: Coesão e coerência textual, com foco no uso de conectores.

Alternativa A: mas / conclusão

O conector "mas" é utilizado para indicar oposição ou contraste, e não conclusão. No trecho, "Mas é que tenho um modo simplório..." demonstra um contraste com a ideia anterior, e não uma conclusão. Portanto, essa alternativa está incorreta.

Alternativa B: como / meio ou instrumento

O conector "como" no texto é utilizado para introduzir uma comparação: "como se escrever não fosse fazer", expressando uma similitude e não um meio ou instrumento. Assim, essa alternativa também está incorreta.

Alternativa C: para / direção

"Para" é utilizado no texto com o sentido de finalidade ou propósito: "usar escrever para isso". Não indica direção geográfica ou espacial. Dessa forma, essa alternativa está incorreta.

Alternativa D: ainda que / adversidade

"Ainda que" é um conector que expressa concessão, e pode ser considerado sinônimo de "embora", mas infelizmente não está em foco aqui no contexto do gabarito correto. A concessão é um tipo de adversidade, mas precisamos analisar o conector específico pedido na questão. Portanto, essa alternativa está incorreta.

Alternativa E: que / consequência

O conector "que" é utilizado para introduzir uma consequência na frase: "O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele". Aqui, podemos perceber uma relação de consequência entre a obviedade do sentimento de justiça e a incapacidade de se surpreender. Portanto, essa alternativa está correta.

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Comentários

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fiquei na duvida, ainda que, trouxe ideia de adversidde... mas que trouxe ideia de consequencia

Termos : Tão e que :

Tão : causa

Que : consequência.

Ex : Gritou tão ( Causa ) alto que (consequência) assustou os vizinhos.

A) mas / conclusão;

  • ''mas'' no contexto tem ideia de adversidade

B) como / meio ou instrumento;

  • ''como'' está dando uma exemplificação de fazer alguma coisa

C) para / direção;

  • ''para'' no texto dá uma noção de finalidade

D) ainda que / adversidade;

  • ''ainda que'': ideia de concessão. Concessão e Adversidade são espécies de OPOSIÇÃO, porém têm sentido diferentes.

E) que / consequência

  • CAUSA ''O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico''

QUE

  • CONSEQUÊNCIA ''não consigo me surpreender com ele(problema da justiça)''

GABARITO: E

Errando por marcar errada quando precisa certa

Questão difícil, também fiquei na dúvida entre D e E. Porém, lendo com mais calma, dá pra ver que o "ainda que" tem sentido de concessão e não de advertência, já que ele contraria a ação, mas não impede que ela ocorra.

"O que não consigo é usar escrever para isso, ainda que [mesmo que/ por mais que] a incapacidade me doa e me humilhe"

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