No trecho “É cansativo, é irritante, isso de falar em elites...

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Q1685858 Português
As elites e o povão

    É cansativo, é irritante, isso de falar em elites e povão, como se só o chamado povão fosse honesto e merecedor de confiança e tudo que se liga à “elite” significasse o pior quanto à moral, ao valor e à confiabilidade.
   É mal-intencionado dizer que só a elite é saudável, educada, merecedora das boas coisas da vida e o povão é sujo, grosseiro e não vai melhorar nunca.
   E, afinal, o que é essa “elite”? Quem a constitui? Parece que existem várias.
   Elite social – Nada mais triste do que ler: “Fulana de Tal, socialite”. Tem profissão? Tem família? Faz alguma coisa da vida? Não, ela é socialite. O marido, ou o filho, ou o companheiro dessa fina dama seria o quê? Um socialite, também? Singularmente ainda não vi o termo usado no masculino. Talvez porque na nossa utopia os homens sempre têm profissão e ganham o dinheiro, isto é, são úteis, enquanto as mulheres ornamentam seu lado público.
   Elite intelectual – Dessa, já gostei mais. Porém, cuidado: o grau de intelectualidade não reside na quantidade de diplomas, alguns fajutos, adquiridos no exterior em universidades com nomes pomposos. O intelectual de primeira é o que de verdade pensa, lê, estuda, escreve, pesquisa e atua. Cultiva a simplicidade e detesta a arrogância, companheira da inteligência limitada.
   Talvez elite verdadeira fosse a dos bem informados e instruídos, não importa em que grau, não importam dinheiro nem sofisticação. Um povo pouco informado acredita no primeiro demagogo que aparece, engole suas mentiras como pílulas salvadoras e, por cegueira ou por carência, segue o caminho de seu próprio infortúnio.
   Seria melhor largar essa bobagem de elite versus povão e pensar em habitantes deste planeta e deste país. Todos merecendo melhor cuidado com a saúde, melhores escolas e universidades, melhores condições de vida, melhor salário, melhores estradas, lugares de lazer mais bem-cuidados, mais tranquilos e seguros, menos impostos, menos mentiras. Mais oportunidades, mais sinceridade, mais vida. Melhor uso das palavras. Mais respeito pela inteligência comum e pelo bom senso.
   Então, velhíssima fórmula tão pouco aplicada, comecemos pela educação. Mas não venham com a empulhação quanto aos analfabetos a menos no país. Alfabetizado não é quem aprendeu a assinar o nome: é quem antes leu e compreendeu aquilo que vai assinar, pois, se optar errado, a exploração de sua ignorância vai pesar sobre seus ombros por mais um longo tempo de altos juros.
   Mais cuidado com palavras, pois elas podem se transformar, de pedras preciosas, em testemunho de ignorância ou má vontade, ou ainda em traiçoeiros punhais.
(Texto de Lya Luft. Publicado em 2011. Com adaptações.)
No trecho “É cansativo, é irritante, isso de falar em elites e povão, como se só o chamado povão fosse honesto e merecedor de confiança e tudo que se liga à ‘elite’ significasse o pior quanto à moral, ao valor e à confiabilidade.” (1º§), é possível afirmar que a autora:
Alternativas

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Comentário da Questão – Interpretação de Texto (Agente de Combate a Endemias)

Tema central: A questão solicita ao candidato identificar a intenção da autora ao abordar a oposição entre “elite” e “povão”, ou seja, exige interpretação textual e compreensão do conceito de visão maniqueísta.

Por que a alternativa D está correta?

A autora critica a percepção binária de que o “povão” seria exclusivamente honesto e a “elite” exclusivamente má. Ela expõe como tal divisão exagerada é cansativa, irritante e irrealista, mostrando que existe uma falsa oposição entre os grupos sociais, típica do maniqueísmo, pensamento que divide tudo em “bem” ou “mal”. Logo, seu objetivo é desfazer a visão maniqueísta, levando o leitor a um entendimento mais complexo, realista e sem estereótipos das classes sociais.

Conceito-chave para resolver a questão:

Para interpretar corretamente, é preciso reconhecer a crítica da autora ao maniqueísmo. Segundo gramáticas normativas (como Bechara) e as orientações do Manual de Redação da Presidência da República, a interpretação do texto deve ser atenta ao contexto e à intenção do autor, evitando leituras superficiais.

Análise das alternativas incorretas:

A) Apenas indica resistência às “diferenças irreais”, mas não abrange a intenção maior de desfazer uma visão dualista. Falta profundidade em relação ao propósito do texto.

B) Errada, pois o próprio texto indica que existem várias elites, não um grupo único e homogêneo.

C) Equívoca. A autora não destaca “aspectos sociais” para desqualificar as diferenças, mas questiona a divisão exagerada entre grupos.

E) Incorreta. O texto não atribui apenas qualidades positivas a um grupo e negativas ao outro, pelo contrário, critica exatamente esse ponto de vista estereotipado.

Dica para provas de interpretação: Ao analisar alternativas, observe sempre o objetivo do autor e fuja das respostas que resumem ideias de forma muito limitada ou apenas repetem partes superficiais do texto.

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Comentários

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Maniqueísmo: qualquer visão do mundo que o divide em poderes opostos e incompatíveis.

A letra A também está correta. A autora é resistente quanto à diferenças irreais entre elite e povão. Acho que o termo "possíveis"foi o problema.

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