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Q1236867 Português
A mania nacional da transgressão leve
Pequenos delitos são transgressões leves que passam impunes e, no Brasil, estão tão institucionalizados que os transgressores nem têm ideia de que estão fazendo algo errado. Ou então acham esses “miniabusos” irresistíveis, apesar de causarem “minidanos” e/ou levarem a delitos maiores. Esses maus exemplos são também contagiosos. E, em uma sociedade na qual proliferam, ser um cidadão-modelo exige que se reme contra uma poderosa maré ou que se beire à santidade. 
Alguns pequenos delitos – fazer barulho em casa a ponto de incomodar os vizinhos ou usar as calçadas como depósito de lixo e de cocô de cachorro – diminuem a qualidade de vida em pequenas, mas significativas, doses. Eles ilustram a frase do escritor Millôr Fernandes: “Nossa liberdade começa onde podemos impedir a dos outros”. (...) Outros pequenos delitos causam danos porque representam uma pequena parte da reação em cadeia que corrói o tecido social. Os brasileiros que contribuem para a rede de consumo de drogas não são apenas os que as compram mas até os que as consomem de vez em quando em festas. Uma simples tragada liga você, mesmo que de modo ínfimo, ao traficante e à bala perdida, mas atos aparentemente tão inócuos e difíceis de condenar nos forçam a pensar no que constitui um pequeno delito. (...) 
Um dos meus vizinhos disse que alguns desses pequenos delitos, como vários tipos de caixa dois, são fruto da necessidade. Ele escreve, embora não assine, monografias para que universitários preguiçosos/ocupados terminem seus cursos. É assim que põe comida na mesa. Apesar de defender sua atividade antiética dizendo que “a fome também é antiética”, ele bem que poderia perder 20 quilos. (...) 
Apesar de os delitos pequenos estarem institucionalizados demais para notar ou serem tentadores demais para resistir, dizer “não” a eles beneficia a sociedade como um todo. E um “não” vigoroso o bastante pode alertar os distraídos e os fracos de espírito para que, em uma sociedade que se guia pela “lei de Gerson”, nossa bússola moral possa nos apontar o caminho. 
(KEPP, Michael. A mania nacional da transgressão. In: Folha de S. Paulo, 26 ago. 2004.)
No primeiro período do texto, é apresentado como motivo para a falta de entendimento de que algumas atitudes possam ser consideradas pequenas transgressões: 
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a relação semântica de causa no primeiro período: “Pequenos delitos são transgressões leves que passam impunes e, no Brasil, estão tão institucionalizados que os transgressores nem têm ideia de que estão fazendo algo errado.” A construção “tão ... que” vincula a falta de percepção do erro ao fato de esses delitos estarem institucionalizados; por isso, a alternativa C é a que corresponde ao motivo pedido.

Tema central: valor de institucionalizados
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque troca a causa textual principal por uma característica acessória do trecho. O período diz que os delitos “passam impunes”, mas a falta de entendimento é ligada pela estrutura “estão tão institucionalizados que...” à institucionalização, não à impunidade.
B
Errada
Está errada porque define “institucionalização” como “desmistificação de certas atitudes”, sentido que não aparece no texto. O valor contextual de “institucionalizados” é o de práticas normalizadas e incorporadas ao cotidiano social, não o de atitudes desmistificadas.
C
Certa
A alternativa C acerta porque recupera o fator causal expresso no primeiro período: os transgressores não percebem o erro porque os pequenos delitos estão “tão institucionalizados”. No contexto, esse termo não remete a órgãos ou instituições do Estado, mas a práticas já incorporadas ao funcionamento social, vistas como normais. Mesmo com redação pouco elegante, a alternativa preserva esse núcleo de sentido: algo estabelecido, instituído, organizado na vida social.
D
Errada
Está errada por introduzir conteúdo sem apoio textual. O primeiro período não fala em irresponsabilidade dos transgressores para com instituições governamentais. Além disso, “institucionalizados” não significa vinculados a instituições do governo.
E
Errada
Está errada pelo mesmo desvio semântico da alternativa D. O texto não menciona irresponsabilidade para com “instituições nacionais”, e ler “institucionalizados” como referência a instituições concretas deturpa o sentido contextual da palavra.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tomar “passam impunes” como causa da falta de percepção do erro e ler “institucionalizados” como se o termo se referisse a instituições do Estado, quando o contexto aponta para normalização social das práticas.
Dica para questões semelhantes
  • Se o comando delimita um trecho específico, retire a resposta apenas da relação de sentido construída nesse trecho.
  • Em questões de vocabulário contextual, não use o sentido solto da palavra; verifique como ela funciona na frase.
  • Quando houver estrutura como “tão ... que”, identifique o que vem antes como causa e o que vem depois como consequência.

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