Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo
tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir
no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e
economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz:
é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. [...] O
mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro.
Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior,
que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não
consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, fisionomia é diferente. Se só me
faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde, mas falto eu mesmo,
e esta lacuna é tudo. [...]
(ASSIS. Machado de. Dom Casmurro. 32. ed. São Paulo: Ática. 1997. p. 14. (Fragmento).
Texto VI
Eram cinco horas da manha e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e
janelas alinhadas. [...]
[...] No confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber
onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. [...]
Dai a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e
fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de 4gua que escorria da altura
de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para
não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo
o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao
contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando
e fungando contra as palmas da mão. [...]
(AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. 26. ed. São Paulo: Ática, 1994. p. 35-36). (Fragmento).
A partir da leitura dos textos V e VI, percebe-se que há entre eles certa distinção que os situa entre as
estéticas Realista e Naturalista. Aliás, essa dicotomia se coloca, em muitos casos, como um dos problemas
apresentados na discussão teórica da historiografia literária. Mesmo assim, nota-se que há uma necessidade
comum entre elas, aproximando-as, pois ambas possuem uma espécie de comprometimento com o real,
mas que assume formas distintas, pois: