Segundo o autor, o “sabichonismo linguístico” tem tanto ape...
Cuidado, os sabichões querem seu cérebro!
Sabichonismo é uma doença que explora e
agrava nossa insegurança com a língua
Sérgio Rodrigues
O sabichonismo linguístico é uma doença social oportunista que se aproveita da insegurança do falante médio, intimidado com a normatividade da língua, para convencê‑lo de que contraria regras em série — todas imaginárias.
Por exemplo: “É pleonasmo vicioso dizer que um filme é baseado em fatos reais. Todo fato é real; se não for real, não é fato!”, grita o sabichão. (Por alguma razão, sabichões gostam de gritar)
É mentira dele, claro: além de existir algo que se chama ênfase, o mundo sempre foi cheio de fatos falsos, para não mencionar os hipotéticos, os fictícios, os que dependem de fé etc.
Mesmo assim, é comum que o fato sabichão seja acolhido. O mecanismo psíquico que nos leva a encarar quem nos “corrige” como detentor de um saber superior é o mesmo que garante o sucesso internético de vídeos como “você bebeu água errado a vida inteira: aprenda”.
Sim, todo mundo sempre usou a expressão “dois pesos e duas medidas”, de impecáveis credenciais bíblicas. Não há nada nela, sob nenhum aspecto, que esteja errado: refere‑se a dois pesos (para a farinha) e duas medidas (para o tecido), artimanhas de comerciante desonesto. Aí vem o sabichão e, por saber pouco, anuncia na praça: “O certo é um peso e duas medidas!”.
O sabichonismo pode ser do tipo literalista, que eu chamo de podólatra da letra: “Não existe gol de bola parada, bola parada não entra”; “Risco de vida está errado, o certo é risco de morte”.
Também pode ter corte lógico‑matemático, encrencado com a dupla negativa do português: “Se você diz que não viu nada, então viu alguma coisa”. Pode ser purista, amalucado: “O certo é ab‑rupto”.
O único objetivo do sabichonismo é afirmar a posição de poder de quem o exerce. Embora seja muitas vezes diletante, seu caráter falsamente educativo faz com que assuma com frequência a forma de atividade profissional, caso em que provoca estragos maiores.
Como regra, sabichões exercem o sabichonismo por convicção. Estão convencidos da sabedoria de sua bobagem, que gostariam de ver abraçada por todos. No entanto, sobretudo nos casos em que a atividade produz ganho material, não se deve descartar a hipótese da má‑fé.
A fragilidade do organismo social de que o sabichonismo tira partido — a autoconfiança precária que, como povo, sentimos diante de uma língua que é nossa e ao mesmo tempo não é — acaba, sob seus ataques, por se agravar.
Quando nos deixamos convencer de que o certo é “esculpido em Carrara” — em vez de “cuspido e escarrado”, bela versão lusófona de uma ideia presente no inglês “spitting image” e em outras línguas —, podemos ter a sensação inebriante de que nada no mundo é o que parece.
Contentes de descobrir tal joia perdida do conhecimento universal — “O certo é quem tem boca vaia Roma, buuu!” —, saímos espalhando a boa nova.
E assim o sabichão cumpre o seu papel final, reprodutivo, que é o mesmo dos zumbis: comer o cérebro do maior número possível de pessoas para transformá‑las em sabichonas também.
Todo cuidado com ele!
FOLHA DE SÃO PAULO. Folha de S.Paulo,
Cotidiano, 1 maio 2025, p. A 41 (adaptado).
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Gabarito: B
Fundamento decisivo: O ponto decisivo é a informação textual explícita sobre a origem do apelo do sabichonismo: “O sabichonismo linguístico é uma doença social oportunista que se aproveita da insegurança do falante médio, intimidado com a normatividade da língua, para convencê‑lo de que contraria regras em série — todas imaginárias.” A base também reforça: “O mecanismo psíquico que nos leva a encarar quem nos “corrige” como detentor de um saber superior...”. Como a alternativa B corresponde a essa formulação, ela é a correta.
- Quando a pergunta pede a causa de um fenômeno “segundo o autor”, procure primeiro a formulação explícita da explicação no texto antes de inferir.
- Separe a posição do autor das falas citadas como exemplo de erro ou de crítica.
- Desconfie de alternativas que atribuem valor científico, pedagógico ou positivo a um fenômeno que o texto caracteriza de modo negativo.
- Se uma opção retoma quase literalmente a tese do texto-base, ela tem forte vantagem sobre alternativas interpretativas mais amplas.
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QUESTÃO 7
Gabarito: B) se aproveita da insegurança do falante comum em relação à norma-padrão.
Análise prática:
“Se aproveita da insegurança do falante comum...”
→ CORRETA
O autor critica o sabichonismo porque ele ganha força ao explorar a insegurança das pessoas em relação ao uso da língua. O “sabichão” se coloca como alguém que sabe mais e corrige os outros.
A) Incorreta. O autor não apresenta o sabichonismo como valorização das expressões populares.
C) Incorreta. O sabichonismo não é baseado necessariamente em estudos científicos. Pelo contrário, o autor critica justamente as ideias equivocadas sobre a língua.
D) Incorreta. O objetivo não é oferecer explicações claras sobre gramática, mas exercer uma posição de superioridade sobre os demais.
RESPOSTA
[x] B — se aproveita da insegurança do falante comum em relação à norma-padrão.
Macete para a FUNDEP:
Quando o texto critica alguém que corrige os outros para parecer superior, pense em:
insegurança linguística → sabichão → falsa superioridade → sabichonismo.
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