A afirmativa correta é:
Somos condenados a viver. Nascemos, e nas condições que se apresentam, devendo enfrentar a situação de filho de beltrano e de sicrana, rico ou pobre, brasileiro, suíço ou angolano. Viver é uma aventura que de plano enfrenta o barulho depois do confortável silêncio do útero materno. Inicia-se o percurso e cabe a cada qual afirmar sua individualidade.
Cada qual se põe na vida diante desta empreitada: obter sua realização pessoal. Pela via do trabalho a pessoa marca sua individualidade, assinala sua passagem por esta vida, ocupa as horas do cotidiano visando a construir sua autoestima e a conquista importante do reconhecimento dos demais.
O trabalho atua em duas frentes: permite, de um lado, que as pessoas se afirmem perante si mesmas, motivando a busca de realização, podendo trazer orgulho no sucesso ou dor diante de eventual fracasso; e, de outro lado, faz surgir entre os consorciados o reconhecimento de uma condição própria como sapateiro, mecânico, médico, professor, cozinheiro. Esse espaço na sociedade causa satisfação ou desilusão, se reconhecido como o melhor sapateiro do bairro ou o pior cozinheiro da região.
Assim, fracassar na execução de uma profissão ou ofício é do jogo da vida. Mais frustrante mesmo é nem sequer entrar no jogo para fazer algo com sua cara, com seu jeito, da sua forma, esperando infantilmente contar com acontecimentos externos para conseguir preencher o vazio de uma existência sem rosto.
Dois fenômenos da atual sociedade digital, na qual mais se mexem os dedos no iPhonedo que se ativam os neurônios, indicam uma falsa felicidade não derivada da efetivação de um projeto, mas sim de fatores marcadamente efêmeros, visivelmente enganosos: os relacionamentos pela rede Facebook e o culto às celebridades.
A urgência hoje vivida de compartilhar imediatamente todos os acontecimentos (ouvir uma música, comprar uma roupa, deliciar-se com um vinho, trocar um olhar) retira a vivência da realidade do âmbito individual, pois o essencial é antes dividir com alguém o sucedido para receber imediatamente o assentimento elogioso do que sentir isoladamente o prazer do fato, transformando-se, dessa maneira, o mundo numa grande academia do elogio mútuo. A satisfação, então, vem de fora, pois algo só vale se outrem vier a curtir. Instala-se um novo cartesianismo: eu compartilho, logo, existo.
Outra futilidade alienante domina os espíritos: a celebração das celebridades, os famosos, a mais perfeita criação artificial da mídia. Ídolos passageiros, sem conteúdo, apenas virtuais, povoam a fantasia. A existência perde consistência. Muitos são os espíritos empreendedores, porém, infelizmente, repetem-se hoje jovens para os quais a conquista árdua, a afirmação profissional deixa de ser importante para que eventuais fracassos não sejam sofridos, mas disfarçados, driblados pelo compartilhamento elogioso de momentos irrelevantes ou pelo consumismo desenfreado, que substitui o ser pelo possuir. A vida deixa de ter cor, passa em branco.
(Miguel Reale Júnior. O Estado de S. Paulo. A2, 6 de abril de 2013, com adaptações)
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Para resolver uma questão de interpretação de texto como esta, é crucial compreender o enunciado e as ideias principais do texto apresentado. Aqui, o autor discute temas relacionados ao trabalho e à superficialidade das interações na sociedade atual, especialmente no contexto digital.
Alternativa A - Correta: Esta alternativa reflete adequadamente a posição do autor. Ele começa discutindo o trabalho como uma possível condenação, mas rapidamente se move para criticar a superficialidade e a necessidade de compartilhamento virtual que caracterizam a sociedade moderna. A análise do texto mostra que o autor usa a discussão sobre o trabalho para chegar a essas conclusões sobre a sociedade digital atual.
Alternativa B - Incorreta: Embora o autor mencione o culto às celebridades, a ênfase do texto não está em identificar valores dispersos na sociedade ou na importância dos meios de comunicação, mas sim na superficialidade dessas interações.
Alternativa C - Incorreta: O texto não sugere que o homem deve aceitar suas condições de nascimento ou que a transformação em celebridade seja uma solução. O foco está na crítica à superficialidade das interações modernas e não em aceitar passivamente limitações.
Alternativa D - Incorreta: Embora o texto mencione que as frustrações são parte do "jogo da vida", ele não aborda diretamente o fortalecimento do espírito empreendedor. A crítica principal está na fuga para superficialidades em vez de enfrentar desafios diretamente.
Alternativa E - Incorreta: O autor discute a falta de amadurecimento, mas o texto não sugere que jovens empreendedores buscam sucesso na mídia. A crítica está voltada aos impactos negativos de interações superficiais e efêmeras, não necessariamente ao desejo por sucesso na mídia.
Para interpretar textos de forma eficaz em questões de concurso, busque identificar as ideias principais e a intenção do autor. Note como as alternativas se relacionam com o debate central do texto. Desta forma, é possível separar as alternativas corretas das incorretas.
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Comentários
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Gab: A
Confesso que não vi muita conexão entre o começo do gabarito e o restante dele, porém, as duas partes do gabarito: "A pretexto de divagações sobre o trabalho..." e "o autor se posiciona a respeito da superficialidade..." estão coerentes com o texto e são presentes em diversos trechos, tais como:
1º§ sobre a 1 ª parte do gabarito - "Seria verdade que o homem, ao ser expulso do paraíso, sofreu como condenação ter de trabalhar? O trabalho é um castigo? Seria o ócio uma dádiva? "
6º§ sobre a 2ª parte do gabarito - "Dois fenômenos da atual sociedade digital, na qual mais se mexem os dedos no iPhonedo que se ativam os neurônios, indicam uma falsa felicidade não derivada da efetivação de um projeto, mas sim de fatores marcadamente efêmeros, visivelmente enganosos: os relacionamentos pela rede Facebook e o culto às celebridades. "
Espero ter ajudado, desejo um bom estudo para todos, caso eu esteja errado, por favor, corrijam-me!
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