Considerando-se a função dos parágrafos na estruturação do t...
Leituras e adolescência
No meu tempo de ensino médio, entrada da adolescência, os livros de Português ou as “seletas” adotadas eram implacáveis: não se buscava o gosto já formado do estudante, ofereciam-se a eles sobretudo textos consagrados do século XIX. Modernismo? Quase nada (certamente uma pena, diga-se). Se algumas dessas leituras nos chateavam bastante, outras, por diversas razões, prendiam nosso interesse.
Intrigava-nos uma palavra nova, uma expressão curiosa, uma construção sintática desconhecida, e nossa imaginação era chamada a frequentar linguagens incomuns. Não se passava a mão na cabecinha dos adolescentes, entregando-lhes o que podiam mastigar sem esforço: chamavam-nos para as diferenças e desafios da literatura adulta, para o impacto que ela promovia em nós. Certamente havia aberrações nessa didática conservadora, mas havia também o estímulo para a dificuldade e para o desconhecido, para o inabitual e o “novo” que pode haver no “velho”.
Mas a recomendação que se pode fazer, sem querer recuar para programas obsoletos ou rígidas opções, é esta: tirar o estudante do trono em que a sociedade de consumo e a pedagogia da facilitação o colocaram e lhe oferecer um espelho no qual, em vez de ver apenas seu próprio rosto refletido, veja também tudo o que está ao seu lado, e logo atrás dele, e muito atrás dele, alimentando ainda sua mais acesa expectativa quanto ao que estará por vir.
(Tibúrcio Calógeras, inédito)
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Tema central da questão: Interpretação de Texto — mais especificamente, análise da função dos parágrafos na estruturação textual e progressão argumentativa. Segundo gramáticas de referência (Cunha & Cintra), “o parágrafo desenvolve uma ideia central, formando etapas do raciocínio do texto”.
Alternativa correta: D
No terceiro parágrafo, o autor propõe que o aluno seja desafiado a sair da zona de conforto, não recebendo apenas textos fáceis ou atraentes, mas também enfrentando obras mais densas e exigentes. Frases como “tirar o estudante do trono […] e lhe oferecer um espelho no qual, em vez de ver apenas seu próprio rosto refletido, veja também tudo o que está ao seu lado…” evidenciam essa proposta.
De acordo com princípios de coesão e coerência (Bechara, “Moderna Gramática Portuguesa”), cada parágrafo deve contribuir para o avanço do argumento, desempenhando função específica.
Justificativa: A alternativa D identifica de modo exato esse papel do terceiro parágrafo: sugerir a valorização do esforço, colocando o desafio como instrumento para não acomodar o aluno—estímulo fundamental ao desenvolvimento crítico.
Análise das alternativas incorretas:
A) Incorreta: Apenas o terceiro parágrafo apresenta sugestão concreta de prática pedagógica; os dois primeiros se concentram em relato e reflexão sobre experiências.
B) Incorreta: O primeiro parágrafo não recrimina o uso de clássicos antigos nem generaliza o desagrado; inclusive reconhece que algumas leituras eram interessantes (“outras [...] prendiam nosso interesse”).
C) Incorreta: O segundo parágrafo discute o estímulo e as descobertas proporcionadas por textos difíceis, e não um “esforço inútil”.
E) Incorreta: Em momento algum o autor sugere a leitura clássica como “sacrifício”. O texto destaca antes as possibilidades de crescimento e prazer advindas do contato com o novo e o desafiador.
Dica importante para provas: Em questões de interpretação, atente à função de cada parágrafo. Palavras como “sugere”, “recomenda”, “relata”, “critica” são pistas importantes para identificar a progressão argumentativa. Cuidado com termos absolutos como “todos” ou “sempre” ― costumam ser armadilhas!
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Mas a recomendação que se pode fazer, sem querer recuar para programas obsoletos ou rígidas opções, é esta: tirar o estudante do trono em que a sociedade de consumo e a pedagogia da facilitação o colocaram e lhe oferecer um espelho no qual, em vez de ver apenas seu próprio rosto refletido, veja também tudo o que está ao seu lado, e logo atrás dele, e muito atrás dele, alimentando ainda sua mais acesa expectativa quanto ao que estará por vir.
GABARITO D
"...tirar o estudante do trono em que a sociedade de consumo e a pedagogia da facilitação o colocaram..."
Esse trecho deixa a entender que a sociedade de consumo e a pedagogia da facilitação estimulam os alunos a serem relaxados, entendimento este que está de acordo com a alternativa D, senão vejamos.
"o 3° parágrafo, sugere-se que os alunos sejam convidados a um esforço de leitura, diante de textos que representem um desafio à acomodação que neles se estimula (devido à sociedade de consumo e a pedagogia da facilitação)".
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