O título do texto – “Lições erradas” – prende-se ao fato de ...

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Q942403 Português

                                               Lições erradas


      Dividimos a história em eras, com começo e fim bem definidos, e mesmo que a ordem seja imposta depois dos fatos – a gente vive para a frente mas compreende para trás, ninguém na época disse “Oba, começou a Renascença!” – é bom acreditar que os fatos têm coerência, e sentido, e lições. Mas podemos aprender a lição errada.

      A gente fala nos loucos anos 20, quando várias liberdades novas começavam a ser experimentadas, e esquece que foi a era que gerou o fascismo e outras formas liberticidas. O espírito da “era do jazz” foi também o espírito totalitário. Prevaleceram não os passos do charleston*, mas os passos de ganso dos nazistas.

      A leitura convencional dos anos 40 é que foram os anos em que os Estados Unidos salvaram a Europa dela mesma. Na verdade, a Segunda Guerra salvou os Estados Unidos, acabou com a crise econômica que sobrara dos anos 30, fortalecendo a sua indústria ao mesmo tempo que os poupava da destruição que liquidou a Europa, fortalecendo um sistema econômico que mantém sua economia saudável até hoje. O fim da Segunda Guerra foi o começo da era americana. Os americanos salvaram o mundo – e ficaram com ele.

      Já nos fabulosos anos 60, enquanto as drogas, o sexo e a comunhão dos jovens pela paz e contra tudo o que era velho tomavam conta das praças e das ruas, o conservadorismo se entrincheirava no poder.

      Quando fizerem, no futuro, a leitura de nossa época, qual será a conclusão errada?

*Charleston = dança de salão muito difundida na década de 20

(Adaptado de: VERISSIMO, Luís Fernando. Banquete com os deuses. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 207/208) 

O título do texto – “Lições erradas” – prende-se ao fato de que, na visão do autor, as experiências históricas
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Comentário do Gabarito – Interpretação de Texto (Advogado)

Tema central: O que está em jogo nesta questão é a interpretação crítica de texto, com atenção a intenções do autor e identificação de ironia ou crítica velada. Isso exige ir além da leitura superficial, identificando as ideias principais e possíveis subentendidos.

Justificativa da alternativa correta (B):
A alternativa B (“as experiências históricas são frequentemente interpretadas de modo a falsear o sentido que deveria ser reconhecido”) traduz com precisão a tese do texto: a história frequentemente é compreendida de maneira distorcida, produzindo “lições erradas”. O autor exemplifica isso ao mostrar como, no senso comum, os anos 20, 40 e 60 são lembrados por certos aspectos positivos, ocultando outros negativos ou contraditórios. O título “Lições erradas” reforça exatamente essa crítica – ou seja, as análises históricas costumam ser simplistas e enviesadas.

Análise das alternativas incorretas:

A) Propõe que a história “ilumina fatos contemporâneos”, o que é oposto à crítica do texto. O autor, pelo contrário, ironiza o excesso de certeza nas leituras históricas.

C) Fala dos que “mais sofreram com elas”, tema não abordado no texto, que discute interpretações coletivas posteriores — não a compreensão dos protagonistas dos fatos.

D) Atribui o mau aproveitamento das lições ao egoísmo, o que não é central no texto. A ênfase está na interpretação equivocada, não na falta de vontade de aprender.

E) Afirma que, sem reflexão, a história não tem consequências. O texto aponta justamente o contrário: as consequências existem, mas podem ser baseadas em interpretações erradas.

Estratégia de interpretação: Em provas, busque palavras-chave no título, observe o tom crítico ou irônico, e desconfie de alternativas que tragam explicações simplistas, fora do foco do texto ou com generalizações.

Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), a interpretação de textos deve sempre buscar o sentido total e contextual da mensagem, inclusive na identificação de recursos de ironia e crítica.

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Dividimos a história em eras, com começo e fim bem definidos, e mesmo que a ordem seja imposta depois dos fatos – a gente vive para a frente mas compreende para trás, ninguém na época disse “Oba, começou a Renascença!” – é bom acreditar que os fatos têm coerência, e sentido, e lições. Mas podemos aprender a lição errada.

 

Quando fizerem, no futuro, a leitura de nossa época, qual será a conclusão errada?

 

GABARITO B

 A gente fala nos loucos anos 20, quando várias liberdades novas começavam a ser experimentadas, e esquece que foi a era que gerou o fascismo e outras formas liberticidas. O espírito da “era do jazz” foi também o espírito totalitário. Prevaleceram não os passos do charleston*, mas os passos de ganso dos nazistas.


*** Evidencia-se as coisas boas deixando de lado acontecimentos ruins.

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