Farofa, a comida mestiça que está na mesa dos pobres e dos
ricos
Eu vou saudar a farofa! Ela nunca exige protagonismo. Está
ali, na beirada do prato, como quem não quer chamar atenção,
mas, silenciosamente, sustenta toda a estrutura da refeição. Tire
a farofa da mesa e logo surge um desconforto, uma ausência que
ninguém consegue nomear, mas todos sentem. Ela tem a
estranha virtude dos coadjuvantes indispensáveis.
As raízes da farofa estão na mandioca, planta domesticada
pelos povos originários muito antes de qualquer europeu sonhar
em atravessar oceanos. A farinha de mandioca, assim, se tornou
não só base alimentar, mas também uma herança cultural. E sim,
já existia ali uma espécie de farofa — farinha tostada na gordura
da caça, enriquecida com pedaços de peixe, raízes, frutas ou
ervas locais.
Depois veio o choque da colonização. Junto dele, a
presença forçada dos africanos, sequestrados de suas terras, que
trouxeram para a cozinha brasileira um repertório de técnicas e
sabores que mudou tudo. Na mistura ameríndia, entraram as
gorduras generosas, os miúdos, as carnes defumadas, as cebolas
dourando, o dendê, as especiarias. A cozinha virou espaço de
resistência, de criação, de memória e de reinvenção.
Sérgio Buarque fala que as famílias do interior colonial
torravam todos os dias sua mandioca. Era uma “fineza da terra”,
uma sofisticação em meio agreste e rude. Ela viaja no alforje
bandeirante e acompanha a lida do gado. Sobrevive a viagens.
Misturada ao charque, alimenta a colônia.
Os portugueses, sempre pragmáticos, se adaptaram. Sem
trigo para o pão, adotaram a farinha de mandioca como
substituto. Trouxeram carnes curadas, embutidos, métodos de
charcutaria, e acrescentaram novas camadas a esse prato que
nunca se apresenta como prato.
O curioso é que, apesar de carregar toda essa história, a
farofa nunca pede palco. Está ali para servir, para acompanhar,
para dar sentido ao conjunto. Ninguém recebe apenas com um
prato de farofa, mas fica uma lacuna se ela desaparecer.
E há, talvez, algo de profundamente brasileiro nisso. A
farofa é, por definição, a comida mestiça, da adaptação, da
criatividade. É improviso! É nacional e local. Sai do solo como
mandioca/macaxeira/aipim. Torna-se uma “poupança
enterrada” que pode ser sacada quando necessária. Diferente de
uma fruta que amadurece e exige ser colhida imediatamente, a
raiz da mandioca dorme, engrossa e anuncia que aguardará
semanas, meses, anos até ser resgatada e saciar fome.
Geógrafos deterministas dizem que milho e arroz geram
Estado e burocracia. A mandioca é mais libertadora de estruturas
políticas complexas.
Ela está na mesa do pobre e do rico. No almoço apressado
da obra, surge da farinha tostada com um pouco de sal e
gordura. No restaurante estrelado, esconde-se sob a alcunha de
“farofa de panko com manteiga trufada e castanhas”. Ela circula
com a mesma desenvoltura no churrasco de esquina e no brunch
gourmet. Pode ser feita com ovo (adoro!), banana, bacon,
torresmo, cebola, carne-seca, cogumelo, amêndoas ou até
daquela última bolacha esquecida no fundo do armário. O século
dezenove adorava com banha de porco, mas incorpora bem a
manteiga e o azeite de oliva. Metamorfose absoluta: aumenta o que é pouco, engrossa o que é ralo e esfria o que é quente. É um
signo aberto em plena mesa.
A farinha funciona com o luxo e com a escassez. A farofa
não julga. Ela aceita o que há. Vive do que sobra. Sobrevive do
que se oferece. E, ainda assim, nunca é menos. Ela contraria o
zelo nutricional. Você pegou arroz e batatas? Nada como uma
farofinha por cima para unir de forma harmoniosa a cota de
carboidratos. Engordou? O culpado será o pudim e a batata frita.
A farofa é inimputável. A barriga sempre será de “chope”, jamais
de mandioca.
A farofa é única e autoral. Ela nunca sai igual, porque nunca
somos os mesmos.
A farofa é Heráclito puro: tudo flui ou se
esfarela... Cada farofa é uma fotografia daquele dia, uma digital
irrepetível. É feita do que tinha, de quem estava, de como a vida
se apresentou naquela hora. Talvez seja como o vinho. Cada
safra carrega o clima, a terra, o tempo, a mão do produtor, o jeito
da uva naquele ano. E é justamente isso que torna cada garrafa
única. Assim também é a farofa. Nunca se repete. E, por isso, é
tão especial.
No fim, como a vida, farofa não tem receita. E talvez essa
seja a beleza única da planta. No fundo, a vida é feita disso. De
memória, de afeto e de esperança. Esperança de que, enquanto
houver gente, haverá também farofa. E que, afinal, todos somos
“farofeiros da vida” – improvisando, sobrevivendo, rindo e
despejando colheradas da deliciosa farofa sobre o prato. Comida
é afeto e cultura. Vai uma farofinha no seu domingo?
Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado).
No texto, a farofa é construída como elemento
aparentemente secundário, mas dotado de forte densidade
cultural e simbólica. Essa construção interpretativa se sustenta
sobretudo porque o autor: