DIFERENTES MODO DE LER Gabriel Perissé Precisamos ser leitor...
Precisamos ser leitores. Deixou de ser uma opção qualquer. Precisamos ser leitores, sem pestanejar. Sem hesitar. Sem titubear. Talvez nunca tenha sido uma questão tão, tão, mas tão premente. Não há mais tempo para esperar o melhor tempo. Agora é uma questão de sobrevivência para todos nós. De vida ou de vida. A leitura salvará a sociedade. A leitura salvará o planeta. A leitura salvará o livro. A leitura é o sal da terra e a luz do mundo.
Quem escreve tem incurável fascínio pelos leitores. Os escritores querem criar o seu leitorado, porque sabem que o leitorado lhe dará o único poder que um escritor merece ter: o voto de confiança em sua palavra.
Há diferentes tipos de leitores. Ao definir o seu leitor, o escritor define o que irá fazer para que possa chamá-lo de "seu leitor". Diga-me quem é o seu leitor, e eu lhe direi que tipo de escritor você é. E na outra direção também: diga-me que leitor você é, e eu lhe direi quais os escritores criaram você.
O pensador francês Michel de Certeau dizia que o leitor é um caçador que percorre terras alheias. Este leitor caçador invade, na página, a mente de outra pessoa. E captura imagens. Persegue palavras e prepara armadilhas para os conceitos mais ariscos. O leitor caçador coleciona em sua biblioteca particular, como se troféus fossem, os autores que um dia alvejou com seu olhar.
Outro francês, menos conhecido, o professor Vincent Jouve, acha que o leitor é um voyeur legítimo. É um caçador diferente do anterior. É um caçador Contemplativo, que mantém distância. Gosta de olhar e ver, mirar, acompanhar de longe os gestos dos personagens. Este leitor furtivo abre o livro como quem fica por trás da persiana, observando o movimento da rua.
O escritor argentino Ricardo Piglia definiu, em seu livro O último leitor, que o leitor é justamente aquele que busca o sentido da experiência perdida. E é assim que este outro tipo de leitor caçador recupera todo o tempo que perdeu e simultaneamente ganhou na leitura.
Para o romancista russo-americano Vladimir Nobokov, leitor é aquele que vai construindo um dicionário cerebral abundante, complexo, e, desse modo, adquire sentido artístico ao falar e escrever. Este tipo de leitor é forte candidato a ser escritor. É também um caçador. Talvez um "caçador de mim", porque a leitura leva-o a conhecer-se melhor e a expressar-se com mais agudeza.
Kafka reconhecia-se como um leitor lento. Por ser meticuloso demais este tipo de leitor não tem pressa. Parece-lhe necessário avançar com redobrado cuidado no labirinto do texto. E para que, afinal, ler correndo e não perceber a realidade nua, dura, crua?
A escritora e ensaísta Francine Prose faz um alerta. Quem lê muito rápido entenderá a narrativa, as ideias, as verdades de um texto, mas tal rapidez pode tornar-se sério empecilho para saborear as entrelinhas.
Guimarães Rosa queixava-se dos leitores analfabetos para as entrelinhas. O leitor que corre nas linhas pode vencer na velocidade dos parágrafos, mas perde na maratona da compreensão profunda. E Rubem Alves, mestre de leituras, tinha outra queixa: quem lê rapidamente aquilo que o autor levou talvez uma década para pensar e produzir comete uma grande falta de respeito com o escritor. Nietzsche, uma das paixões de Rubem Alves, confessou: "Não fui, em vão, filólogo, e ainda o sou talvez. Filólogo quer dizer mestre na leitura lenta".
O leitor lento (não sonolento) medita, rumina, assimila as palavras, e as transforma em carne da sua carne. Adquire a autoridade da leitura. O leitor lento, atento, desenvolve a capacidade de caminhar com decisão em direção ao seu destino.
Em busca de seu leitorado, o escritor faz uma incansável campanha verbal. Machado de Assis, falando através de seus narradores, refere-se ao "amado leitor". Não sejamos ingênuos, porém. Há uma pitada de ironia nesse amor. Machado também o chama "fino leitor", "leitor pacato", "curioso leitor". São
provocações para que o leitor leia melhor. Para que sejamos realmente finos e curiosos. Ainda que continuemos cultivando a pacatez .
Num dos seus poemas em prosa, Mario Quintana constata em si a atitude quixotesca. Tal atitude o leva a recriar as coisas em imagens (diferentemente de Sancho Pança, que vê apenas a realidade). Ao invés de solucionar a contenda entre Quixote poético e Sancho pragmático, Quintana afirma que sua "atroz função não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar e não pensar por ele". E é isso o que o poeta faz: repassa ao "pobre leitor" o enigma da leitura.
Tornar-se leitor consiste em assumir o claro enigma da própria existência humana. Habilidades e competências serão inúteis, se não houver (estou pensando na educação integral) algo mais do que viver somente no plano do que é prático, eficaz, do que é produtivo, lucrativo. Os moinhos de vento tornaram-se, de fato, guerreiros gigantes.
Educação. São Paulo: Segmento,n.251.set.2018
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Tema central da questão: Interpretação de Texto, mais especificamente a progressão temática e a estrutura do texto dissertativo-argumentativo.
Ao interpretar questões como esta, o candidato precisa identificar como o autor organiza as ideias ao longo do texto. Isso envolve reconhecer introdução, desenvolvimento e conclusão, elementos básicos da progressão temática segundo a norma-padrão (como definido por Bechara e Cunha & Cintra em suas gramáticas).
Justificativa – Alternativa A (correta):
Os três primeiros parágrafos contextualizam e introduzem o tema: a necessidade urgente da leitura e o fascínio do escritor pelo leitor. O autor constrói, de forma clara, o “ambiente temático” – cumprindo o papel da introdução, que é, pela norma, a seção responsável por apresentar o assunto e situar o leitor.
Nas palavras de Celso Cunha & Lindley Cintra: “A introdução é a parte do texto em que o autor apresenta e delimita o tema, preparando o leitor para os argumentos que virão” (Nova Gramática do Português Contemporâneo).
Análise das alternativas incorretas:
B) Está errada pois o texto não se limita à classificação de “leitor caçador” e “leitor amado”. Apresenta muitos outros perfis, além de exemplos como leitor-voyeur, leitor lento, entre outros, fugindo da simplificação proposta.
C) Incorreta porque não são apenas os quatro últimos parágrafos que trazem considerações finais. As reflexões conclusivas (sobre papel do leitor diante da vida, enigmas, etc.) estão diluídas, mas não restritas estritamente a esse trecho.
D) Incorreta pois a estrutura clássica é tripartida (introdução, desenvolvimento e conclusão) e não bipartida como sugere. Retirar a conclusão fere tanto a coesão do texto quanto a estrutura normativa prevista em gramáticas e manuais de redação, como o Manual da Presidência da República.
Dica de prova: Ao ler o texto, identifique a mudança de foco ou a transição do tema – a introdução geralmente contextualiza ampla e argumentativamente o assunto!
Resumo: A alternativa A é a única que reconhece corretamente a função dos parágrafos iniciais como introdução, seguindo os princípios da organização textual previstos pela norma.
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A ALTERNATIVA CORRETA É: A) UTILIZA OS TRÊS PRIMEIROS PARÁGRAFOS PARA CONTEXTUALIZAR A TEMÁTICA A SER DESENVOLVIDA AO LONGO DO TEXTO, CORRESPONDENDO À INTRODUÇÃO.
ANÁLISE DAS ALTERNATIVAS INCORRETAS:
- B) Segmenta o desenvolvimento do texto em duas seções nas quais são classificados os tipos de leitores: leitor caçador e leitor amado.
- Incorreta. Embora o texto descreva diferentes tipos de leitores, ele não os divide rigidamente em duas seções, nem destaca especificamente "leitor caçador" e "leitor amado". O autor fala de diversos tipos de leitores ao longo do desenvolvimento, mas não os segmenta de maneira tão simplista.
- C) Utiliza, tão somente, os quatro últimos parágrafos para tecer considerações finais acerca da temática desenvolvida.
- Incorreta. O texto não faz uso exclusivo dos últimos quatro parágrafos para concluir a discussão. O desenvolvimento das ideias ocorre ao longo de várias partes do texto, com considerações finais mais amplas no final, mas não restritas a esses parágrafos.
- D) Segmenta o texto, tão somente, em duas seções, sendo a primeira a introdução e a segunda o desenvolvimento.
- Incorreta. Embora o texto tenha uma introdução e um desenvolvimento, ele é mais complexo e diversificado em sua estrutura. O autor faz várias divisões dentro do desenvolvimento, falando sobre os diferentes tipos de leitores, e não apenas em duas seções principais.
EM RESUMO: O autor utiliza os três primeiros parágrafos para estabelecer a importância da leitura e a necessidade urgente de se tornar um leitor, criando a base para o restante do texto. Os outros parágrafos desenvolvem as ideias sobre os diferentes tipos de leitores e suas características, o que vai além de uma simples divisão em introdução e desenvolvimento.
PONTOS CHAVE:
- A é a alternativa correta, pois descreve com precisão a função dos três primeiros parágrafos como introdução da temática.
- B, C e D não correspondem corretamente à estrutura do texto e sua divisão temática.
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